PAREM DE FALAR MAL DO PIAUÍ!

Novembro 17th, 2009


Sou fã de todas as manifestações do humor, piadas, caricaturas, charges, comédias, enfim, considero o humor o supra-sumo da inteligência, pois nos desperta pras coisas mais sérias através do riso. E mesmo sabendo e considerando o fato de que muitas vezes o humor é cruel, pois tem sua matéria prima nas nossas falhas, nossos erros, nossos defeitos de nascença, acho que piada tem limite. E onde mora esse limite? Difícil, pois cairemos num lugar delicado que é o bom gosto. E gosto cada um tem o seu. Mas uma coisa é certa, se é repetitivo, afeta a alma, destrói, desanima, rotula, não pode ser humor do bem. O verdadeiro Humor vem inusitado e cutuca a ferida, mas na piada vem embutido respeito, às vezes até mesmo admiração, pois ninguém faz piada com o que não se considera. Só tem graça se nos diz respeito.

Não há nada mais chato que piada velha, cansada de guerra, que todo mundo já conhece o final. Essa história de sacanear, (perdão da palavra, pois não consigo achar outra) o estado do Piauí é do tempo do onça, é coisa de gente velha (no mal sentido) e desinformada. Posso fazer uma lista desses homens do humor que contribuíram pra consolidar essa imagem ruim sobre o Piauí, um dos mais bem sucedidos no intento, é o Juca Chaves, que deu melodia ao avacalhamento. Mas pra compreendê-los melhor, por respeito aos seus trabalhos e a história, tento ambientar-los no tempo e no espaço. Chego à conclusão de que eles são velhinhos, são do tempo do Piocerão, PIAUÍ, CEARÁ E MARANHÃO, os estados mais pobres do Brasil. Só que conseguiram parar de fazer piada de mau gosto com o Ceará, com o Maranhão, mas continuam pegando no pé do Piauí por pura ignorância, (será que burro velho não aprende?), pois em muitos aspectos, incluindo saúde, educação moradia, PIB, o Piauí dá de dez, e não para de crescer. Mas pra muita gente, quebrar paradigmas é perder o chão, ou a piada.

E o que me parece pior é ver jovens caindo na esparrela de confiar na opinião dos sábios anciões. Continuam a tradição falando mal do Piauí até o fim. Mas eu não vou por a culpa só nos homens do humor, vou à diante. A difamação é generalizada. A imagem do Piauí é ruim mesmo, embora lá a gente pense que seja diferente. Temos a ingenuidade de acreditar que podemos ganhar o Rio, São Paulo e muitos outros estados com o nosso carisma, nosso talento, e que trazer na identidade Made in Piauí não nos seja um problema. Ledo engano. Eu que moro fora há 15 anos e sofro com o pré julgamento depreciativo na pele e carrego nas costas o peso de ser do Piauí, posso falar de cadeira. E embora goste muito e respeite a cidade em que vivo não posso me fazer de rogado, eu sinto, eu vejo.

Quando uma modelo linda faz sucesso e fala que é do Piauí, ninguém acredita, quando uma escola de Teresina tem o melhor resultado do Enem, dizem que foi engano, roubo, quando uma cantora começa a aparecer vem um caminhão e passa por cima questionando sua qualidade, seu valor, quando um humorista vem do Piauí, sofre perseguição, maus tratos, quando uma atriz batalha e consegue bons papeis, têm alguma coisa errada… Se eu for retratar tudo o que já vi, não acabaremos hoje. O Piauí está associado ao atraso, à feiúra, a pobreza cultural e socioeconômica. Por mais que mostremos que não é bem assim, vale mesmo a velha imagem deturpada. Parece que temos a marca de Caim. Por isso valorizo demais os que são vitoriosos diante desse quadro e invejo os que ficaram em casa protegidos.

O mais triste é que diante de tanto achincalhamento configurado, nós e nossos filhos vamos esmorecendo, deprimindo, acreditando que somos feios e pobres, que não temos direito a respeito, admiração, sucesso, fama, que somos condenados ao ostracismo e ao papel de palhaço! - O quê que é isso! Me respeite seu moço! Eu existo!

Parem de falar mal do Piauí! Já perdeu a graça! Eu não vou dizer que lá o máximo, que a cultura é a mais rica, que o ensino é o melhor, que nossos políticos são um exemplo, que todo mundo é lindo, que o clima é ameno, pois eu teria primeiro que fazer um estágio na Bahia (adoro a estima deles), mas que nós somos especiais somos, e quem não tiver seus defeitos que atire a primeira pedra.

E agora, não por bairrismo, mas por ser fã da inteligência e do humor, eu dou uma dica: Leiam, escutem, se informem, conheçam o Brasil, visite o Piauí antes que ele vire a Dinamarca.

CHOQUE DE REALIDADE

Novembro 10th, 2009


Patricia Mellodi

Depois de viver um pouco, chego à conclusão que o ser humano precisa de vez em quando passar por um choque de realidade. Precisa levar um susto, um chifre, passar um aperreio, fome, medo. É preciso que aconteça qualquer coisa inesperada e aparentemente desagradável pra que a pessoa volte ao prumo. É como levar uns dois tapas na cara pra acordar. Digo isso por observação e por experiência própria.

Como não é bom apontar os outros, melhor começar falando de mim. Eu sempre fui vaidosa e megalomaníaca e minha doença sempre foi alimentada de todas as formas, principalmente através de elogios e oportunidades, eles são o meu fraco. Certa época, toda vez em que tinha uma oportunidade melhor no trabalho, ou uma simples perspectiva, esbanjava arrogância com ares de vencedora. Sempre que achava que estava segura numa coisa, tratava rapidamente de me sentir a última coca-cola do deserto, e com o nariz empinado bradava auto-elogios e lições de como fazer dar certo, magoando meus amigos, meus amores. Mas quanto maior era o voo, maior o meu estabaco!

Observando as pessoas mais próximas, confirmei minha teoria. Bastam dois ou três acontecimentos positivos, pra esquecermos completamente de onde viemos e pelo o que já passamos. Veja a minha empregada, quando veio me pedir emprego, parecia faminta, humilde, desesperada por um trabalho. Confesso que apesar dela não corresponder as minhas exigências, senti pena e a contratei. Menos de um ano depois ela estava transformada. Dando ordens em mim, preguiçosa feito um gato de hotel, faltando descaradamente ao emprego. Custei, mas mandei embora, lógico, e ela me disse: - Oh Dona fulaninha, o que vai ser de mim sem a senhora! Dane-se! Pensasse nisso antes. A demissão era necessária pra aquela criatura, didático.

Uma prima minha que beirava os quarenta, já meio desesperada com seu relógio biológico, de repente casou com um cara inteligente, trabalhador e apaixonado. Ela não tinha grandes atributos, mas no geral dava pro gasto. Um tempo depois do primeiro filho, ela falava pra quem quisesse ouvir: - Marido só serve pra carregar sacola e abrir vidro de azeitona. (parece piada, mas não é!) Tratava o pobre feito um cachorro, vivia de mau humor, com enxaqueca. Resultado: Levou um chifre e um fora fenomenal! Agora ela chora, manda recado por todo mundo que quer voltar, e ele nada. Mas fala sério, ela mereceu!

Ser humano é tudo igual, não pode encher a barriga um pouco que já ganha forças pra discursar, não pode ter um pouquinho no banco que já considera o amigo de anos, ralé, não pode nem receber muito amor e carinho que já começa a fazer apostas altas demais, a colocar o amor na roda.

Não importa o credo, a raça, a cor, o sexo, a posição social, é tudo a mesma coisa.

Depois de identificar essa peculiaridade humana, inclusive na minha pessoa, pois não fujo a regra, resolvi fazer confrontos com a realidade diariamente pra não perder a referência. As vezes vacilo, mas sempre me confronto. É melhor ficar ligado pra não virar um babaca só por que ganhou uma mariola, e muito menos se transformar num insensível por que perdeu a necessidade.

Me obrigo a pensar todos os dias nos altos e baixos, na riqueza e pobreza de que pode ser feita a vida de uma pessoa só. Lembro o resto de perfume que tinha que durar, o batom que raspei até o talo, a pasta de dente que espremi incansavelmente, o bloco dentário que colei com superbonder, os yakisobras que comi e, aqueles amigos de sempre. E no espelho digo: Eu não posso me esquecer disso nunca.

Faço de vez em quando compras em mercadinhos bem apertados, com pouco dinheiro que é pra nunca esquecer como é contar moeda, (digo contar mesmo, os centavos), aproveitar promoção, como é não poder comprar certas coisas básicas como margarina, como é ter que dirigir um carrinho de supermercado vazio com prudência e gentileza, repetindo a cada segundo: - Com licença senhor, perdão senhora.

Tento não ficar cega por ganhar um elogio. Aceito desconfiando. Elogios e oportunidades são meu fraco. Alerta vermelho nessa hora. Se vier coisa boa, eu vou com calma, pode ser alarme falso, trato de ficar mais perto dos meus amigos pra não vacilar. Às vezes pareço não valorizar o que me acontece profissionalmente, mas não é isso. É que eu não posso cair de novo em tentação e começar a me achar a tal por causa de um convite, um fã, um dinheirinho a mais. Tudo hoje, amanhã pode ser o contrário.

Penso que tenho que me cuidar e cuidar do meu amor, pois as gostosas estão por aí, e elas não são burras nem idiotas. Tem gostosa super gente boa, delicada, inteligente, culta e independente. Isso é muito terrível, mas é real. É melhor não colocar pra jogo se não quero perder.

Mesmo tendo empregada, faço faxina, lavo roupa, cuido de filho, aprendo a fazer comidas gostosas, criativas e baratas, pois é preciso saber ter e não ter. Se alguma coisa falhar, eu faço uns bolos pra fora.

Forço a barra pra não perder a memória e a inteligência, mas quando alguma coisa vem me tentar eu lembro da minha avo Iaiá:

- Esse aí, tem um bode amarrado num pé de caju e pensa que tem uma fazenda!

ME DEIXA CHORAR!

Outubro 27th, 2009


Patricia Mellodi

Com essa febre de felicidade obrigatória, sofrimento zero, lei do menor esforço, eu me sinto até constrangida de ficar triste, de curtir uma fossa.

Dizer que está triste, deprimida, é quase dizer que matou alguém, que tentou suicídio, que tomou coca-cola normal.

Mas a verdade é que de vez em quando me dou conta de que tenho razões pra chorar. Aliás, tenho motivos o suficiente pra verter um tsunami.

Com os óculos de leitura passo a vista ao redor de mim e noto rugas, não reconheço a minha imagem e o cenário não é exatamente uma maravilha. Entro numas. Aí quando estou curtindo aquela autopiedade prazerosa, pinta uma amiga do bem pra encher a minha bola, pra me dizer que sou linda, talentosa e que minha família é maravilhosa, que eu só tenho razões pra agradecer.

Tenha santa paciência, me deixa chorar!

É muito chata essa mania de querer por os outros pra cima o tempo todo! Esse papo de pensamento positivo é um saco! E o pensamento real? A verdade rasga, dói. Ninguém te diz: - Chora, chora mesmo, você tem motivos!

Eu que mesmo alegre defendo o direito de chorar de tristeza e autopiedade, já me sinto com medo de mergulhar nas minhas lamúrias e afastar os amigos em três parágrafos, e me pego rezando pedindo perdão por escrever assim.

Mas como diriam os filósofos pessimistas, a tristeza só existe pra quem pensa. Não existe depressão pros que levam a vida na superfície. E como eu não sei fazer nada no raso, que seja!

Não estou de TPM, não cortei o cabelo, nem engordei além do normal, só parei pra observar a vida. E choro. Choro pelos planos falidos, pelo o inimigo íntimo, pelos medos, pelos medíocres, pela celulite, pela perspectiva turva, pelo tempo que nunca mais vai voltar…

E não me venham com peninha, pois só quem pode sentir isso de mim, sou eu mesma! Pra qualquer um a minha vida é uma fotografia extraordinariamente perfeita!

SE VC QUISER CHORAR COMIGO,
ASSISTA ESSE VÍDEO DO FÁBIO JUNIOR! A TRISTEZA É BREGA E LINDA! http://videolog.uol.com.br/video.php?id=356317

INCONFESSÁVEL

Julho 29th, 2009

De Patricia Mellodi

É muito difícil chegar a esse nível de sinceridade, está além das minhas possibilidades. Estou hoje rompendo um paradigma, dando um salto com relação à aceitação de mim mesma. Apesar de ser hoje um ser humano mais evoluído, recuperado espiritualmente, e de jamais me imaginar nessas condições que vou relatar, eu não posso negar o que já fiz.

Eu sempre me apresento de maneira doce, engraçada, sociável, mas hoje não, tenho uma revelação dura, cruel e arriscada sobre a minha pessoa. Alguns talvez não entendam, torçam a cara ou o bico pra mim, mas o jogo da verdade se faz necessário em função da minha disciplina e obediência aos exercícios propostos pelo meu mestre, Professor Paschoal, o mentor da oficina literária que faço parte.

É com muito pesar, vergonha e estranheza, que confesso: Eu já matei uma galinha. É, eu matei, e matei sem culpa, sem sentimentos, movida única e exclusivamente pela minha necessidade de afirmação.

Naquele dia eu senti que nada ia ser como antes. Eu nunca mais iria precisar de nenhuma mucama pra me alimentar, e surpreenderia a todos. Embora fosse quase uma criança, já demonstrava meu talento culinário nos cuzcuz e bejus que preparava, mas queria tocar fundo no estomago daquele que me gerou, fazendo o seu prato predileto.

Pelos fundos da casa fui até o quintal, passei os olhos de águia em revista e escolhi de longe a minha vítima, a mais desatenta, vermelha e gordinha que vi. Ela era perfeita. Corri pelo quintal aos gritos e cacarejos da galinácea presente e consegui alcançar o meu alvo, a galinha ruiva.

Segurando a pobre pelos pés de cabeça pra baixo, fui pra cozinha. Na pia já estavam os meus utensílios: uma faca afiada, uma tábua de carne de madeira e um pequeno pote pela metade de vinagre. No fogo uma chaleira fumegando. Segurei firmemente à ruiva, despelei um pouco do lado direito do seu pescoço e a imprensando contra a tabua, passei a faca com toda firmeza. A bicha se debatia forte, gritava, mas eu friamente não me abalava, continuava o corte. Atingi a veia em cheio e virei seu pescoço para o pote, misturando o jorro do seu sangue ao vinagre. Em segundos ela finalmente se aquietou e me deu paz para continuar meu serviço.

Joguei a água quente que fervia na chaleira no seu corpo, depenei, limpei os canhões (pelos encravados), deixei ela bem lisinha. Abri seu peito, fiz a autopsia perfeita como uma exímia legista, ou melhor, cozinheira. Separei os miúdos, cortei o corpo em partes e temperei com ervas e vinho. Reservei por algumas horas.

Mais tarde refoguei com alho e cebola, cozinhei por duas horas, pois galinha caipira demora a ficar macia, e quando estava bem cozida, despejei na panela o sangue misturado ao vinagre. Em minutos estava pronta minha galinha à cabidela.

Meu pai comeu de lamber os beiços, a empregada me odiou por dias a fio, mas eu nunca me livrei da culpa deste crime inconfessável e delicioso.

Um dia pra ficar na memória

Julho 14th, 2009


De Patricia Mellodi

Já tinha me conformado em assistir pela televisão o show do Roberto no Maracanã. Ir pra arquibancada nem pensar! Seria mais confortável e não menos emocionante ficar no sofá da sala, curtindo aquele que embalou vários momentos da minha vida, até àqueles em que eu não estava presente em corpo, mas planejada em alma.

Pra falar a verdade, nem estava pensando muito no show, pois tenho horror à multidão. Mas na véspera me bateu uma culpa de fã: - Como eu não vou ao show do Rei? Eu devo tanto a ele! E ando precisando tanto chorar! E mandei ver no twitter: “- Fico pensando no show do Roberto amanhã que eu não vou. Só me resta assistir em casa chorando muito…” Escrevi aquilo num fim de noite sem mais expectativas. Foi só um desabafo twittanesco. Dormi.

Na manhã seguinte, sábado, havia um recado pra eu retornar a ligação pra um tal de Hélio. Helio? Só conheço três: O Helio De la Peña(que nunca me ligaria), o Seu hélio que digita etiquetas de mala direta pra mim, e o Hélio marido de uma amiga, a Roberta, ambos trabalham na TV Globo. Só podia ser ele.

- Alô, Hélio?!
- Sim.
- Hélio, é Patricia, você me ligou?
- Liguei sim. É verdade que você vai assistir ao show do Roberto pela televisão chorando?
- É verdade, eu não comprei ingresso!Sei lá…
- E se eu te disser que tenho dois ingressos VIP pra assistir do gramado, aquele lugar bonzão?
- Ah, eu não acredito! É claro que eu quero!
- Então as sete e meia eu passo pra pegar vocês.

Foi o poder da amizade se manifestando através do twitter! Combinação fantástica e moderna. Ingresso vip Pra ver o Rei e carona, é sorte demais!

O Botafogo jogando na raça, mandando ver num glorioso 2×1, mas eu nem sequer tinha ânimo pra olhar pra TV, só queria estar linda e preparada pra todas as emoções daquela noite.

Apesar de estar de capa preta, botas, num visual clássico de inverno, caprichei numa camiseta sobreposta com um laço de paetês branco bordado. Eu não poderia deixar de brilhar, afinal, não estava vestida nem de branco, nem de azul. E minutos depois: - Eles estão lá em baixo esperando.

Abraços, agradecimentos insistentes, transito e enfim, chegamos ao Maracanã, entrada gramado azul. Mulheres de todas as idades e estirpes. Casais que não saem de casa há muito tempo, reconheci pelas teias, comitivas e excursões de vários lugares. Mulheres vestidas de casaco de pele, brilhos e brocados de me fazerem inveja. Chiquérrimas nos seus saltos agulhas, botas maravilhosas, algumas de tênis, mas todas com estilo e impecáveis. Imagina ir ver o Rei num modelito básico! Nunca vi tanto rosto repuxado de plástica, tantas velhinhas desinibidas e alegres, tantos filhos e maridos carinhosos, tantos amigos de terceira idade juntos, uma verdadeira irmandade da “coroa”.

A fila andou relativamente rápida e já estávamos no centro do santuário do Futebol, mas a bola era um microfone, e o craque era o Rei Roberto Carlos. De cara ao entrarmos no gramado recebemos uma capa de chuva, pois o céu vermelho ameaçava precipitar. Pessoas transitavam procurando seus lugares, fotógrafos atrás de famosos, mulheres desfilavam seus decotes na área vip, políticos, artistas, jornalistas, músicos, uma badalação geral. Mas o mais emocionante na verdade era olhar pra trás e ver a multidão que se apinhava na arquibancada. Aquele sim era um público animado, cantando, fazendo a “ôla”, e acendendo luzinhas, isqueiros, celulares, o que fosse pra abrilhantar mais ainda o show, mesmo antes dele começar, somente incitados pelo animador e ator Eri Johnson.

Uma moça vestida com uma camiseta escrito produção nos perguntou se estávamos no nosso lugar pois já ia começar o show. E de repente: - Atenção o show vai começar. Com vocês O Rrrrrei Rrrrrrrrroberto Carrrrrrrrrlos.

Dali em diante mesmo sem tomar uma gota de álcool eu já estava embriagada. Ele entra no palco num calhambeque azul, desce, fala as mesmas palavras de sempre e canta emoções. E enquanto caía uma chuva fina, discorreu por suas idiossincrasias e canções. Eu já estava em prantos lembrando do primeiro show que assisti dele e sentei na arquibancada C do Estádio Albertão em Teresina vestida na cueca do meu irmão por falta de calcinha na casa da minha tia. E assisti de tão longe que nem o binóculo foi suficiente, só consegui ver direito uma gravata azul de paetês que ele usava. Mas agora não, estava ali tão pertinho, na área vip.

Enquanto os seguranças lutavam pra conter o público que invadia os limites do palco, e os mesmos seguranças fotografavam e filmavam o Rei cobrindo a nossa visão, ele cantou lady Laura, Cachoeiro, Nossa Senhora, mulheres baixinhas, Você foi, caminhoneiro… Mas nessa hora nem São Pedro aguentou e chorou um temporal em cima de todo mundo. As pessoas tentavam vestir suas capas de chuva na pressa, mas não eram suficientes. Muitos fugiram pras marquises das arquibancadas laterais, e eu, embora muito fã, também fugi. Fiquei assistindo do telão e ouvindo mal, mas o suficiente pra não perder o clima.

Passei abrigada o tempo de três músicas, e quando a chuva deu uma trégua, eu voltei e voltei pra ficar. Mas não havia mais o meu lugar. O público da geral excitado, pouco se importou com a chuva, e enquanto alguns Vips se protegiam do aguaceiro, o povo tomou a beira do palco tornando o show muito mais emocionante e quente. E a arquibancada fez sua conexão com o gramado. Todo mundo de capa, cantando mais e mais sucessos numa só voz.

Quando ele cantou meu Irmão camarada sem o Erasmo, me incomodei um pouco, achei um absurdo, mas fui surpreendida por uma imagem no telão. Era ele, o Tremendão, interrompendo a música, reclamando sua presença como mandava o roteiro e tão emocionado como nunca vi. Fez uma linda declaração de amor e entrou no palco tremendo literalmente. Depois entrou a mana Vanderléa, e juntos os três mostraram a força da amizade e do tempo.

Roberto continua o show só, canta que é preciso saber viver, apresenta seus músicos, o Paulinho, o Paulinho e o Paulinho e clama por Jesus Cristo, enquanto velhinhas, jovens, homens e mulheres entram em catarse dançando e cantando todos molhados e felizes. Ele joga para o público milhares de flores beijadas e declara: Como é grande o meu amor por vocês, com explosões e o céu coberto por fogos dourados. E eu amei muito mais o Rei.

Na saída às pessoas se escoravam umas nas outras com medo de cair nas poças de água, a maquiagem toda borrada, calças, casacos e sapatos encharcados, um espirro ali, uma tosse acolá, mas a certeza de que foi um dia pra ficar na memória.

CRIADA PRA DAR CERTO

Junho 26th, 2009


De Patricia Mellodi

Sou uma moça de boa família, formação religiosa rígida, com princípios morais claros e de bom coração. Desde muito pequena fui educada pra organizar, cuidar e embelezar tudo o que está ao meu redor. Antes mesmo de a adolescência chegar eu já sabia fazer crochê, tricô e tapeçaria. Aos nove anos fiz um curso de corte e costura e ganhei o presente mais caro de meu pai: uma máquina Singer modelo Zig Zag.

Meu interesse pela cozinha sempre foi enorme. Aprendi muito pequena a fazer arroz, feijão, bife, ovo, macarronada, bolo de cenoura e bolo de sal, apesar de ser sempre expulsa da cozinha pela empregada, que via seus serviços ameaçados pelo meu talento.

Tem gente que não acredita, mas sou daquele tipo que fez curso de datilografia, máquinas manuais e máquinas elétricas. Digito com todos os dedos. Sei fazer recibo, requerimento, cartas comerciais de toda natureza. Sempre cogitei no meu íntimo a possibilidade de trabalhar num escritório como secretária, pois tenho vocação pra ser braço direito.

Fui criada por uma tia enfermeira, que me ensinou detalhes da sua profissão, por exemplo, como fazer uma cama com perfeição, dar banho em doente, preparar chás, infusões, a fazer o suco V8(com todas as vitaminas), a cuidar de umbigo de recém-nascido e muitas outras coisas. Conheço os remédios, os alimentos e seus nutrientes, as doenças e sua cura. Sou capaz de clinicar casos comuns, pois sou uma leitora de bulas profissional e sei reconhecer certas doenças pelo cheiro.

Essa mesma tia me ensinou a colocar uma mesa com classe, usar os talheres e copos adequadamente, usar perfume de forma discreta, a não usar sutian preto com blusa branca, falar baixo, não fazer fofoca, não pegar nos pés durante uma conversa, se relacionar bem com os menores, fazer bainha, chulear, pregar botão e, conservar, mesmo na intimidade, certo pudor.

Eu me considero uma moça preparada, criada pra dar certo, mas ainda não dei, não entendo por quê!

UM ANO DE LEI SECA: Desafio é sobreviver!

Junho 22nd, 2009


De Patricia Mellodi

Que me perdoem as vitímas e as famílias de vitimas envolvidas em acidentes com motoristas embriagados, pois somente em casos dolorosos como esses, eu consigo entender um posicionamento radical com relação ao álcool e a direção.

Já faz um ano desse exagero e, mais uma vez afirmo que não faço apologia ao álcool, muito pelo contrario, mas ainda me dou o direito de reclamar a minha ida ao restaurante com meu marido pra jantar, tomar uma garrafa de vinho tinto(duas taças e meia pra cada um) e voltar em paz pra casa na intimidade do nosso carro. É um verdadeiro saco ter que dividir nossa conversa, nosso finzinho de noite com um motorista abelhudo nos olhando pelo retrovisor, ou ter que tomar nosso vinho em casa! Que retrocesso na nossa vida monótona de casal!

Bom, não é possível que todos os habitantes dessa cidade que possuam carro, que gostem de tomar um chopinho, sejam uns irresponsáveis, alcoólatras, assassinos no trânsito. Pois é assim que todos nós estamos sendo vistos. Nem nos “países de primeiro mundo” a coisa caminha dessa forma. É preciso você estar fazendo uma M. pra depois pagar o preço. Antes disso, rola o benefício da dúvida! Aliás, existem muitos testes além de um bafômetro viciado, pra medir nosso reflexo, nossa condição de conduzir um carro.

Nesse primeiro aniversário da lei seca, faço a minha reflexão diante das experiências que tive. Claro, que de alguma forma eu me rendo. Se hoje eu for naquela festa ou fazer aquela farra, prefiro mesmo pegar um táxi de companhia, contratar um motorista ou mesmo em grupo lançar mão de uma van. Além de ser mais seguro é muito mais confortável. E não me venha sugerir a pegar um ônibus toda arrumada de salto alto sábado a noite! Convenhamos, que a gente trabalha pra ter algum conforto! Mas confesso que não suporto mais as situações de risco que estamos enfrentando por medo de perder a carteira de habilitação, numa simples saída sem grandes consequências. Antigamente você saia no seu carro, tomava uns “garotinhos” e voltava devagar, numa boa, tomando cuidado, conversando e chegava são e salvo. Hoje, você é obrigado a tomar um táxi. Aliás, alguém anda fiscalizando esses profissionais? Pois já peguei taxista bêbado, cheirado, tarado, imprudente, de todo jeito! Deixamos de dirigir nossas próprias vidas pra nos arriscar na mão de um desconhecido visivelmente perturbado que guia o seu carro amarelo, com ares de poderoso, imune as leis. Não são todos, é claro, seria uma injustiça da minha parte, mas a quantidade de maluco dirigindo táxi é incontável! E o pior é que quando entramos numa viatura ficamos acuados, submetidos, reféns, e de preferência de bico calado, antes que nos aconteça o pior. Já fui cantada, agredida verbalmente, jogada de um lado pro outro do banco em função das ultrapassagens ziguezagueantes, ouvi impropérios, xingamentos, que honestamente me ofendeu e muito. Isso não é fora da lei? Imagina se eu vou ficar tranquila, deixando minha filha voltar de uma festa num amarelinho desses! Às vezes acho que prefiro um colega dirigindo com algum nível alcoólico no sangue, mas com respeitoso! Sem contar com a quantidade de pedestes acidentados que já vi por atravessar fora da faixa. Bêbado é perigoso até a pé! Eu disse bêbado, que fique claro!

As pesquisas são controversas, não se tem um número exato, um percentual correto da diminuição dos acidentes, pois existem várias correntes dentro dessa lei, sindicatos de restaurantes, hotéis e casas noturnas em desespero, governos moralistas em tempo de campanha, famílias da classe média em pânico querendo ver seus filhos jovens em casa, e muitas outras coisas que minha ignorância não permite identificar. E quando a blitz do fim de semana pega um ator conhecido, um cantor famoso, um jogador de futebol, melhor pra mostrar serviço, vítima perfeita! E a sociedade bate palma! Mas eu, uma rebelde ainda com carteira, sou totalmente contra a qualquer coisa extremada, acho ignorante! Aliás, acho uma piada com bordão e tudo: Tolerância zero!

Bem, que venham as blitz, as leis que “pegam” e melhoram a nossa vida, são todas bem vindas, mas que venham com um mínimo de inteligência e respeito a minha privacidade e ao meu direito de ir e vir em segurança.

Pronto, falei!

Viagem ao Piauí

Junho 18th, 2009

De Patricia Mellodi

Bom, negada, é verdade que eu to só o oco e os caburé cantando dentro, mas to feliz a balde. Friviei muito nesses dias. Passava o dia conversando miolo de pote com uns magote de fio duma égua. Uma fuleragem, um licute com aquele povo, que nem ouvia o apito da lancha! Vivia com os dentes na fresca. Bagaceira total!

Nao vão mangar de mim não, mas um dia eu pedi pro meu irmão emprestado o loréu dele caindo os pedaços, e me perdi em Teresina, saí do rumo e nem dei fé, fui bater no inferno da pedra atrás de um frejo, mas eu tava com aquilo incutido na minha cabeça.

Enchi meu bucho de cajuína, doce de cajuí, capote frito, pirão-de –parida, maria-isabel e bejú. To boa e gorda! Tibunguei no Rio Parnaíba no pino do meio dia! Só deu pra minha radiola! Com aquela quintura, eu dei aquela pilôra! Foi pá e bufo!Espie, nem era ainda época do be-erre-ó-bró! É que eu sempre fui pigoita! Nunca tive medo de estoporar, tomava café quente e ia tomar banho!

Quando eu chego lá eu me lembro do tempo que eu era uma menina veia do buchão que usava gigolete, gostava de curiar o povo, comer de capitão, beber sembereba, dar cangapé, levar caçuleta, fazer bunda-canastra, caçar conversa com os meninos, matar briba com baladeira, jogar relancim, pegar sereno. Eu saia cedo de casa dizia que ia bem ali assim e só voltava de noite, ficava solta na buraqueira e chegada toda breada! De vez em quando entrava na taca!

Mas tem coisa no Piauí que é lasca! Ter que ouvir aquele abestado do Zé barriga-de lampréia budejando, só fobando, bêbo-bosta, dá vontade de dar um bofete! Ele fica caçando chifre em cabeça de jumento e me deixa aperriada! Que diabo é dez? Fica só empaiando a gente! Aquilo é empautado com o capiroto das profunda! Quando ele chega, dá vontade de dizer: - Caminha! Peque o beco! Já quando chega o João, aquela caba saliente, prosista, fica todo mundo pajeando, num tem párea não!

Mermã, minha viagem foi só o mio dibuiado, eu vim simbora com tempo bonito pra chover, encegueirada, dicretada a voltar em breve.
Pense: Oh lugar pra eu dar valor! Sou mais o Piauí e o boi não Lambe!

QUERENDO TRADUZIR ADQUIRA:

Grande enciclópédia Internacional de PIAUIÊS - PAULO JOSÉ CUNHA

MEU PAI ERA ESQUIZOFRÊNICO

Junho 2nd, 2009

Tintim por tintim!

Maio 15th, 2009

de Patrícia Mellodi

Que me perdoem os bagunceiros, mas a organização é fundamental. Lógico que uma afirmação dessa natureza vinda de uma virginiana neurótica, tem um peso maior, um peso que beira a insanidade. Assim sou eu, não sei viver no caos, fico louca, paralisada, irritadiça.

Gosto de agenda, objetos organizadores, etiquetas, meias marcadas, canetinhas coloridas, gavetas impecáveis, livros dispostos por tamanho e estilo, almofadas perfiladas, toalhas bem estendidas, lençóis esticadinhos, temperos organizados em potinhos, e por aí vai. Adoro saber onde encontrar as coisas, mesmo às cegas.

Quando dou uma geral, fico abrindo as gavetas sem motivo algum, só pra dar uma espiadinha naquela organização toda. Passeio pela casa conferindo a retidão dos quadros, as centralizações dos porta-retratos, dos jarros, tudo milimetricamente harmônico. Pra mim é como contemplar a natureza. Não tem nada que me deixe mais calma, mais tranqüila e confiante na vida que uma casa em ordem. Meus copos, minhas calcinhas, minhas canetas, minhas fotografias, meus cedês, minhas recordações, tudo bonitinho, esperando a hora da minha revista.

Às vezes me chamam de obcecada, mas eu não concordo. Eu faço a minha bagunça também, mas não me dou por satisfeita. Quando a coisa aperta, eu paro tudo pra arrumar a minha vida. É a minha vida, sim! A minha casa é a minha vida, ela precisa entrar no eixo, ficar de uma forma mais previsível, mais palpável, na linha, ao menos aqui no espelho da minha alma.

Sei que sendo assim, nasci pra viver sozinha, pra me tornar uma senhorinha toda ajeitada que espera a morte arrumando as lembranças. Mas eu não sou sozinha. A família estraga meus planos de perfeição. Marido, filhos, empregada, todos uns caóticos insensíveis. Não entendem a beleza poética de ter as coisas no seu devido lugar. Eu posso até ser torta, mas meu olhar é geométrico, estético. Posso sentir as coisas reviradas dentro de mim, mas não posso ter a mesma sensação diante dos meus olhos. É o fim da picada ter que viver num mundo tão zoneado e ter uma casa no mesmo padrão.

Não entendo como as crianças conseguem viver num quarto com toalha no chão, sapatos espalhados, armário em forma de novelo, copo com resto de nescau pra todo lado, e ficar relax! Eu às vezes evito ir ao quarto delas, só pra não ter que achar que minha educação é pífia, desordenada. Sim, porque a bagunça daquele quarto afeta minha estima maternal. Sem contar com o banheiro que compartilho com meu marido. Se eu acreditar no que vejo, meu casamento é um verdadeiro desencontro. Eu nem vou citar a cozinha, por que a minha empregada me dá a clareza total da minha falta de autoridade. Mas eu não posso e não devo entrar nessa vibe. Seria fatal.

Hoje foi um dia de faxina, quer dizer de terapia. Coloquei tudo em ordem, prateleiras, armários, caixinhas, vidrinhos, tudo, tintim por tintim. Estou no céu! A felicidade pra mim se resume a uma casa arrumada nos seus mínimos detalhes.

Meus sonhos de consumo não incluem, de forma alguma, casarões, fazendas, milhões de funcionários, pois daria muito trabalho pra mantê-los nos moldes da minha plenitude. Um quarto-e-sala arrumadinho é suficiente pra preencher minha expectativa material e minha saúde espiritual.

Hoje vou dormir em paz, na paz dos organizados. Nem quero pensar em quanto tempo isso vai durar.