“Eu sempre brinco: – Essa daí é filha de pobre”.

Estou impressionada com o poder de distorção da mídia, de fazer interpretações negativas da nossa fala, mas mais ainda com a patrulha do politicamente correto nas redes sociais.

Fui ao programa da Fátima Bernardes falar sobre a nova família, “os meus, os seus e os nossos.” Num dado momento, falei com humor, como é de minha natureza nordestina, sobre a diferença de alimentação das meninas aqui em casa: “- Tenho uma vegetariana, outra que gosta de bife, feijão, arroz, farofa e batata frita, tem a Clara, que eu sempre brinco,” Essa daí é filha de pobre, come de tudo “e a Nina que é Bebê.”

Nunca imaginei que uma fala boba dessas: “Essa daí é filha de pobre, come de tudo”, gerasse uma nota distorcida e pejorativa no jornal, e ainda causasse revolta nas redes sociais. Estou sabendo que já fui assunto até em debate da Rádio Globo. Sem contar que fui ameaçada até de apanhar, com a justificativa de ser preconceituosa e de fazer discriminação com os pobres. Mas logo eu? Eu não sei se eu rio ou se choro.

A Clara é minha primogênita, foi uma menina que viveu tudo comigo, até a falta de comida na mesa. Muitas vezes deixei de comer pra que ela comesse. Sendo assim minha filha cresceu sem reclamar, achando bom o que tinha em casa. De quiabo a brócolis, de ovo a sushi, simples ou sofisticado, ela sempre comeu de tudo. E eu acho isso lindo! Sim, ela é filha de pobre, e isso é um elogio. A pobreza aqui é força, é resistência, é superação, é adaptação. É lindo! E que fique claro, a pobre sou eu mesma. E o que há de mal em ser pobre? Estou tentando entender o que tem de preconceito nessa expressão estando no Brasil. Realmente, nesse mundo do politicamente correto eu me sinto uma leiga sem etiqueta social.

Mas a Nota na coluna FOI MAL do Jornal O Extra do Rio de Janeiro fala: Patricia Mellodi deu uma bola fora no programa de Fátima Bernardes, quando falava sobre alimentação dos filhos soltou: “Tenho um que come de tudo, parece até filho de pobre”!

Parece até?! Não meu caro colunista, parece não, é! Nunca diria parece até! Esse “parece até” é que preconceituoso. Essa expressão me coloca numa posição soberba, fora de quadro, quando na realidade não é nada disso, estou totalmente incluída na situação. Aliás, isso tudo está prejudicando minha carreira tão delicada e suada, minha imagem e minha paz nas redes sociais.

Claro, compreendo que uma pessoa pública deva pensar dez mil vezes antes de dar esse mole, de dar margem para manipularem uma fala bem humorada e transformar num poço de preconceito. O meu erro foi ser espontânea, alegre e ter uma filha “filha de pobre”, mas o da imprensa, foi mudar a fala, dar outra interpretação e colocar minha imagem e minha vida em risco. Como eu poderia considerar isso? Danos morais?

Já com o povo, ando triste. Patrulha tudo, vê maldade e preconceito em tudo, perdeu o humor, a graça, que a nós brasileiros é tão peculiar. Vivemos sob estado de sítio. E isso sim é que é uma verdadeira pobreza. É tudo levado ao pé da letra, a ferro e fogo.

Qual foi a minha lição? Vou fugir da violência, ignorar as agressões e ter atenção redobrada ao falar. “A espontaneidade pode até me destruir…” como fala minha música FIM DE MUNDO. Aliás, procura-se um Media Traning com urgência.