“TODA DIVA É TRISTE”

Vim pro Rio com 22 anos, vim pra construir uma vida só minha, passar a ser a Patricia, por mim mesma, sem referências familiares, sem passado, sem a condenação genética e comportamental, sem o olhar inquisidor dos conservadores que julgavam as artes como a última das últimas opções de vida profissional, e que levaria ao fracasso com certeza. Longe das vantagens e do conforto da família respeitada, mas também livre do pessimismo e das marcas impostas pela cidade pequena. Vim pro Rio meio rebelde, sem sentimentos de raiz, só olhava pra frente, forte e obstinada como quase todo jovem. E essa obstinação tem me garantido. Foi a arte o meu caminho, e o meu canto meu passaporte. A música sempre foi muito mais que uma profissão, foi minha salvação.

É lógico que não foi fácil, tive muitas alegrias, mas todas as dificuldades previstas e mais algumas inusitadas. Aluguel atrasado, falta de colo, de apoio, medo, solidão, dúvidas, decepção, humilhação, depressão, falta de perspectiva… Mas fui superando na base da fé e da teimosia, sempre com um nariz empinado, que muitas vezes me fez passar por arrogante e convencida. Ah, Jesus, mal sabiam por aqui que ele não poderia baixar, era uma questão de sobrevivência. Eu não podia voltar fracassada. Jamais me acostumaria à velha vida. Aliás, ainda não posso. A luta nunca acaba, mal começou.

Hoje, em parte, tenho a vida que planejei. Tenho amigos e raros desafetos, muitas realizações, conhecimento profissional e o respeito que construí por mim mesma. Aqui quase ninguém sabe muito do meu passado, gostam de mim ou não, pelo o que eu me tornei. Sou Patricia Mellodi, (Aliás, Mellodi é um sobrenome que eu inventei pra mim), mãe e boadrasta, esposa, cantora e compositora, sou respeitada, tenho uma vida confortável, tenho a minha família. A família que eu criei pra mim. A que me acolhe completamente.

Mas ultimamente e nesses dias mais que nunca, especialmente pela morte da minha Tia Enedina, a que me criou, e muito bem obrigada, por tudo que pude perceber com essa morte, ver meus tios, primos, rever a cidade pelo ângulo familiar, sinto o passado de volta, me puxando pelos cabelos, acertando as contas, se mostrando forte e verdadeiro, e parte inexorável de mim. Eu tentei ser só, mas não sou, a resposta do que sou está naquele lugar, está naquela família, que é minha, com tudo o que a compõe.

Essa é a minha dor, prato dos últimos dias. Estou me vendo na câmera da verdade, revendo toda a minha vida, toda a minha história, chorando por mim, pelo meu passado, pelas minhas dores e humilhações, pelos meus “defeitos colaterais.” Mas em compensação me sentindo com a força de um gigante, por causa disso tudo também.

Era essa tal de Tia Enedina, a nossa mãe de coração, a que nos defendia, defendia até nossos piores defeitos, ela nos entendia de um jeito muito amplo, como só o amor o amor pode compreender, incondicional. Ela cansou de dizer: “- Eles são os melhores. Diante de tudo o que passaram, eles são maravilhosos.” Ela nos amou incondicionalmente. Entristecia, mas não julgava nunca. E ficar sem essa presença física, mesmo que distante, ausente, falta um pedaço de mim, falta a segurança, aquela da infância, aquela que me fazia dormir com um copo de leite quente…

– Por que você tá sofrendo tanto? -Você não é disso! – Cadê o humor? Pois é, meus amigos, vocês não sabem muito de mim… – Eu nem te conto, amiga… São tantas coisas que montam essa pessoa, essa artista aqui. Nem sei se minha arte é tão grande, se vai ficar pro futuro, sigo trabalhando, mas posso garantir, tenho um passado de diva, e toda Diva é triste.

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