UMA CARTA PRA TIA ENEDINA, A TIA QUE ERA MÃE

Tia querida, nesse minuto penso no seu abraço, no leitinho quente antes de dormir que você me dava, naquele abaju de pedrinha aceso no canto do quarto pra eu não ter medo de dormir sozinha. Penso nas noites em que me metia na sua cama entre você e o tio Edmilson sem o menor pudor. Penso nas broncas, nas nossas conversas intermináveis, nas historias incríveis e engraçadas da sua vida que você me contava repetidas vezes na sua cozinha comendo pão caseiro com café com leite. Penso na suas dicas de etiqueta à mesa, de etiqueta social, até etiqueta no casamento você me ensinou, tudo que uso tanto hoje. E não eram dicas bestas, eram humanas, quase sempre tinham o foco no outro. Você me passou com palavras e ações uma ética solidária e cristã.

Lembro que você fez tudo pra minha primeira comunhão, meu sapatinho pérola, minha bata, meu kit de higiene, sabonete, toalha, shampoo, pra usar só naquele dia, e uma bíblia com uma dedicatória sua pedindo que eu guardasse aqueles dias de fé e de alegria por toda a minha vida. Eu guardei tia, estão aqui vivos dentro do meu peito.

Você chorou tanto quando eu passei no vestibular, vibrou demais com o nascimento da Clarinha, e me ajudou com tudo! E eu te dei tanto trabalho, tia, tanta preocupação!

Quando meu pai morreu , ele foi tão cedo, eu pude perceber menina ainda que tudo acaba, que a vida é breve, e nesse momento percebi que eu só tinha você, e ali nos tornamos amigas, muito amigas. Nunca mais brigamos, só nos ajudamos. Claro, sempre eu precisando mais de você que você de mim.

Quando resolvi vir pro Rio pra seguir meu caminho artístico, e mesmo você sofrendo demais com minha distancia e a da Clarinha, você me deu todo apoio, falou pra eu seguir minha vocação, que você foi muito feliz na sua profissão porque nasceu pra ser enfermeira, e seu eu tinha nascido pra cantar, que cantasse.

Todas as férias da Deusinha, babá da Clara, você vinha pro Rio ficar com ela pra eu poder trabalhar a noite. Rezou muito por mim que eu sei. Lembro muito do seu caderno de oração com fotos de toda família. Você rezava pras pessoas olhando a carinha delas. Me disse que assim a oração era mais forte.

Você sempre pagou minha escola até a faculdade, me dava roupa, sapato, violão, ajuda no aluguel, mas nunca, nunca disse nada pra ninguém, eu agradecia e você me dizia, você é minha filha não me deve nada, eu estou aqui pro que você precisar. Como era bom ouvir isso! Você sempre foi minha segurança. Era generosa em silêncio, nunca se gabou de seus gestos.

Mas tia, de todos os bens que gozei do seu lado, não foram os materiais os mais importantes, mas os valores imperecíveis que você me deu, esses sim , nada no mundo vai apagar de mim, nem o alzheimer, nem a morte. Bens como a fé, a solidariedade, a educação, o respeito, a honestidade, o amor ao próximo, a vocação, o amor aos irmãos, (você dizia que preferia morrer a brigar com um irmão) e a família, apesar de qualquer coisa… Isso sim é minha herança!

Devo tudo a você, tudo. E se tenho um desejo nessa vida, não é o de ser rica e famosa, é de ser boa, boa como você era, e ser só perdão. Sua vida foi um exemplo de desapego, caridade e amor, amor sem reservas. Eu sempre vou te amar, tia, e sei que não estou sozinha neste sentimento.

Que seus irmãos e seus pais que já partiram te recebam, pois se aqui já estamos com saudades, posso imaginar aí no céu.

Obrigada, obrigada, obrigada. Você foi meu anjo nessa vida e que agora está no céu.

Minha, nossa e mãe de todo mundo, Tia Enedina. Que Deus te receba em sua casa.
ah, manda beijos pro Papai, pra tia Bibi, pro tio Padre, Tia Cecília, Tia Jesus, pro Vovô Onofre, Vovó Iaiá e pro Tio Francisco e pro meu padrinho, o tio Carlos.

Um dia nos reencontraremos.
Beijo da sua filha,
Patricia

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