Ser mulher, uma missão quase impossível!

Mesmo quando criancinha nas brincadeiras de casinha, salão de beleza, médico, escolinha, restaurante, sempre exerci o difícil e responsável papel de mulher. Lembro que ganhava de presente muitas panelinhas, vassouras, maquina de costura… Eu nunca entendi porque os serviços domésticos são tão estimulados nas meninas desde cedo! Duvido que meu irmão ganhasse um balde e um rodo de Natal! Eu ganhei. Ele só ganhava carro, moto, helicóptero… O mais estranho é que minha filha de cinco anos me pediu uma vassoura pequena pra varrer a casa. Só pode ser uma imposição genética! Rs!

Mesmo nas brincadeiras, às vezes foi difícil aceitar a condição limitante de ser mulher: “- Isso não é brincadeira de menina!” “Sai daí, Patricia, aí só tem menino!” Eu achava um absurdo não poder jogar bola com eles, subir em árvore, andar de skate livremente. Isso mudou, claro, mas no meu tempo de menina, era comum esse dilema. Eu me achava capaz de tudo, mas impedida por uma condição de sei lá o quê, de ser mulher… Ainda sinto isso quando entro sozinha em um bar, ou chego desacompanhada numa festa.

Não demorou fiquei adolescente, e o pudor me foi imposto como parte da minha condição feminina. “Menina deve ser discreta, não deve ser muita dada, e jamais pode se declarar apaixonada por um menino, deve esperar que ele se manifeste.” Nunca pude ir a dois aniversários seguidos: ”- Menina, assim você vai virar arroz de festa!”. Muitas regras, muitas limitações para um pobre coração juvenil. E nessa dança de dois pra lá, dois pra cá, eu vi muitas meninas difamadas simplesmente por terem um pouco mais de atitude. Por precaução era melhor seguir as regras, mas eu tinha velada admiração por essas meninas mais ousadas, que vez ou outra, ou quase sempre, eu fui também.

Fui obrigada a aderir precocemente ao sutiã, confesso que até gostei, pois me senti mais velha, e também a compreender todas as precauções da tia que ajudou a me criar, quanto ao comprimento dos shorts, das saias, dos vestidos, por onde andava, e principalmente com quem andava. Eles não tinham medo de drogas, álcool ou coisa do gênero comigo, o medo era outro, o de uma filha perdida e/ou mal falada. Naquele tempo se uma amiga perdesse a virgindade você perdia também por tabela. “Dize-me com quem tu andas…” Eu já era uma moça, lindinha, como minha vó dizia, não deveria chamar muita atenção na rua, correr riscos. Na época eu não tinha noção de quais eram. E hoje me pego fazendo a mesma coisa com minhas filhas que também não veem onde está o tal perigo.

Fui extremamente orientada a não ceder a nenhuma gracinha do namorado. Eu não podia ser fácil, embora muitas vezes tenha sido, e não via mal nenhum em ser. “Filha, homens são caçadores, mulheres que cedem com facilidade perdem a graça.” Era preciso estimular o desejo de compromisso deles através das dificuldades. Ficava indignada com essas verdades, que de vez em quando e até hoje são verdades mesmo.

Meu pai me disse um dia uma frase que me marcou muito. Apesar do seu machismo típico nordestino, o seu pensamento era moderno e libertário: “- Independência é financeira, minha filha!” Ele me disse isso quando eu reclamava querer ser livre pra fazer o que quisesse. E assim ele me fez querer trabalhar e ganhar o meu próprio dinheiro, apesar do desejo inconsciente e alimentado desde pequena, de ser somente esposa, dona de casa e mãe, como a minha mãe.

Eu me tornei cantora e compositora, acho que sempre fui artista. O Compositor é uma profissão na sua maioria de homens. Cantora você pode ser, compositora não. Criar, gerar, parir, algo tão natural ao ser feminino, no meio musical vai até a página dois. Fazer música é coisa de homem, ouvi e ouço isso no silêncio, nos olhares e ironias de alguns colegas diante das minhas obras. Mas não ligo, me supero e me inspiro em mulheres poderosas como Chiquinha Gonzaga. E contrariando aos meus pais, vou a muitas festas e eventos, pois no meio artístico, quem não é visto não é lembrado!

No casamento, não é diferente, a tripla, a quadrupla, a quíntupla jornada, é parte natural na minha vida e na vida de qualquer mulher. Tenho que dar conta de tudo, da casa, dos filhos, das compras, da profissão, e ainda estar bonita, magra, interessante, e interessada. Não é fácil, é exaustivo, mas eu tenho o poder, o poder de uma supermulher. Isso sem contar que tenho que conviver e me dar bem com outras mulheres tão “loucas, alucinadas e maravilhosas” quanto eu. Filha, enteada, amiga, sogra, cunhada, mãe, às vezes dividindo o mesmo homem! Pense numa confusão…

Mas não é só isso que é difícil na vida adulta de mulher-cantora-mãe-casada. Engordar, enrugar, envelhecer, pavor total! Será que vão me trocar por duas de vinte? Oh, ameaça infame!

No casamento conviver com o fantasma da possível traição é dos terrores o pior. Quem nunca teve esse medo que atire a primeira pedra! Desde sempre fui formada pra aceitar o desejo de variedade do homem como algo natural, intrínseco ao seu gênero. O fato é que se isso acontecesse eu teria que entender, perdoar, aceitar e seguir firme em nome de algo maior. “Mulher suporta tudo, minha filha, tem que suportar. Imagina abrir mão de sua família!?” Ah, tia, não me exija tanta maturidade!

Como muitas mulheres, eu também já enfrentei uma separação e tudo que a inclui. Uma mulher jovem, bonita, que tem seu trabalho, seus planos, seus filhos e seu brilho, não fica bem ser separada, uma nova solteira no “mercado”! A não ser que abra mão de sua sexualidade, ai sim, vira uma santa mulher. Não ter mais marido é algo que ainda gera dúvidas e desrespeito. É bom ter um companheiro, muito bom, mas não deveria ser algo obrigatório. Uma mulher independente, bonita e sozinha é sempre fascinante e uma ameaça às famílias, a moral e aos bons costumes. É ou não é, me diga?

E os meus desejos carnais como ficam? Nem vamos tocar neste assunto, é impuro, é antinatural! Me levaria pra boca do povo, pros tribunais, pro mármore do inferno. Às vezes acho que ser mulher é algo sobre-humano.

Humores, hormônios, TPM, ciúmes, possessividade, sensibilidade exacerbada são tão naturais pra mim! E levar tudo isso misturado ao trabalho, aos filhos, a família, e a mim mesma… Eu sou o máximo! Às vezes nem eu me aguento de tanto orgulho!

Bom, falei muito das minhas superações, dos perrengues de ser mulher, que na verdade no dia a dia eu vivo tudo isso e nem percebo, mas esqueci de falar dos orgasmos múltiplos. São múltiplos e generalizados. Ser mãe é algo indescritível, renovador, ser mulher e ter esse sexto sentido que apreende, percebe e se adianta, é mágico, ser alguém que cuida, ama, gera dentro de si tanta poesia, e que tem coragem e força naturalmente pra enfrentar a vida, é algo de Deus, só pode ser. E dar conta de tanta coisa ao mesmo tempo e ainda ser linda por dentro e por fora, só sendo uma deusa legítima. E se me perguntar se eu quero ser homem na outra encarnação:

– Eu não, nem pensar, adoro ser mulher.

Parabéns, mulheres, pelo nosso dia!

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