PERAÍ, CALMA!
De Patricia Mellodi
Ouvi dizer que o terremoto que atingiu o Chile, encurtou os dias na terra, o que me deixou mais receosa. Se a vida já anda na velocidade da luz, imagine com os dias realmente mais curtos!
E aí, já fez? E ai, qual a novidade? Como é, não vai fazer um livro, um novo CD, não vai mudar, não vai ter mais filhos, não vai fazer uma nova música, um novo show?
Essas perguntas surgem todas de uma vez, num mínimo espaço de tempo. Eu não consigo dar duas cafungadas no ar, e lá vem outra. Pessoas ansiosas e agoniadas por notícias, por acontecimentos. Preciso realizar a cada esquina uma obra, uma viagem, uma festa, alguma coisa que satisfaça não a mim, mas a essa enlouquecida prestação de contas.
Como você está parada! Olha que o mundo vai te atropelar! Estão passando na sua frente! Sabe quantas cantoras já surgiram este ano? Fulaninha foi capa de três revistas esse mês, viajou pra Suíça, fez duzentas e cinqüenta apresentações, está gravando um filme, abriu uma franquia no Leblon e no final do ano vai pra Hollywood ! E você, o que fez?
Baixo a cabeça e respondo baixinho, quase que humilhada diante de tanta atitude: - Estou planejando um novo trabalho.
Desde criança ouço de uma tia: - “Ninguém serve a dois senhores.” E tomei como máxima pra minha vida essa parábola. Não me adapto a essa loucura de mil coisas ao mesmo tempo.
Quando vou a uma peça boa, fico dias vivendo àquelas palavras, quando leio um livro genial, fico preenchida por algum tempo, quando mergulho num projeto, preciso ir até o fim, me concentro nele. E embora outras coisas tentem me tirar a atenção, lembro da máxima da minha vida e volto ao que estava fazendo. Não estou falando de coisas mecânicas, ações cotidianas, o bater ponto do dia a dia, essas eu faço milhares ao mesmo tempo, falo de projetos especiais que nos diferenciam.
Tenho me lançado por outras atividades artísticas, como escrever por exemplo. Mas parece que quando me expandi nas palavras, sequei nas melodias. O deus da música se ofendeu quando percebeu minha dedicação às letras. Foi e é doloroso pra mim, mas é a minha realidade. Sou uma “mulher de fases”. Uma de cada vez.
Quando estou gestando meus “filhos” é hora de ficar quieta, alimentando essa cria pra que nasça forte, robusta, com conteúdo. Não posso correr o risco de parir de sete meses, de ter um projeto que necessite de encubadeira, que talvez não sobreviva. E isso vale pra meus sentimentos também. Se estou triste, fico triste, se estou alegre, fico alegre e se amo, fico amando algum tempo, totalmente dedicada.
Os grandes artistas, os grandes projetos pra mim, é claro, são feitos de dedicação, de profundidade e não de urgência, de confusão e falta de tempo. Precisam de ócio, de falta do que fazer, de silêncio.
E é nesses artistas e realizações que me inspiro, que me agarro pra justificar o meu modo de viver e de fazer as coisas. Talvez seja uma grande desculpa minha pra não me sentir mal diante das pessoas múltiplas e urgentes, talvez seja um paliativo pra minha inveja, um modo que achei de sobreviver.
Talvez tivesse ido mais longe, tivesse ganhado mais dinheiro, fosse mais famosa, mas escolhi, ou melhor, me escolheram pra viver profundamente, pausadamente e com uma coisa de cada vez. Tenho a sina de reprovar na escola da vida quando passo por cima da matéria. Sou obrigada a viver tudo de novo até realmente incorporar o assunto. Já aprendi que fugir dos meus entreveros vai me fazer perder mais tempo.
E diante da pergunta: - E aí? Eu respondo: - Peraí, calma!
