Uma lição de férias
De Patricia Mellodi
A véspera da viagem de férias em família foi aperreada. Eu estava muito cansada, digo esvaziada mesmo, necessitada de uma injeção de ânimo, de fôlego. Uma trégua.
Cinco malas por fazer, uma verdadeira farmácia pra organizar, casa pra fiscalizar, e zilhões de pormenores, como pagamentos, matriculas de escola, passagens, documentos em mãos, cartões do plano de saúde e etc. Sem contar com aquela angústia: Será que esqueci alguma coisa? E com o medo que infelizmente tenho tido, o de andar de avião. E com a família inteira viajando junto, confesso, a coisa piora e muito. Afinal, ir pro Piauí é uma viagem internacional. O dia inteiro de aeroporto, duas decolagens e duas aterisagens até chegar lá. Se eu fosse Torquato Neto diria poeticamente: “… aqui é o fim do mundo, aqui é o fim do mundo ou lá?”
Tudo ficava mais distante, porque além dos vôos ainda teríamos um trecho de carro. Não íamos pra Teresina e sim pra Barra Grande, a ponta da praia que faz fronteira do Piauí com o Ceará, o último dos paraísos em matéria de litoral do país. Digo isso, porque Barra Grande é pequenina, linda, com reservas ecológicas, onde não toca música baiana (sem preconceito, só conceito), não tem carros com som ligado na praia, nem bugres na areia, e pra falar a verdade pouca gente. Além dos nativos pescadores, alguns turistas europeus e brasileiros, na sua maioria nordestinos, em busca de paz e kite surfing. Os bons ventos sopram por lá. Pra quem procura zoeira e ferveção, lá não é o lugar. Eu falei paraíso.
O voo foi relativamente tranquilo, com direito a uma bela sacolejada do Rio pra Brasília. Mas vamos lá, tudo certo, nada traumático. Crianças pequenas em voo é um verdadeiro inferno, mas minha filha até que se comportou bem Eu, a mãe prevenida e louca, levei um super kit de sobrevivência com crianças no ar. Papeis, livros, figurinhas, bonecas, canetinhas, doces, lanches variados, que poderiam me render um estresse na hora do check in. Já tinha ensaiado o texto, caso desse problema de peso ou volume na bagagem de mão: “- Você pode até me despachar minha filha, mas essa bolsa vai dentro do avião!” Isso se eu não falasse dando uma porrada no guichê. No estresse que eu andava! Mas Deus sabe o que faz, deu tudo certo. Fiquei curiosa e assustada: Só tem mocinhas trabalhando agora nessas companhias. Se o avião tiver algum problema elas serão as primeiras a surtarem. Naquele momento pensei: Avião é que nem sexo, tem que ter horas de prática. Pra mim mulher e aeromoça só começa a ser levada em consideração depois dos 30 e tantos. Bom, neurose a parte, têm suas exceções.
Chegamos quase meia noite, alugamos nosso carro, e fomos pro hotel. Pela manhã, cedo, fomos para o litoral. E parando pra comer no caminho, levamos mais de cinco horas pra chegar ao destino. 345km. As lições começaram a me tomar de assalto: Paraíso não pode ser perto. Tem que haver algum esforço pra chegar lá. Se for muito perto, estará lotado e barulhento e não será paraíso. Não sou mais uma menina! Se fosse, aquele silêncio seria a morte. Dura e certeira conclusão.
Acostumada com ar condicionado nos restaurantes, livre das moscas no Rio de Janeiro, a estrada começou a me confrontar com a realidade da viagem, mas abrandada pelo estômago, claro: Que churrasco de carneiro! Dentro do carro o clima era ameno e o som era brega. Eu não posso negar que esse tipo de música me emociona. A memória das rádios piauienses é fantástica: Biafra, Ritchie, Fábio Júnior cantando Pai, Kátia, Diana, Marcelo, cantores assíduos do programa do Chacrinha. Eles soavam no carro acompanhados da minha voz e da voz da Marina, minha personal baby, que também cresceu no Piauí. Xii, esqueci! Também tocou muito o Raimundo Soldado, artista local de grande sucesso, que embalou minha infância, e os bailes pela cidade, tocou até Messias de Holanda, grande forrozeiro alagoano: “Eu quero me trepar num pé de coco!” Mais uma lição: Eu sou brega e saudosista. Essa conclusão com certeza afetará meus próximos trabalhos.
No caminho passamos por Campo Maior, cidade Natal da Marina. Vimos uma árvore de Natal plantada no meio do açude, principal ponto turístico da cidade Era uma espécie de bonsai da Arvore da Lagoa do Rio de Janeiro. Ela se emocionou, disse que ela era linda e elogiou a ação da prefeitura em tentar decorar a cidade para as festas de fim de ano. Outra lição: Pouco pode ser muito se vemos com bons olhos.
Passaram-se as horas e as paisagens. Ora gramíneas e carnaubais, ora caatinga, ora mata, enfim praia. Eu nunca tinha prestado atenção nisso! Outra lição: Meus olhos enxergam melhor com o tempo e sempre posso ver o que não via antes. Que medo!
Parnaíba, Luiz Correia e uma estradinha até Barra Grande, chegamos. Nós já conhecíamos o lugar e a nossa pousada, Pontal da Barra. Daquela vez só iríamos passar mais tempo e estávamos levando a família. Eu tinha no meu íntimo certo medo de ficar entediada. Era muito mar e quase nada pra fazer por muitos dias. Eu que sou tão tão agitada… Mas que nada, passaram-se 13 dias e o tédio passou foi longe. Mais uma novidade: Eu mudei.
Todos os dias, a mesma rotina, alterada uma vez ou outra, por um passeio ecológico. Todo dia era acordar as 9 (o que é um milagre pra mim, mas eu posso fazer), tomar café com beju e cuzcuz, ir pra praia com a Nina, com piscina de plástico, protetor solar e rede, encher a piscina gigantesca de água do mar com um balde(malhação danada), esperar passar meio dia pra tomar a primeira cerveja, comer um pargo inteiro frito, camarão e sururu, andar uma hora na areia fofa da praia de preferência rezando um terço, as 5 horas da tarde comer caranguejo até não aguentar mais, ver o por do sol, tomar banho no quarto e quem sabe até namorar, e depois ir dar uma volta, jantar nos 2 ou 3 lugares bons que temos por lá, voltar pra pousada num silêncio sepulcral, dormir feito um anjo. A rotina pode ser agradável, saudável e feliz. Mais uma lição pra mim.
E não para por aí. Descobrir que posso tomar várias cervejas sem embriagar, sem ter dor de cabeça, tudo é uma questão de clima bom, que posso ficar sem carne tranquilamente, que rezar fazendo caminhada me dá milhares de idéias, que não ter nada pra fazer me faz descobrir coisas maravilhosas sobre mim mesma.
Sem pensar nem criar problemas, consegui reuni meus irmãos na paz do Senhor, me dei conta da generosidade do meu marido, do tanto que amo e admiro minhas filhas, do tanto que a babá é fundamental e digna de reconhecimento, que posso viajar em família sem estresses, sem embate, sem DR. Discutir relação nas nossas viagens era uma coisa básica (Já dei tanto pití que Deus me livre!), mas posso viver sem isso. Posso desligar de tudo, tudo mesmo. Eu que sou adepta de salto alto posso usar havaianas todo dia e tomar banho de chuveiro gelado. Um banho de água doce é um luxo em terras praianas e eu nem sou tão baixinha assim. Menos é mais. Mais lição pra absorver.
Os dias passaram rapidamente, e com a bagagem repleta de novas idéias e energia boa, a pele dourada e os pelos louros, chegou o dia de voltar. Na estrada de volta pra Teresina, comprei pitomba e guabiraba, umas frutinhas silvestres maravilhosas. Vou plantar umas arvores dessas lá na casa de Itaipava.
Nas noites em que passei lá, sonhei muito, sonhos místicos, premonições, sensações e me revelei uma mulher poderosa, forte, uma cigana, bruxa, abençoada pelos dons femininos e pela força da fé. A lição dessa parte é que Deus mora em mim, mas é preciso rezar mais, ter momentos de introspecção e conexão com algo superior diariamente.
Hora de ir pro aeroporto, cabeça boa e malas cheias de roupa suja de areia e sal. Medo de avião, um pouco. Mas por incrível que pareça, o piloto da volta foi de uma destreza absurda, escapando das nuvens carregadas e pousando sem turbulências. Fiquei mais confiante no talento dos pilotos. Aquele troço é seguro.
Dia a dia normal, a vida doméstica com toda sua força, marido e eu voltamos ao trabalho, discussões e cobranças habituais em família e fora dela, novas contas pra pagar, certa preguiça de malhar, já me sinto gastando o que ganhei. Mas como ainda tenho alguma reserva, creio que aguento chegar bem até as férias de julho.
