CHOQUE DE REALIDADE
Depois de viver um pouco, chego à conclusão que o ser humano precisa de vez em quando passar por um choque de realidade. Precisa levar um susto, um chifre, passar um aperreio, fome, medo. É preciso que aconteça qualquer coisa inesperada e aparentemente desagradável pra que a pessoa volte ao prumo. É como levar uns dois tapas na cara pra acordar. Digo isso por observação e por experiência própria.
Como não é bom apontar os outros, melhor começar falando de mim. Eu sempre fui vaidosa e megalomaníaca e minha doença sempre foi alimentada de todas as formas, principalmente através de elogios e oportunidades, eles são o meu fraco. Certa época, toda vez em que tinha uma oportunidade melhor no trabalho, ou uma simples perspectiva, esbanjava arrogância com ares de vencedora. Sempre que achava que estava segura numa coisa, tratava rapidamente de me sentir a última coca-cola do deserto, e com o nariz empinado bradava auto-elogios e lições de como fazer dar certo, magoando meus amigos, meus amores. Mas quanto maior era o voo, maior o meu estabaco!
Observando as pessoas mais próximas, confirmei minha teoria. Bastam dois ou três acontecimentos positivos, pra esquecermos completamente de onde viemos e pelo o que já passamos. Veja a minha empregada, quando veio me pedir emprego, parecia faminta, humilde, desesperada por um trabalho. Confesso que apesar dela não corresponder as minhas exigências, senti pena e a contratei. Menos de um ano depois ela estava transformada. Dando ordens em mim, preguiçosa feito um gato de hotel, faltando descaradamente ao emprego. Custei, mas mandei embora, lógico, e ela me disse: - Oh Dona fulaninha, o que vai ser de mim sem a senhora! Dane-se! Pensasse nisso antes. A demissão era necessária pra aquela criatura, didático.
Uma prima minha que beirava os quarenta, já meio desesperada com seu relógio biológico, de repente casou com um cara inteligente, trabalhador e apaixonado. Ela não tinha grandes atributos, mas no geral dava pro gasto. Um tempo depois do primeiro filho, ela falava pra quem quisesse ouvir: - Marido só serve pra carregar sacola e abrir vidro de azeitona. (parece piada, mas não é!) Tratava o pobre feito um cachorro, vivia de mau humor, com enxaqueca. Resultado: Levou um chifre e um fora fenomenal! Agora ela chora, manda recado por todo mundo que quer voltar, e ele nada. Mas fala sério, ela mereceu!
Ser humano é tudo igual, não pode encher a barriga um pouco que já ganha forças pra discursar, não pode ter um pouquinho no banco que já considera o amigo de anos, ralé, não pode nem receber muito amor e carinho que já começa a fazer apostas altas demais, a colocar o amor na roda.
Não importa o credo, a raça, a cor, o sexo, a posição social, é tudo a mesma coisa.
Depois de identificar essa peculiaridade humana, inclusive na minha pessoa, pois não fujo a regra, resolvi fazer confrontos com a realidade diariamente pra não perder a referência. As vezes vacilo, mas sempre me confronto. É melhor ficar ligado pra não virar um babaca só por que ganhou uma mariola, e muito menos se transformar num insensível por que perdeu a necessidade.
Me obrigo a pensar todos os dias nos altos e baixos, na riqueza e pobreza de que pode ser feita a vida de uma pessoa só. Lembro o resto de perfume que tinha que durar, o batom que raspei até o talo, a pasta de dente que espremi incansavelmente, o bloco dentário que colei com superbonder, os yakisobras que comi e, aqueles amigos de sempre. E no espelho digo: Eu não posso me esquecer disso nunca.
Faço de vez em quando compras em mercadinhos bem apertados, com pouco dinheiro que é pra nunca esquecer como é contar moeda, (digo contar mesmo, os centavos), aproveitar promoção, como é não poder comprar certas coisas básicas como margarina, como é ter que dirigir um carrinho de supermercado vazio com prudência e gentileza, repetindo a cada segundo: - Com licença senhor, perdão senhora.
Tento não ficar cega por ganhar um elogio. Aceito desconfiando. Elogios e oportunidades são meu fraco. Alerta vermelho nessa hora. Se vier coisa boa, eu vou com calma, pode ser alarme falso, trato de ficar mais perto dos meus amigos pra não vacilar. Às vezes pareço não valorizar o que me acontece profissionalmente, mas não é isso. É que eu não posso cair de novo em tentação e começar a me achar a tal por causa de um convite, um fã, um dinheirinho a mais. Tudo hoje, amanhã pode ser o contrário.
Penso que tenho que me cuidar e cuidar do meu amor, pois as gostosas estão por aí, e elas não são burras nem idiotas. Tem gostosa super gente boa, delicada, inteligente, culta e independente. Isso é muito terrível, mas é real. É melhor não colocar pra jogo se não quero perder.
Mesmo tendo empregada, faço faxina, lavo roupa, cuido de filho, aprendo a fazer comidas gostosas, criativas e baratas, pois é preciso saber ter e não ter. Se alguma coisa falhar, eu faço uns bolos pra fora.
Forço a barra pra não perder a memória e a inteligência, mas quando alguma coisa vem me tentar eu lembro da minha avo Iaiá:
- Esse aí, tem um bode amarrado num pé de caju e pensa que tem uma fazenda!


Novembro 10th, 2009 às 6:55 pm
choquei… aliás é sempre bom ter choques assim….
Novembro 20th, 2009 às 4:27 pm
Um dia levei um choque na empáfia e nunca mais quis correr o risco de viver ligado na soberba.