INCONFESSÁVEL
De Patricia Mellodi
É muito difícil chegar a esse nível de sinceridade, está além das minhas possibilidades. Estou hoje rompendo um paradigma, dando um salto com relação à aceitação de mim mesma. Apesar de ser hoje um ser humano mais evoluído, recuperado espiritualmente, e de jamais me imaginar nessas condições que vou relatar, eu não posso negar o que já fiz.
Eu sempre me apresento de maneira doce, engraçada, sociável, mas hoje não, tenho uma revelação dura, cruel e arriscada sobre a minha pessoa. Alguns talvez não entendam, torçam a cara ou o bico pra mim, mas o jogo da verdade se faz necessário em função da minha disciplina e obediência aos exercícios propostos pelo meu mestre, Professor Paschoal, o mentor da oficina literária que faço parte.
É com muito pesar, vergonha e estranheza, que confesso: Eu já matei uma galinha. É, eu matei, e matei sem culpa, sem sentimentos, movida única e exclusivamente pela minha necessidade de afirmação.
Naquele dia eu senti que nada ia ser como antes. Eu nunca mais iria precisar de nenhuma mucama pra me alimentar, e surpreenderia a todos. Embora fosse quase uma criança, já demonstrava meu talento culinário nos cuzcuz e bejus que preparava, mas queria tocar fundo no estomago daquele que me gerou, fazendo o seu prato predileto.
Pelos fundos da casa fui até o quintal, passei os olhos de águia em revista e escolhi de longe a minha vítima, a mais desatenta, vermelha e gordinha que vi. Ela era perfeita. Corri pelo quintal aos gritos e cacarejos da galinácea presente e consegui alcançar o meu alvo, a galinha ruiva.
Segurando a pobre pelos pés de cabeça pra baixo, fui pra cozinha. Na pia já estavam os meus utensílios: uma faca afiada, uma tábua de carne de madeira e um pequeno pote pela metade de vinagre. No fogo uma chaleira fumegando. Segurei firmemente à ruiva, despelei um pouco do lado direito do seu pescoço e a imprensando contra a tabua, passei a faca com toda firmeza. A bicha se debatia forte, gritava, mas eu friamente não me abalava, continuava o corte. Atingi a veia em cheio e virei seu pescoço para o pote, misturando o jorro do seu sangue ao vinagre. Em segundos ela finalmente se aquietou e me deu paz para continuar meu serviço.
Joguei a água quente que fervia na chaleira no seu corpo, depenei, limpei os canhões (pelos encravados), deixei ela bem lisinha. Abri seu peito, fiz a autopsia perfeita como uma exímia legista, ou melhor, cozinheira. Separei os miúdos, cortei o corpo em partes e temperei com ervas e vinho. Reservei por algumas horas.
Mais tarde refoguei com alho e cebola, cozinhei por duas horas, pois galinha caipira demora a ficar macia, e quando estava bem cozida, despejei na panela o sangue misturado ao vinagre. Em minutos estava pronta minha galinha à cabidela.
Meu pai comeu de lamber os beiços, a empregada me odiou por dias a fio, mas eu nunca me livrei da culpa deste crime inconfessável e delicioso.

Julho 31st, 2009 às 5:07 pm
Galinhas..galinhas e mais galinhas!
Lei da sobrevivencia … cadeia alimentar…
Está insenta de punição filha.
Esquece a galinha e liga pra mim tô com saudades
Julho 31st, 2009 às 8:10 pm
Uma coisa é certa você é determinada no que faz rs…
Agosto 1st, 2009 às 11:32 pm
Fujam para as montanhas! Olhando assim para você, nem imaginava que era uma matadora profissa de galinhas. Risos.
Beijo.
Outubro 26th, 2009 às 2:22 pm
Comovente….Amo animais e chorei muito com a históoria!!Sou vegetariana!!!!!!!Mas o que fazer ne??Abraços