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Morte Crônica

quinta-feira, março 19th, 2015

Desde criança eu tenho a mania de imaginar as pessoas que são importantes pra mim morrendo. Meus ídolos, familiares, amigos, “mato” todos os que amo na minha imaginação, só pra ver como me sinto, só pra ver como seria a emoção de perdê-los. (Calma, eu não me imagino assassinando ninguém, todos morrem de causa irrelevante no meu devaneio.) E faço isso até hoje. E choro muito, sinto uma falta, uma saudade enorme dessas pessoas. É bom chorar pelos nossos amados e possíveis mortos, percebê-los tão importantes em nossas vidas, só a contingência da morte dá essa dimensão. É um teste infalível de amor. Aconselho.

Quando eu era criança eu me sentia culpada por imaginar minha tia, meu pai, ou o Roberto Carlos morrendo, ficava com medo daquilo ser uma coisa ruim, de dar azar, sei lá. Mas era inevitável imaginar.

Sempre me imaginei também, desde criança, tendo uma doença terminal seguida de morte. Eu me imaginava, e ainda imagino, moribunda, mortiça, vestida numa camisola branca, deitada numa cama antiga, estendendo a mão, perdoando tudo e a todos numa despedida dramática. Rs! Pobre menina/mulher virtuosa a beira da morte… É uma imagem poderosa.

Quem estará presente no meu velório, hein? Quem vai chorar? O que vão falar? E meus amigos sentirão minha falta? Que amigos vão chorar mais? Sei que minhas filhas vão discursar. Bom, assim eu espero. Tenho feito tudo nessa vida por essas criaturas, não podem me negar uma derradeira homenagem! Será que dirão que fui uma mãe maravilhosa, que a vida não será a mesma, ou que já vou tarde? O que devo ainda fazer pra garantir meu galardão?

E o meu corpo, será que vai ser enterrado no Piauí ou no Rio? Haverá homenagem? Cortejo na Avenida Frei Serafim? Serei nome de rua, de escola? Num bairro nobre ou numa quadra escondida de um conjunto habitacional? Bem provável nem se lembrarem de mim, mas isso não tem graça de imaginar. Bom mesmo é ser uma morta célebre, e claro, com algum recurso para a cremação. Esse negócio de enterro, de cemitério é meio claustrofóbico. Está decido, metade das cinzas no Rio Parnaíba e a outra metade na Baia de Guanabara.

Morrer sempre foi algo misterioso pra mim, dramático no melhor dos sentidos, mas também um veículo de santificação. Eu sempre quis ser santa! Morto não tem defeito, é pecado falar mal de morto. Aprendi isso com a morte do meu pai. Quando ele morreu virou santo na hora. Vivo fala, dá opinião, comete erros, vivo é humano, e morto é morto, é santo. Minha mãe ficou “infezada” quando meu pai morreu, pois os defeitos ficaram todos pra ela, que estava viva, aliás, vivíssima até hoje. Quer dizer, vez por outra ela também morre na minha imaginação!Rs!

Nunca achei que morrer fosse ruim, só não quero morrer de avião, sei lá, acho que não deve ser bom. Não tenho medo da morte em si, mas da agonia que deve ser saber que não tem jeito, você vai morrer daqui a pouco, a porra do avião vai cair! Não no avião não, pelo amor de Deus! Se for quero estar bêbada e cheia de rivotril nas ideias. Só vou acordar no purgatório. Sim, devo ir para o purgatório, no mínimo. Será que vou pro céu depois de desejar a morte do Careca, o dono do bar em baixo do meu prédio? Um diabo desses só morrendo! Maldito pagode de domingo!

Dizer que vai morrer é umas das ameaças mais covardes. Você está certo na sua reinvindicação, mas diante da sua mãe dizendo: “- Eu vou morrer, você vai me matar!” A culpa é instantânea. Os mais velhos são os mais competentes nesse tipo de ameaça, não falam nada, só põem a mão no peito. A briga cessa na hora, você não tem razão de nada diante de alguém que pode morrer a qualquer momento e por sua causa. Mas covardia total mesmo é que essa coisa de que morte não tem dia, não tem hora pra ninguém.

A gente vive como quem vai morrer, e morre como se ainda fosse viver. Se tem vida depois da morte, já não sei, mas cultivo a crença que tenha, pois fica menos sem sentido, uma coisa justificando a outra. Pensem: Se houver vida depois da morte, os incautos que me sacanearam, vão ter o castigo merecido no quinto dos infernos, ou voltar reencarnado numa minhoca, e minha bondade e tudo mais que passei de dificuldades na terra será recompensado no reino dos céus, ou numa encarnação noutra dimensão mais evoluída. É muito bom acreditar nisso. Essa coisa de vida e morte pode ser bem interesseira, né? Pra muitos não é questão de ser uma pessoa boa em vida, é tudo só pra se dar bem depois da morte.

Eu acho a morte linda, filosófica, necessária. Saber que vai acabar faz a gente tirar mais proveito das coisas, dos sentimentos, da presença das pessoas. Mas viver é preponderante, muitas descobertas, outros amores, novas tecnologias, tudo isso nos faz desejar viver, a não ser que seja pra ver o sertanejo universitário tomar conta da Lapa, aí como diria meu irmão quando minha mãe ia tirar piolho nele: “- eu préfiru móóórrer!”

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