Archive for agosto, 2013

“TODA DIVA É TRISTE”

terça-feira, agosto 20th, 2013

Vim pro Rio com 22 anos, vim pra construir uma vida só minha, passar a ser a Patricia, por mim mesma, sem referências familiares, sem passado, sem a condenação genética e comportamental, sem o olhar inquisidor dos conservadores que julgavam as artes como a última das últimas opções de vida profissional, e que levaria ao fracasso com certeza. Longe das vantagens e do conforto da família respeitada, mas também livre do pessimismo e das marcas impostas pela cidade pequena. Vim pro Rio meio rebelde, sem sentimentos de raiz, só olhava pra frente, forte e obstinada como quase todo jovem. E essa obstinação tem me garantido. Foi a arte o meu caminho, e o meu canto meu passaporte. A música sempre foi muito mais que uma profissão, foi minha salvação.

É lógico que não foi fácil, tive muitas alegrias, mas todas as dificuldades previstas e mais algumas inusitadas. Aluguel atrasado, falta de colo, de apoio, medo, solidão, dúvidas, decepção, humilhação, depressão, falta de perspectiva… Mas fui superando na base da fé e da teimosia, sempre com um nariz empinado, que muitas vezes me fez passar por arrogante e convencida. Ah, Jesus, mal sabiam por aqui que ele não poderia baixar, era uma questão de sobrevivência. Eu não podia voltar fracassada. Jamais me acostumaria à velha vida. Aliás, ainda não posso. A luta nunca acaba, mal começou.

Hoje, em parte, tenho a vida que planejei. Tenho amigos e raros desafetos, muitas realizações, conhecimento profissional e o respeito que construí por mim mesma. Aqui quase ninguém sabe muito do meu passado, gostam de mim ou não, pelo o que eu me tornei. Sou Patricia Mellodi, (Aliás, Mellodi é um sobrenome que eu inventei pra mim), mãe e boadrasta, esposa, cantora e compositora, sou respeitada, tenho uma vida confortável, tenho a minha família. A família que eu criei pra mim. A que me acolhe completamente.

Mas ultimamente e nesses dias mais que nunca, especialmente pela morte da minha Tia Enedina, a que me criou, e muito bem obrigada, por tudo que pude perceber com essa morte, ver meus tios, primos, rever a cidade pelo ângulo familiar, sinto o passado de volta, me puxando pelos cabelos, acertando as contas, se mostrando forte e verdadeiro, e parte inexorável de mim. Eu tentei ser só, mas não sou, a resposta do que sou está naquele lugar, está naquela família, que é minha, com tudo o que a compõe.

Essa é a minha dor, prato dos últimos dias. Estou me vendo na câmera da verdade, revendo toda a minha vida, toda a minha história, chorando por mim, pelo meu passado, pelas minhas dores e humilhações, pelos meus “defeitos colaterais.” Mas em compensação me sentindo com a força de um gigante, por causa disso tudo também.

Era essa tal de Tia Enedina, a nossa mãe de coração, a que nos defendia, defendia até nossos piores defeitos, ela nos entendia de um jeito muito amplo, como só o amor o amor pode compreender, incondicional. Ela cansou de dizer: “- Eles são os melhores. Diante de tudo o que passaram, eles são maravilhosos.” Ela nos amou incondicionalmente. Entristecia, mas não julgava nunca. E ficar sem essa presença física, mesmo que distante, ausente, falta um pedaço de mim, falta a segurança, aquela da infância, aquela que me fazia dormir com um copo de leite quente…

– Por que você tá sofrendo tanto? -Você não é disso! – Cadê o humor? Pois é, meus amigos, vocês não sabem muito de mim… – Eu nem te conto, amiga… São tantas coisas que montam essa pessoa, essa artista aqui. Nem sei se minha arte é tão grande, se vai ficar pro futuro, sigo trabalhando, mas posso garantir, tenho um passado de diva, e toda Diva é triste.

UMA CARTA PRA TIA ENEDINA, A TIA QUE ERA MÃE

sexta-feira, agosto 16th, 2013

Tia querida, nesse minuto penso no seu abraço, no leitinho quente antes de dormir que você me dava, naquele abaju de pedrinha aceso no canto do quarto pra eu não ter medo de dormir sozinha. Penso nas noites em que me metia na sua cama entre você e o tio Edmilson sem o menor pudor. Penso nas broncas, nas nossas conversas intermináveis, nas historias incríveis e engraçadas da sua vida que você me contava repetidas vezes na sua cozinha comendo pão caseiro com café com leite. Penso na suas dicas de etiqueta à mesa, de etiqueta social, até etiqueta no casamento você me ensinou, tudo que uso tanto hoje. E não eram dicas bestas, eram humanas, quase sempre tinham o foco no outro. Você me passou com palavras e ações uma ética solidária e cristã.

Lembro que você fez tudo pra minha primeira comunhão, meu sapatinho pérola, minha bata, meu kit de higiene, sabonete, toalha, shampoo, pra usar só naquele dia, e uma bíblia com uma dedicatória sua pedindo que eu guardasse aqueles dias de fé e de alegria por toda a minha vida. Eu guardei tia, estão aqui vivos dentro do meu peito.

Você chorou tanto quando eu passei no vestibular, vibrou demais com o nascimento da Clarinha, e me ajudou com tudo! E eu te dei tanto trabalho, tia, tanta preocupação!

Quando meu pai morreu , ele foi tão cedo, eu pude perceber menina ainda que tudo acaba, que a vida é breve, e nesse momento percebi que eu só tinha você, e ali nos tornamos amigas, muito amigas. Nunca mais brigamos, só nos ajudamos. Claro, sempre eu precisando mais de você que você de mim.

Quando resolvi vir pro Rio pra seguir meu caminho artístico, e mesmo você sofrendo demais com minha distancia e a da Clarinha, você me deu todo apoio, falou pra eu seguir minha vocação, que você foi muito feliz na sua profissão porque nasceu pra ser enfermeira, e seu eu tinha nascido pra cantar, que cantasse.

Todas as férias da Deusinha, babá da Clara, você vinha pro Rio ficar com ela pra eu poder trabalhar a noite. Rezou muito por mim que eu sei. Lembro muito do seu caderno de oração com fotos de toda família. Você rezava pras pessoas olhando a carinha delas. Me disse que assim a oração era mais forte.

Você sempre pagou minha escola até a faculdade, me dava roupa, sapato, violão, ajuda no aluguel, mas nunca, nunca disse nada pra ninguém, eu agradecia e você me dizia, você é minha filha não me deve nada, eu estou aqui pro que você precisar. Como era bom ouvir isso! Você sempre foi minha segurança. Era generosa em silêncio, nunca se gabou de seus gestos.

Mas tia, de todos os bens que gozei do seu lado, não foram os materiais os mais importantes, mas os valores imperecíveis que você me deu, esses sim , nada no mundo vai apagar de mim, nem o alzheimer, nem a morte. Bens como a fé, a solidariedade, a educação, o respeito, a honestidade, o amor ao próximo, a vocação, o amor aos irmãos, (você dizia que preferia morrer a brigar com um irmão) e a família, apesar de qualquer coisa… Isso sim é minha herança!

Devo tudo a você, tudo. E se tenho um desejo nessa vida, não é o de ser rica e famosa, é de ser boa, boa como você era, e ser só perdão. Sua vida foi um exemplo de desapego, caridade e amor, amor sem reservas. Eu sempre vou te amar, tia, e sei que não estou sozinha neste sentimento.

Que seus irmãos e seus pais que já partiram te recebam, pois se aqui já estamos com saudades, posso imaginar aí no céu.

Obrigada, obrigada, obrigada. Você foi meu anjo nessa vida e que agora está no céu.

Minha, nossa e mãe de todo mundo, Tia Enedina. Que Deus te receba em sua casa.
ah, manda beijos pro Papai, pra tia Bibi, pro tio Padre, Tia Cecília, Tia Jesus, pro Vovô Onofre, Vovó Iaiá e pro Tio Francisco e pro meu padrinho, o tio Carlos.

Um dia nos reencontraremos.
Beijo da sua filha,
Patricia