Archive for novembro, 2009

RESPOSTA AO TEMPO

quinta-feira, novembro 26th, 2009

De Patricia Mellodi

Sinceramente, eu digo sem a menor falsa modéstia: Só irei dar resposta a essas especulações, por que o Piauí realmente me interessa. Pois tenho dado provas concretas e constantes da minha dedicação e respeito. É só prestar atenção nos meus atos e ações durantes esses 15 anos no Rio de Janeiro, eles dispensam qualquer comentário.

Eu respondi a piadinha velha e de mau gosto do Agildo Ribeiro com a crônica “Parem de falar mal do Piauí”, pois tive bons motivos além do óbvio, o de me sentir ofendida. O meu marido, Márcio Trigo, como diretor de criação do Domingão do Faustão, a meu pedido e por vontade própria, é quem tem sugerido pautas com artistas do Piauí no Faustão. A exemplo de Maria da Inglaterra, Amauri Jucá, Dirceu Andrade, Patricia Mellodi, dentre outros, como divulgação de livros, divulgação de eventos e etc. Porém, que fique claro que não é nenhum favor divulgá-los, aliás é um prazer, uma obrigação moral e afetiva, pois todos têm merecimento de sobra. Aliás vocês viram a retratação? Que bom.

E não falo isso pra ganhar votos, pra me gabar ou coisa parecida, pois não é do meu feitio e eu não preciso disso. Aliás, acho muito feio, sem classe mesmo, quem fica explanando seus gestos. Mas é necessário, prestar contas, dizer a vocês que eu faço a minha parte, tenho certeza e consciência disso. Agora, se acontece uma coisa desagradável como a que aconteceu, eu me sinto na responsabilidade moral de me posicionar, de dizer que discordo de tal evento. Embora prefira mesmo falar bem, elogiar, engrandecer, levantar a bola como sugeriu o Joca Oeiras na sua “Carta aberta à Patricia Mellodi ou Falem Bem do Piauí”. O Joca é um paulista oeirense apaixonado pelo Piauí.

Torci e vibrei como qualquer um e sofri e resmunguei como uma pessoa que deseja ver sua terra bem vista e bem quista. Mas as coisas tomaram vultos e proporções maiores. A imprensa divulgou meu texto dando a ele amplitude, porém trouxe no seu volume de leitores algumas pessoas que fizeram o favor de levantar dúvidas a respeito da minha moral e do meu respeito ao Piauí.

Divulgaram um vídeo que eu coloquei no you tube com um trecho cortado do meu show (que não foi no Piauí, mas foi exatamente igual ao que eu fiz no Theatro 4 de setembro no dia 24 de setembro de 2009), onde falo que se eu tivesse nascido no interior de São Paulo teria sido mais fácil. “- Mas a coitadinha foi nascer logo no Piauí! “

É preciso que se veja a coisa inteira pra se ter noção correta, quem REALMENTE foi ao show sabe do que eu estou falando. Um pedaço editado pode sugerir milhões de coisas. Não é preciso ser da imprensa pra saber disso.

Eu fazia ali no vídeo, um personagem vestido e incorporado de cigana, que conta a história da Malu Magalhães, nova estrela brasileira, que fez sucesso aos 16 anos, com a mesma idade que eu comecei a cantar, mas ela teve a “sorte” de nascer no interior de São Paulo e a Patricia Mellodi no Piauí.

O que eu quis dizer, é que ela não precisou sair de casa pra ser sucesso, e eu sim, ela virou um fenômeno em um ano, e eu há 20 anos dou um duro danado e ainda não tenho o reconhecimento que gostaria e merecia.

Era uma ironia a mim mesma e não ao Piauí, era uma ironia a minha carreira, a maneira que o sucesso acontece, a forma que a manipulação de mídia se dá, ao preconceito sim, que se tem com quem é do Piauí, mesmo com uma artista talentosa como eu. (Desculpa a ausência de modéstia, mas eu tenho talento sim, desde muito cedo, está mais que provado.)

E a cigana fecha o texto do Vídeo: “- E esse caminho vem sendo construído, pedra sobre pedra, tijolo por tijolo, canção por canção…) A Patricia desmonta o personagem e canta “Sem amor”. Deu pra entender?

Mas uma pessoa mal intencionada se utiliza do meu vídeo pra tentar desmerecer a minha indignação e defesa. Desculpa amigo, você não vai conseguir, pois mesmo que todos acreditem nessa besteira, nesse trecho de vídeo editado, eu continuarei fazendo o que sempre fiz, defendendo e representando o meu estado, seja ele bom pra mim, ou não. “Cantora falsa moralista ironiza o Piauí”, é demais! Cuidado com as palavras.

Nunca fiquei esperando (embora desejasse), o reconhecimento do governo, das pessoas do Piauí ao meu trabalho, me preocupei sempre muito mais em fazer, em trabalhar, em divulgar, dei sempre muito mais do que esperei receber, sempre foi assim, e não vai mudar.

Já sofri muito por não ter em casa o que tenho na rua, mas não esmoreci, nem me revoltei contra a minha família, aceitei e esperei a resposta ao tempo. Mas verdade seja dita, a imprensa do Piauí sempre enxergou o meu valor, o que pra mim foi uma motivação. Quem dera que essa imprensa fosse do Interior de São Paulo! Eu estava feita. Mas não vai se utilizar das minhas palvras contra mim! Olha lá!

Hoje gozo de respeito, de fãs e admiradores, e até de pessoas com sentimentos menos nobres, por causa única e exclusivamente do meu esforço, talento e trabalho. E por que não dizer, por que represento com dignidade o meu estado do Piauí. E assim será sempre.

Moro e vivo fora, não faço parte do dia a dia, acho que descobri o Piauí por olhar e observar a distância, as coisas fizeram mais sentido, mas faço parte do todo, do todo que envolve também os tantos exilados e apaixonados. Que o diga meu amigo talentoso e batalhador Emerson Boy.

Estou indo passar 15 dias nas férias com 10 pessoas do Rio em Barra Grande. Eu poderia ir pra qualquer lugar do mundo, mas vou pro Piauí. Por que será?

ps. Não me tomem por uma idiota egocentrica, soberba e vaidosa. É que foram cutucar a onça com vara curta, deu nisso!

PAREM DE FALAR MAL DO PIAUÍ!

terça-feira, novembro 17th, 2009


Sou fã de todas as manifestações do humor, piadas, caricaturas, charges, comédias, enfim, considero o humor o supra-sumo da inteligência, pois nos desperta pras coisas mais sérias através do riso. E mesmo sabendo e considerando o fato de que muitas vezes o humor é cruel, pois tem sua matéria prima nas nossas falhas, nossos erros, nossos defeitos de nascença, acho que piada tem limite. E onde mora esse limite? Difícil, pois cairemos num lugar delicado que é o bom gosto. E gosto cada um tem o seu. Mas uma coisa é certa, se é repetitivo, afeta a alma, destrói, desanima, rotula, não pode ser humor do bem. O verdadeiro Humor vem inusitado e cutuca a ferida, mas na piada vem embutido respeito, às vezes até mesmo admiração, pois ninguém faz piada com o que não se considera. Só tem graça se nos diz respeito.

Não há nada mais chato que piada velha, cansada de guerra, que todo mundo já conhece o final. Essa história de sacanear, (perdão da palavra, pois não consigo achar outra) o estado do Piauí é do tempo do onça, é coisa de gente velha (no mal sentido) e desinformada. Posso fazer uma lista desses homens do humor que contribuíram pra consolidar essa imagem ruim sobre o Piauí, um dos mais bem sucedidos no intento, é o Juca Chaves, que deu melodia ao avacalhamento. Mas pra compreendê-los melhor, por respeito aos seus trabalhos e a história, tento ambientar-los no tempo e no espaço. Chego à conclusão de que eles são velhinhos, são do tempo do Piocerão, PIAUÍ, CEARÁ E MARANHÃO, os estados mais pobres do Brasil. Só que conseguiram parar de fazer piada de mau gosto com o Ceará, com o Maranhão, mas continuam pegando no pé do Piauí por pura ignorância, (será que burro velho não aprende?), pois em muitos aspectos, incluindo saúde, educação moradia, PIB, o Piauí dá de dez, e não para de crescer. Mas pra muita gente, quebrar paradigmas é perder o chão, ou a piada.

E o que me parece pior é ver jovens caindo na esparrela de confiar na opinião dos sábios anciões. Continuam a tradição falando mal do Piauí até o fim. Mas eu não vou por a culpa só nos homens do humor, vou à diante. A difamação é generalizada. A imagem do Piauí é ruim mesmo, embora lá a gente pense que seja diferente. Temos a ingenuidade de acreditar que podemos ganhar o Rio, São Paulo e muitos outros estados com o nosso carisma, nosso talento, e que trazer na identidade Made in Piauí não nos seja um problema. Ledo engano. Eu que moro fora há 15 anos e sofro com o pré julgamento depreciativo na pele e carrego nas costas o peso de ser do Piauí, posso falar de cadeira. E embora goste muito e respeite a cidade em que vivo não posso me fazer de rogado, eu sinto, eu vejo.

Quando uma modelo linda faz sucesso e fala que é do Piauí, ninguém acredita, quando uma escola de Teresina tem o melhor resultado do Enem, dizem que foi engano, roubo, quando uma cantora começa a aparecer vem um caminhão e passa por cima questionando sua qualidade, seu valor, quando um humorista vem do Piauí, sofre perseguição, maus tratos, quando uma atriz batalha e consegue bons papeis, têm alguma coisa errada… Se eu for retratar tudo o que já vi, não acabaremos hoje. O Piauí está associado ao atraso, à feiúra, a pobreza cultural e socioeconômica. Por mais que mostremos que não é bem assim, vale mesmo a velha imagem deturpada. Parece que temos a marca de Caim. Por isso valorizo demais os que são vitoriosos diante desse quadro e invejo os que ficaram em casa protegidos.

O mais triste é que diante de tanto achincalhamento configurado, nós e nossos filhos vamos esmorecendo, deprimindo, acreditando que somos feios e pobres, que não temos direito a respeito, admiração, sucesso, fama, que somos condenados ao ostracismo e ao papel de palhaço! – O quê que é isso! Me respeite seu moço! Eu existo!

Parem de falar mal do Piauí! Já perdeu a graça! Eu não vou dizer que lá o máximo, que a cultura é a mais rica, que o ensino é o melhor, que nossos políticos são um exemplo, que todo mundo é lindo, que o clima é ameno, pois eu teria primeiro que fazer um estágio na Bahia (adoro a estima deles), mas que nós somos especiais somos, e quem não tiver seus defeitos que atire a primeira pedra.

E agora, não por bairrismo, mas por ser fã da inteligência e do humor, eu dou uma dica: Leiam, escutem, se informem, conheçam o Brasil, visite o Piauí antes que ele vire a Dinamarca.

CHOQUE DE REALIDADE

terça-feira, novembro 10th, 2009


Patricia Mellodi

Depois de viver um pouco, chego à conclusão que o ser humano precisa de vez em quando passar por um choque de realidade. Precisa levar um susto, um chifre, passar um aperreio, fome, medo. É preciso que aconteça qualquer coisa inesperada e aparentemente desagradável pra que a pessoa volte ao prumo. É como levar uns dois tapas na cara pra acordar. Digo isso por observação e por experiência própria.

Como não é bom apontar os outros, melhor começar falando de mim. Eu sempre fui vaidosa e megalomaníaca e minha doença sempre foi alimentada de todas as formas, principalmente através de elogios e oportunidades, eles são o meu fraco. Certa época, toda vez em que tinha uma oportunidade melhor no trabalho, ou uma simples perspectiva, esbanjava arrogância com ares de vencedora. Sempre que achava que estava segura numa coisa, tratava rapidamente de me sentir a última coca-cola do deserto, e com o nariz empinado bradava auto-elogios e lições de como fazer dar certo, magoando meus amigos, meus amores. Mas quanto maior era o voo, maior o meu estabaco!

Observando as pessoas mais próximas, confirmei minha teoria. Bastam dois ou três acontecimentos positivos, pra esquecermos completamente de onde viemos e pelo o que já passamos. Veja a minha empregada, quando veio me pedir emprego, parecia faminta, humilde, desesperada por um trabalho. Confesso que apesar dela não corresponder as minhas exigências, senti pena e a contratei. Menos de um ano depois ela estava transformada. Dando ordens em mim, preguiçosa feito um gato de hotel, faltando descaradamente ao emprego. Custei, mas mandei embora, lógico, e ela me disse: – Oh Dona fulaninha, o que vai ser de mim sem a senhora! Dane-se! Pensasse nisso antes. A demissão era necessária pra aquela criatura, didático.

Uma prima minha que beirava os quarenta, já meio desesperada com seu relógio biológico, de repente casou com um cara inteligente, trabalhador e apaixonado. Ela não tinha grandes atributos, mas no geral dava pro gasto. Um tempo depois do primeiro filho, ela falava pra quem quisesse ouvir: – Marido só serve pra carregar sacola e abrir vidro de azeitona. (parece piada, mas não é!) Tratava o pobre feito um cachorro, vivia de mau humor, com enxaqueca. Resultado: Levou um chifre e um fora fenomenal! Agora ela chora, manda recado por todo mundo que quer voltar, e ele nada. Mas fala sério, ela mereceu!

Ser humano é tudo igual, não pode encher a barriga um pouco que já ganha forças pra discursar, não pode ter um pouquinho no banco que já considera o amigo de anos, ralé, não pode nem receber muito amor e carinho que já começa a fazer apostas altas demais, a colocar o amor na roda.

Não importa o credo, a raça, a cor, o sexo, a posição social, é tudo a mesma coisa.

Depois de identificar essa peculiaridade humana, inclusive na minha pessoa, pois não fujo a regra, resolvi fazer confrontos com a realidade diariamente pra não perder a referência. As vezes vacilo, mas sempre me confronto. É melhor ficar ligado pra não virar um babaca só por que ganhou uma mariola, e muito menos se transformar num insensível por que perdeu a necessidade.

Me obrigo a pensar todos os dias nos altos e baixos, na riqueza e pobreza de que pode ser feita a vida de uma pessoa só. Lembro o resto de perfume que tinha que durar, o batom que raspei até o talo, a pasta de dente que espremi incansavelmente, o bloco dentário que colei com superbonder, os yakisobras que comi e, aqueles amigos de sempre. E no espelho digo: Eu não posso me esquecer disso nunca.

Faço de vez em quando compras em mercadinhos bem apertados, com pouco dinheiro que é pra nunca esquecer como é contar moeda, (digo contar mesmo, os centavos), aproveitar promoção, como é não poder comprar certas coisas básicas como margarina, como é ter que dirigir um carrinho de supermercado vazio com prudência e gentileza, repetindo a cada segundo: – Com licença senhor, perdão senhora.

Tento não ficar cega por ganhar um elogio. Aceito desconfiando. Elogios e oportunidades são meu fraco. Alerta vermelho nessa hora. Se vier coisa boa, eu vou com calma, pode ser alarme falso, trato de ficar mais perto dos meus amigos pra não vacilar. Às vezes pareço não valorizar o que me acontece profissionalmente, mas não é isso. É que eu não posso cair de novo em tentação e começar a me achar a tal por causa de um convite, um fã, um dinheirinho a mais. Tudo hoje, amanhã pode ser o contrário.

Penso que tenho que me cuidar e cuidar do meu amor, pois as gostosas estão por aí, e elas não são burras nem idiotas. Tem gostosa super gente boa, delicada, inteligente, culta e independente. Isso é muito terrível, mas é real. É melhor não colocar pra jogo se não quero perder.

Mesmo tendo empregada, faço faxina, lavo roupa, cuido de filho, aprendo a fazer comidas gostosas, criativas e baratas, pois é preciso saber ter e não ter. Se alguma coisa falhar, eu faço uns bolos pra fora.

Forço a barra pra não perder a memória e a inteligência, mas quando alguma coisa vem me tentar eu lembro da minha avo Iaiá:

– Esse aí, tem um bode amarrado num pé de caju e pensa que tem uma fazenda!