Archive for julho, 2009

INCONFESSÁVEL

quarta-feira, julho 29th, 2009

De Patricia Mellodi

É muito difícil chegar a esse nível de sinceridade, está além das minhas possibilidades. Estou hoje rompendo um paradigma, dando um salto com relação à aceitação de mim mesma. Apesar de ser hoje um ser humano mais evoluído, recuperado espiritualmente, e de jamais me imaginar nessas condições que vou relatar, eu não posso negar o que já fiz.

Eu sempre me apresento de maneira doce, engraçada, sociável, mas hoje não, tenho uma revelação dura, cruel e arriscada sobre a minha pessoa. Alguns talvez não entendam, torçam a cara ou o bico pra mim, mas o jogo da verdade se faz necessário em função da minha disciplina e obediência aos exercícios propostos pelo meu mestre, Professor Paschoal, o mentor da oficina literária que faço parte.

É com muito pesar, vergonha e estranheza, que confesso: Eu já matei uma galinha. É, eu matei, e matei sem culpa, sem sentimentos, movida única e exclusivamente pela minha necessidade de afirmação.

Naquele dia eu senti que nada ia ser como antes. Eu nunca mais iria precisar de nenhuma mucama pra me alimentar, e surpreenderia a todos. Embora fosse quase uma criança, já demonstrava meu talento culinário nos cuzcuz e bejus que preparava, mas queria tocar fundo no estomago daquele que me gerou, fazendo o seu prato predileto.

Pelos fundos da casa fui até o quintal, passei os olhos de águia em revista e escolhi de longe a minha vítima, a mais desatenta, vermelha e gordinha que vi. Ela era perfeita. Corri pelo quintal aos gritos e cacarejos da galinácea presente e consegui alcançar o meu alvo, a galinha ruiva.

Segurando a pobre pelos pés de cabeça pra baixo, fui pra cozinha. Na pia já estavam os meus utensílios: uma faca afiada, uma tábua de carne de madeira e um pequeno pote pela metade de vinagre. No fogo uma chaleira fumegando. Segurei firmemente à ruiva, despelei um pouco do lado direito do seu pescoço e a imprensando contra a tabua, passei a faca com toda firmeza. A bicha se debatia forte, gritava, mas eu friamente não me abalava, continuava o corte. Atingi a veia em cheio e virei seu pescoço para o pote, misturando o jorro do seu sangue ao vinagre. Em segundos ela finalmente se aquietou e me deu paz para continuar meu serviço.

Joguei a água quente que fervia na chaleira no seu corpo, depenei, limpei os canhões (pelos encravados), deixei ela bem lisinha. Abri seu peito, fiz a autopsia perfeita como uma exímia legista, ou melhor, cozinheira. Separei os miúdos, cortei o corpo em partes e temperei com ervas e vinho. Reservei por algumas horas.

Mais tarde refoguei com alho e cebola, cozinhei por duas horas, pois galinha caipira demora a ficar macia, e quando estava bem cozida, despejei na panela o sangue misturado ao vinagre. Em minutos estava pronta minha galinha à cabidela.

Meu pai comeu de lamber os beiços, a empregada me odiou por dias a fio, mas eu nunca me livrei da culpa deste crime inconfessável e delicioso.

Um dia pra ficar na memória

terça-feira, julho 14th, 2009


De Patricia Mellodi

Já tinha me conformado em assistir pela televisão o show do Roberto no Maracanã. Ir pra arquibancada nem pensar! Seria mais confortável e não menos emocionante ficar no sofá da sala, curtindo aquele que embalou vários momentos da minha vida, até àqueles em que eu não estava presente em corpo, mas planejada em alma.

Pra falar a verdade, nem estava pensando muito no show, pois tenho horror à multidão. Mas na véspera me bateu uma culpa de fã: – Como eu não vou ao show do Rei? Eu devo tanto a ele! E ando precisando tanto chorar! E mandei ver no twitter: “- Fico pensando no show do Roberto amanhã que eu não vou. Só me resta assistir em casa chorando muito…” Escrevi aquilo num fim de noite sem mais expectativas. Foi só um desabafo twittanesco. Dormi.

Na manhã seguinte, sábado, havia um recado pra eu retornar a ligação pra um tal de Hélio. Helio? Só conheço três: O Helio De la Peña(que nunca me ligaria), o Seu hélio que digita etiquetas de mala direta pra mim, e o Hélio marido de uma amiga, a Roberta, ambos trabalham na TV Globo. Só podia ser ele.

– Alô, Hélio?!
– Sim.
– Hélio, é Patricia, você me ligou?
– Liguei sim. É verdade que você vai assistir ao show do Roberto pela televisão chorando?
– É verdade, eu não comprei ingresso!Sei lá…
– E se eu te disser que tenho dois ingressos VIP pra assistir do gramado, aquele lugar bonzão?
– Ah, eu não acredito! É claro que eu quero!
– Então as sete e meia eu passo pra pegar vocês.

Foi o poder da amizade se manifestando através do twitter! Combinação fantástica e moderna. Ingresso vip Pra ver o Rei e carona, é sorte demais!

O Botafogo jogando na raça, mandando ver num glorioso 2×1, mas eu nem sequer tinha ânimo pra olhar pra TV, só queria estar linda e preparada pra todas as emoções daquela noite.

Apesar de estar de capa preta, botas, num visual clássico de inverno, caprichei numa camiseta sobreposta com um laço de paetês branco bordado. Eu não poderia deixar de brilhar, afinal, não estava vestida nem de branco, nem de azul. E minutos depois: – Eles estão lá em baixo esperando.

Abraços, agradecimentos insistentes, transito e enfim, chegamos ao Maracanã, entrada gramado azul. Mulheres de todas as idades e estirpes. Casais que não saem de casa há muito tempo, reconheci pelas teias, comitivas e excursões de vários lugares. Mulheres vestidas de casaco de pele, brilhos e brocados de me fazerem inveja. Chiquérrimas nos seus saltos agulhas, botas maravilhosas, algumas de tênis, mas todas com estilo e impecáveis. Imagina ir ver o Rei num modelito básico! Nunca vi tanto rosto repuxado de plástica, tantas velhinhas desinibidas e alegres, tantos filhos e maridos carinhosos, tantos amigos de terceira idade juntos, uma verdadeira irmandade da “coroa”.

A fila andou relativamente rápida e já estávamos no centro do santuário do Futebol, mas a bola era um microfone, e o craque era o Rei Roberto Carlos. De cara ao entrarmos no gramado recebemos uma capa de chuva, pois o céu vermelho ameaçava precipitar. Pessoas transitavam procurando seus lugares, fotógrafos atrás de famosos, mulheres desfilavam seus decotes na área vip, políticos, artistas, jornalistas, músicos, uma badalação geral. Mas o mais emocionante na verdade era olhar pra trás e ver a multidão que se apinhava na arquibancada. Aquele sim era um público animado, cantando, fazendo a “ôla”, e acendendo luzinhas, isqueiros, celulares, o que fosse pra abrilhantar mais ainda o show, mesmo antes dele começar, somente incitados pelo animador e ator Eri Johnson.

Uma moça vestida com uma camiseta escrito produção nos perguntou se estávamos no nosso lugar pois já ia começar o show. E de repente: – Atenção o show vai começar. Com vocês O Rrrrrei Rrrrrrrrroberto Carrrrrrrrrlos.

Dali em diante mesmo sem tomar uma gota de álcool eu já estava embriagada. Ele entra no palco num calhambeque azul, desce, fala as mesmas palavras de sempre e canta emoções. E enquanto caía uma chuva fina, discorreu por suas idiossincrasias e canções. Eu já estava em prantos lembrando do primeiro show que assisti dele e sentei na arquibancada C do Estádio Albertão em Teresina vestida na cueca do meu irmão por falta de calcinha na casa da minha tia. E assisti de tão longe que nem o binóculo foi suficiente, só consegui ver direito uma gravata azul de paetês que ele usava. Mas agora não, estava ali tão pertinho, na área vip.

Enquanto os seguranças lutavam pra conter o público que invadia os limites do palco, e os mesmos seguranças fotografavam e filmavam o Rei cobrindo a nossa visão, ele cantou lady Laura, Cachoeiro, Nossa Senhora, mulheres baixinhas, Você foi, caminhoneiro… Mas nessa hora nem São Pedro aguentou e chorou um temporal em cima de todo mundo. As pessoas tentavam vestir suas capas de chuva na pressa, mas não eram suficientes. Muitos fugiram pras marquises das arquibancadas laterais, e eu, embora muito fã, também fugi. Fiquei assistindo do telão e ouvindo mal, mas o suficiente pra não perder o clima.

Passei abrigada o tempo de três músicas, e quando a chuva deu uma trégua, eu voltei e voltei pra ficar. Mas não havia mais o meu lugar. O público da geral excitado, pouco se importou com a chuva, e enquanto alguns Vips se protegiam do aguaceiro, o povo tomou a beira do palco tornando o show muito mais emocionante e quente. E a arquibancada fez sua conexão com o gramado. Todo mundo de capa, cantando mais e mais sucessos numa só voz.

Quando ele cantou meu Irmão camarada sem o Erasmo, me incomodei um pouco, achei um absurdo, mas fui surpreendida por uma imagem no telão. Era ele, o Tremendão, interrompendo a música, reclamando sua presença como mandava o roteiro e tão emocionado como nunca vi. Fez uma linda declaração de amor e entrou no palco tremendo literalmente. Depois entrou a mana Vanderléa, e juntos os três mostraram a força da amizade e do tempo.

Roberto continua o show só, canta que é preciso saber viver, apresenta seus músicos, o Paulinho, o Paulinho e o Paulinho e clama por Jesus Cristo, enquanto velhinhas, jovens, homens e mulheres entram em catarse dançando e cantando todos molhados e felizes. Ele joga para o público milhares de flores beijadas e declara: Como é grande o meu amor por vocês, com explosões e o céu coberto por fogos dourados. E eu amei muito mais o Rei.

Na saída às pessoas se escoravam umas nas outras com medo de cair nas poças de água, a maquiagem toda borrada, calças, casacos e sapatos encharcados, um espirro ali, uma tosse acolá, mas a certeza de que foi um dia pra ficar na memória.