Archive for junho, 2009

CRIADA PRA DAR CERTO

sexta-feira, junho 26th, 2009


De Patricia Mellodi

Sou uma moça de boa família, formação religiosa rígida, com princípios morais claros e de bom coração. Desde muito pequena fui educada pra organizar, cuidar e embelezar tudo o que está ao meu redor. Antes mesmo de a adolescência chegar eu já sabia fazer crochê, tricô e tapeçaria. Aos nove anos fiz um curso de corte e costura e ganhei o presente mais caro de meu pai: uma máquina Singer modelo Zig Zag.

Meu interesse pela cozinha sempre foi enorme. Aprendi muito pequena a fazer arroz, feijão, bife, ovo, macarronada, bolo de cenoura e bolo de sal, apesar de ser sempre expulsa da cozinha pela empregada, que via seus serviços ameaçados pelo meu talento.

Tem gente que não acredita, mas sou daquele tipo que fez curso de datilografia, máquinas manuais e máquinas elétricas. Digito com todos os dedos. Sei fazer recibo, requerimento, cartas comerciais de toda natureza. Sempre cogitei no meu íntimo a possibilidade de trabalhar num escritório como secretária, pois tenho vocação pra ser braço direito.

Fui criada por uma tia enfermeira, que me ensinou detalhes da sua profissão, por exemplo, como fazer uma cama com perfeição, dar banho em doente, preparar chás, infusões, a fazer o suco V8(com todas as vitaminas), a cuidar de umbigo de recém-nascido e muitas outras coisas. Conheço os remédios, os alimentos e seus nutrientes, as doenças e sua cura. Sou capaz de clinicar casos comuns, pois sou uma leitora de bulas profissional e sei reconhecer certas doenças pelo cheiro.

Essa mesma tia me ensinou a colocar uma mesa com classe, usar os talheres e copos adequadamente, usar perfume de forma discreta, a não usar sutian preto com blusa branca, falar baixo, não fazer fofoca, não pegar nos pés durante uma conversa, se relacionar bem com os menores, fazer bainha, chulear, pregar botão e, conservar, mesmo na intimidade, certo pudor.

Eu me considero uma moça preparada, criada pra dar certo, mas ainda não dei, não entendo por quê!

UM ANO DE LEI SECA: Desafio é sobreviver!

segunda-feira, junho 22nd, 2009


De Patricia Mellodi

Que me perdoem as vitímas e as famílias de vitimas envolvidas em acidentes com motoristas embriagados, pois somente em casos dolorosos como esses, eu consigo entender um posicionamento radical com relação ao álcool e a direção.

Já faz um ano desse exagero e, mais uma vez afirmo que não faço apologia ao álcool, muito pelo contrario, mas ainda me dou o direito de reclamar a minha ida ao restaurante com meu marido pra jantar, tomar uma garrafa de vinho tinto(duas taças e meia pra cada um) e voltar em paz pra casa na intimidade do nosso carro. É um verdadeiro saco ter que dividir nossa conversa, nosso finzinho de noite com um motorista abelhudo nos olhando pelo retrovisor, ou ter que tomar nosso vinho em casa! Que retrocesso na nossa vida monótona de casal!

Bom, não é possível que todos os habitantes dessa cidade que possuam carro, que gostem de tomar um chopinho, sejam uns irresponsáveis, alcoólatras, assassinos no trânsito. Pois é assim que todos nós estamos sendo vistos. Nem nos “países de primeiro mundo” a coisa caminha dessa forma. É preciso você estar fazendo uma M. pra depois pagar o preço. Antes disso, rola o benefício da dúvida! Aliás, existem muitos testes além de um bafômetro viciado, pra medir nosso reflexo, nossa condição de conduzir um carro.

Nesse primeiro aniversário da lei seca, faço a minha reflexão diante das experiências que tive. Claro, que de alguma forma eu me rendo. Se hoje eu for naquela festa ou fazer aquela farra, prefiro mesmo pegar um táxi de companhia, contratar um motorista ou mesmo em grupo lançar mão de uma van. Além de ser mais seguro é muito mais confortável. E não me venha sugerir a pegar um ônibus toda arrumada de salto alto sábado a noite! Convenhamos, que a gente trabalha pra ter algum conforto! Mas confesso que não suporto mais as situações de risco que estamos enfrentando por medo de perder a carteira de habilitação, numa simples saída sem grandes consequências. Antigamente você saia no seu carro, tomava uns “garotinhos” e voltava devagar, numa boa, tomando cuidado, conversando e chegava são e salvo. Hoje, você é obrigado a tomar um táxi. Aliás, alguém anda fiscalizando esses profissionais? Pois já peguei taxista bêbado, cheirado, tarado, imprudente, de todo jeito! Deixamos de dirigir nossas próprias vidas pra nos arriscar na mão de um desconhecido visivelmente perturbado que guia o seu carro amarelo, com ares de poderoso, imune as leis. Não são todos, é claro, seria uma injustiça da minha parte, mas a quantidade de maluco dirigindo táxi é incontável! E o pior é que quando entramos numa viatura ficamos acuados, submetidos, reféns, e de preferência de bico calado, antes que nos aconteça o pior. Já fui cantada, agredida verbalmente, jogada de um lado pro outro do banco em função das ultrapassagens ziguezagueantes, ouvi impropérios, xingamentos, que honestamente me ofendeu e muito. Isso não é fora da lei? Imagina se eu vou ficar tranquila, deixando minha filha voltar de uma festa num amarelinho desses! Às vezes acho que prefiro um colega dirigindo com algum nível alcoólico no sangue, mas com respeitoso! Sem contar com a quantidade de pedestes acidentados que já vi por atravessar fora da faixa. Bêbado é perigoso até a pé! Eu disse bêbado, que fique claro!

As pesquisas são controversas, não se tem um número exato, um percentual correto da diminuição dos acidentes, pois existem várias correntes dentro dessa lei, sindicatos de restaurantes, hotéis e casas noturnas em desespero, governos moralistas em tempo de campanha, famílias da classe média em pânico querendo ver seus filhos jovens em casa, e muitas outras coisas que minha ignorância não permite identificar. E quando a blitz do fim de semana pega um ator conhecido, um cantor famoso, um jogador de futebol, melhor pra mostrar serviço, vítima perfeita! E a sociedade bate palma! Mas eu, uma rebelde ainda com carteira, sou totalmente contra a qualquer coisa extremada, acho ignorante! Aliás, acho uma piada com bordão e tudo: Tolerância zero!

Bem, que venham as blitz, as leis que “pegam” e melhoram a nossa vida, são todas bem vindas, mas que venham com um mínimo de inteligência e respeito a minha privacidade e ao meu direito de ir e vir em segurança.

Pronto, falei!

Viagem ao Piauí

quinta-feira, junho 18th, 2009

De Patricia Mellodi

Bom, negada, é verdade que eu to só o oco e os caburé cantando dentro, mas to feliz a balde. Friviei muito nesses dias. Passava o dia conversando miolo de pote com uns magote de fio duma égua. Uma fuleragem, um licute com aquele povo, que nem ouvia o apito da lancha! Vivia com os dentes na fresca. Bagaceira total!

Nao vão mangar de mim não, mas um dia eu pedi pro meu irmão emprestado o loréu dele caindo os pedaços, e me perdi em Teresina, saí do rumo e nem dei fé, fui bater no inferno da pedra atrás de um frejo, mas eu tava com aquilo incutido na minha cabeça.

Enchi meu bucho de cajuína, doce de cajuí, capote frito, pirão-de –parida, maria-isabel e bejú. To boa e gorda! Tibunguei no Rio Parnaíba no pino do meio dia! Só deu pra minha radiola! Com aquela quintura, eu dei aquela pilôra! Foi pá e bufo!Espie, nem era ainda época do be-erre-ó-bró! É que eu sempre fui pigoita! Nunca tive medo de estoporar, tomava café quente e ia tomar banho!

Quando eu chego lá eu me lembro do tempo que eu era uma menina veia do buchão que usava gigolete, gostava de curiar o povo, comer de capitão, beber sembereba, dar cangapé, levar caçuleta, fazer bunda-canastra, caçar conversa com os meninos, matar briba com baladeira, jogar relancim, pegar sereno. Eu saia cedo de casa dizia que ia bem ali assim e só voltava de noite, ficava solta na buraqueira e chegada toda breada! De vez em quando entrava na taca!

Mas tem coisa no Piauí que é lasca! Ter que ouvir aquele abestado do Zé barriga-de lampréia budejando, só fobando, bêbo-bosta, dá vontade de dar um bofete! Ele fica caçando chifre em cabeça de jumento e me deixa aperriada! Que diabo é dez? Fica só empaiando a gente! Aquilo é empautado com o capiroto das profunda! Quando ele chega, dá vontade de dizer: – Caminha! Peque o beco! Já quando chega o João, aquela caba saliente, prosista, fica todo mundo pajeando, num tem párea não!

Mermã, minha viagem foi só o mio dibuiado, eu vim simbora com tempo bonito pra chover, encegueirada, dicretada a voltar em breve.
Pense: Oh lugar pra eu dar valor! Sou mais o Piauí e o boi não Lambe!

QUERENDO TRADUZIR ADQUIRA:

Grande enciclópédia Internacional de PIAUIÊS – PAULO JOSÉ CUNHA

MEU PAI ERA ESQUIZOFRÊNICO

terça-feira, junho 2nd, 2009