de Patricia Mellodi

Tive experiências quase místicas no último show que assisti, e ainda na Apoteose pensei em escrever minha crônica. É, na Apoteose, sim! Era o show do Kiss!
Eu sou uma “MPBista” convicta. Adoro música brasileira, as letras, as melodias, as harmonias, e ir a um show de rock estrangeiro, de certa forma, foge das minhas preferências e convicções. Sinto-me um tanto adolescente, desambientada e, por que não dizer, ridícula!
Mas casei com um roqueiro, mais velho que eu, picado pelo rock dos anos 70. Cabelos meio longos, roupas pretas e um ar de bad boy que ainda consegue manter. E eu gosto. Percebi com ele que não se consegue deixar de ser do rock nunca! Ele tem suas razões e são legítimas, pois viveu essa música. Diferente demais de mim, que fui criada ouvindo Luiz Gonzaga, Sivuca e Amelinha, e meu rock foi, no máximo, até o Roberto Carlos no seu “Calhambeque”, Rita Lee no “Papai me empreste o carro”, com algumas incursões em versões estrangeiras como “Banho de Lua” e “Biquíni de Bolinha Amarelinho” com a Cely Campelo. Música em inglês e rock, só mesmo o “Rock in roll lullaby” com seu shananana!
Foi no Rock in Rio 1 que me foi apresentado o mundo do rock, mas foi pela televisão, pois além de ainda estar no Piauí, eu tinha somente dez anos. E foi lá que eu conheci o Kiss, mas pra falar a verdade, lembrava das roupas, das plataformas, da maquiagem e da língua gigantesca de um deles, já a música, eu não guardei. Mesmo os Beatles, só me foram apresentados quando já estava quase na faculdade. Sou um zero à esquerda em matéria de rock, não guardo nomes, não decoro as letras, enfim, me contento em respeitar.
Mas meu marido lembra de tudo e fez questão de me levar ao show, de me apresentar pessoalmente a banda. “Tudo bem, eu vou.” Afinal, não sou fechada a novas experiências. Lá fui eu, vestida de preto, é claro.
Fomos numa van apinhada de fãs do Kiss tagarelando:
- “O Kiss em São Paulo…”, “O Kiss não sei o que lá”…”, “ O Kiss, o Kiss, o Kiss….”
Eu fiquei um bocado constrangida quando um cara que estava sentado na minha frente se virou e começou a falar esperando uma troca de experiências. Mas logo comigo? Eu não sei de nada! E seguimos na van na expectativa de público. Seriam vinte mil, dez mil ou cinco mil pessoas? Eu estava torcendo por mil, afinal odeio multidão, desconforto e briga por uma latinha de cerveja.
Chegamos. Nós e um monte de gente vestida de preto, na sua maioria homens, muitos com seus filhos nos ombros. Pessoas maquiadas de coelho, com uma estrela preta no olho, de gueixa enlouquecida com uma “chiquinha” no alto da cabeça, tinha de tudo, inclusive gente “normal.”
Enfrentamos a revista dos seguranças, os portões e eu supliquei por alguma bebida alcoólica. Seria duro enfrentar careta o meu desafio. Uma, duas, três latinhas e começa o show no horário marcado. Nunca pensei que roqueiro fosse pontual! Cai um pano gigantesco no palco, escrito Kiss em dourado, explosões, e fogo…
- E com vocês a maior banda de rock do mundo: Kiss!
Guitarras, gritos, catarse geral. Eu me arrepiei, nunca tinha sentido isso num show de MPB, foi realmente surpreendente, muita pressão. As pessoas saíam de si, gritavam muito, inclusive meu marido:
- Rock in roll!
-Yeahhhhhh!
Confesso que sinto falta dessa “paudurecência”, com o perdão da má palavra, na MPB de hoje em dia. Está tudo tão morno! Cantorinhas perfeitinhas, musiquinhas redondinhas, tudo muito “inho” pro meu gosto. Ninguém é louco, duvidoso, corno, sofrido, exagerado, só os bregas e os roqueiros. Acho que a galera da MPB precisa assistir mais a shows de rock, pra se inspirar naquela força e naquele despudor. Ninguém tem vergonha de ser ridículo, de soltar seus bichos, de ser exagerado. É lindo ser assim! É jovem.
E o show continua. Mais fogo, mais explosões, línguas pra fora e gritos da platéia enlouquecida, solos de guitarra, guitarras despedaçadas… Era uma coleção de acontecimentos emblemáticos, diria até didáticos para os novatos, e músicas desconhecidas pra mim. Só pra mim, pois o resto das pessoas, inclusive as crianças, cantava tudo até com sotaque. E os artistas no palco perguntavam:
- Everybody fell good?
-Yeaaaaahhhhhhhhhh!
Nessa hora até eu respondi, gritei, esqueci da MPB e da vergonha de tão empolgada e tonta que eu estava. Aí tocou “Iwanna rock and roll all night”, foi extasiante! Era minha música predileta do Kiss, levando em consideração que não conheço nada.
Mas, de repente, cai uma chuva enlouquecida e ninguém sai, todo mundo continua assistindo ao show no aguaceiro. Se fosse um show de MPB, o público já teria ido embora! Roqueiro é um fã exemplar até em situação-limite. Meu marido olhou pra mim e disse:
- Isso é rock in roll!
Bom, aquela molhadeira já não me agradou muito e pra falar a verdade, depois daquela chuva, das cervejas de latinha quente, das performances todas, do único sucesso que conheço, “e das centenas de músicas desconhecidas e monocórdicas (pra mim, é claro!), eu fiquei entediada. Acho que eles pegaram pesado comigo. Eu já não aguentava mais gritos, chuva, rock, língua pra fora NADA! Eu quero ir embora! “Que saudade da bossa nova”, pensava com meus botões.
- Everybody fell good?
– No!
Gritei no bloco do eu sozinho. Esse pessoal precisa ir a um show de MPB! Cadê a classe, o roteiro com nuances, o simples, o delicado, o sensível, um violãozinho folk para aliviar meus ouvidos? Quero preliminares! Para com esse sexo animal, eu só quero um beijinho!
Acabou! Ufa! Não sem antes o cantor voar pela platéia num cabo de aço. Quer dizer mais ou menos, pois a chuva atrapalhou. Eu não achei a menor graça. Tenho medo dessas presepadas acabarem em acidente.
Caladinha, voltei, nem me lembro como cheguei em casa, mas não falei mal do show, nem bem, guardei tudo pra minha crônica.
Olha, gente, eu me senti uma verdadeira coroa num show de rock. Mas valeu como conteúdo histórico, aprendi horrores!