Archive for abril, 2009

Confissões de uma mulher Fácil

segunda-feira, abril 27th, 2009

Ei, antes de você ler, eu vou logo avisando:
Esse texto é meu, mas a personagem não sou eu.
Nem vem me convidar pra jantar, que eu sou casada
e dificílima!

Patricia Mellodi

Sempre fui fácil. Não criei problemas, não me rebelei contra meus pais na adolescência, não criei caso com meus irmãos, não tive inimigos na escola, nunca fiz nada que pudesse me caracterizar de criança difícil. Nunca gostei de contrariar ninguém. Minha palavra preferida sempre foi: sim.

Cresci com o lema de nunca complicar, nunca perder tempo, nunca fazer rodeios diante de nada. Uma simplista por natureza. Uma pessoa generosa e boa de conviver.

Sempre acreditei que o que é bonito, é pra ser mostrado. Tenho orgulho das minhas pernas e dos meus seios. Então sempre abuso dos decotes e das mini saias. Percebo que faço a felicidade e fico muito estimulada, pois sempre gostei de agradar.

Desde pequena vou direto ao ponto: Se quero telefonar: telefono. Se quero beber, bebo. Se quero dar, dou.

A mania de dizer sim me acompanha de longa data. Se me chamam pra jantar, eu vou. Se me chamam pra dançar, eu vou. Se me chamam pra transar, eu vou também, claro! Pra que dizer não?

Sempre vejo uma possibilidade de relacionamento nas pessoas. Elas são lindas e gostosas, eu quero todas pra mim.

Faço sexo no primeiro encontro sempre. Às vezes rola no banheiro do bar, do escritório, já rolou até na sacristia de uma igreja. Coitadinho do Padre, estava carente, ele me pediu, eu dei. Foi por caridade. Eu sou boa, né? Criar dificuldade não é comigo!

Não espero ninguém me ligar pra sair, otimizo a situação, eu mesma ligo. Ofereço drinks no bar pra desconhecidos, pergunto se está carente. Sou interessada nas pessoas, flexível e de fácil acesso.

Na verdade eu tenho espírito esportivo, eu gosto de me divertir e de fazer a diversão geral. Não tem problema ser só por uma noite. Não tenho esses grilos!

Só tem uma coisa chata, eu sou ansiosa, não espero as coisas acontecerem, eu faço. E acho que sou um pouco carente também.

Mas esse meu jeito impulsivo tem me dado alguns problemas. Fui mandada embora do meu emprego por causa da mulher do meu chefe. Tenho sabido de fofocas com meu nome. Deram até pra me chamar de Piranha! Eu não entendo por que! ôh gente difícil!

Como é difícil ser uma pessoa fácil!

“Tem coroa no rock in roll”

segunda-feira, abril 13th, 2009

de Patricia Mellodi


Tive experiências quase místicas no último show que assisti, e ainda na Apoteose pensei em escrever minha crônica. É, na Apoteose, sim! Era o show do Kiss!

Eu sou uma “MPBista” convicta. Adoro música brasileira, as letras, as melodias, as harmonias, e ir a um show de rock estrangeiro, de certa forma, foge das minhas preferências e convicções. Sinto-me um tanto adolescente, desambientada e, por que não dizer, ridícula!

Mas casei com um roqueiro, mais velho que eu, picado pelo rock dos anos 70. Cabelos meio longos, roupas pretas e um ar de bad boy que ainda consegue manter. E eu gosto. Percebi com ele que não se consegue deixar de ser do rock nunca! Ele tem suas razões e são legítimas, pois viveu essa música. Diferente demais de mim, que fui criada ouvindo Luiz Gonzaga, Sivuca e Amelinha, e meu rock foi, no máximo, até o Roberto Carlos no seu “Calhambeque”, Rita Lee no “Papai me empreste o carro”, com algumas incursões em versões estrangeiras como “Banho de Lua” e “Biquíni de Bolinha Amarelinho” com a Cely Campelo. Música em inglês e rock, só mesmo o “Rock in roll lullaby” com seu shananana!

Foi no Rock in Rio 1 que me foi apresentado o mundo do rock, mas foi pela televisão, pois além de ainda estar no Piauí, eu tinha somente dez anos. E foi lá que eu conheci o Kiss, mas pra falar a verdade, lembrava das roupas, das plataformas, da maquiagem e da língua gigantesca de um deles, já a música, eu não guardei. Mesmo os Beatles, só me foram apresentados quando já estava quase na faculdade. Sou um zero à esquerda em matéria de rock, não guardo nomes, não decoro as letras, enfim, me contento em respeitar.

Mas meu marido lembra de tudo e fez questão de me levar ao show, de me apresentar pessoalmente a banda. “Tudo bem, eu vou.” Afinal, não sou fechada a novas experiências. Lá fui eu, vestida de preto, é claro.

Fomos numa van apinhada de fãs do Kiss tagarelando:
– “O Kiss em São Paulo…”, “O Kiss não sei o que lá”…”, “ O Kiss, o Kiss, o Kiss….”
Eu fiquei um bocado constrangida quando um cara que estava sentado na minha frente se virou e começou a falar esperando uma troca de experiências. Mas logo comigo? Eu não sei de nada! E seguimos na van na expectativa de público. Seriam vinte mil, dez mil ou cinco mil pessoas? Eu estava torcendo por mil, afinal odeio multidão, desconforto e briga por uma latinha de cerveja.

Chegamos. Nós e um monte de gente vestida de preto, na sua maioria homens, muitos com seus filhos nos ombros. Pessoas maquiadas de coelho, com uma estrela preta no olho, de gueixa enlouquecida com uma “chiquinha” no alto da cabeça, tinha de tudo, inclusive gente “normal.”
Enfrentamos a revista dos seguranças, os portões e eu supliquei por alguma bebida alcoólica. Seria duro enfrentar careta o meu desafio. Uma, duas, três latinhas e começa o show no horário marcado. Nunca pensei que roqueiro fosse pontual! Cai um pano gigantesco no palco, escrito Kiss em dourado, explosões, e fogo…
– E com vocês a maior banda de rock do mundo: Kiss!

Guitarras, gritos, catarse geral. Eu me arrepiei, nunca tinha sentido isso num show de MPB, foi realmente surpreendente, muita pressão. As pessoas saíam de si, gritavam muito, inclusive meu marido:

– Rock in roll!
-Yeahhhhhh!

Confesso que sinto falta dessa “paudurecência”, com o perdão da má palavra, na MPB de hoje em dia. Está tudo tão morno! Cantorinhas perfeitinhas, musiquinhas redondinhas, tudo muito “inho” pro meu gosto. Ninguém é louco, duvidoso, corno, sofrido, exagerado, só os bregas e os roqueiros. Acho que a galera da MPB precisa assistir mais a shows de rock, pra se inspirar naquela força e naquele despudor. Ninguém tem vergonha de ser ridículo, de soltar seus bichos, de ser exagerado. É lindo ser assim! É jovem.

E o show continua. Mais fogo, mais explosões, línguas pra fora e gritos da platéia enlouquecida, solos de guitarra, guitarras despedaçadas… Era uma coleção de acontecimentos emblemáticos, diria até didáticos para os novatos, e músicas desconhecidas pra mim. Só pra mim, pois o resto das pessoas, inclusive as crianças, cantava tudo até com sotaque. E os artistas no palco perguntavam:

– Everybody fell good?
-Yeaaaaahhhhhhhhhh!

Nessa hora até eu respondi, gritei, esqueci da MPB e da vergonha de tão empolgada e tonta que eu estava. Aí tocou “Iwanna rock and roll all night”, foi extasiante! Era minha música predileta do Kiss, levando em consideração que não conheço nada.

Mas, de repente, cai uma chuva enlouquecida e ninguém sai, todo mundo continua assistindo ao show no aguaceiro. Se fosse um show de MPB, o público já teria ido embora! Roqueiro é um fã exemplar até em situação-limite. Meu marido olhou pra mim e disse:

– Isso é rock in roll!

Bom, aquela molhadeira já não me agradou muito e pra falar a verdade, depois daquela chuva, das cervejas de latinha quente, das performances todas, do único sucesso que conheço, “e das centenas de músicas desconhecidas e monocórdicas (pra mim, é claro!), eu fiquei entediada. Acho que eles pegaram pesado comigo. Eu já não aguentava mais gritos, chuva, rock, língua pra fora NADA! Eu quero ir embora! “Que saudade da bossa nova”, pensava com meus botões.

– Everybody fell good?
– No!

Gritei no bloco do eu sozinho. Esse pessoal precisa ir a um show de MPB! Cadê a classe, o roteiro com nuances, o simples, o delicado, o sensível, um violãozinho folk para aliviar meus ouvidos? Quero preliminares! Para com esse sexo animal, eu só quero um beijinho!

Acabou! Ufa! Não sem antes o cantor voar pela platéia num cabo de aço. Quer dizer mais ou menos, pois a chuva atrapalhou. Eu não achei a menor graça. Tenho medo dessas presepadas acabarem em acidente.

Caladinha, voltei, nem me lembro como cheguei em casa, mas não falei mal do show, nem bem, guardei tudo pra minha crônica.
Olha, gente, eu me senti uma verdadeira coroa num show de rock. Mas valeu como conteúdo histórico, aprendi horrores!

Páscoa e outros bla bla blas!

quarta-feira, abril 8th, 2009


ONTEM NUM JANTAR DE FAMILIA tentava explicar pra minha filha mais velha e pras minhas duas enteadas o que significa a Páscoa. Numa revolta contra a igreja católica que nasceu nos estudos de História sobre o terror da inquisição, diante desses absurdos de excomunhão, de posicionamentos radicais com certas medidas profiláticas a respeito da AIDS na África, de coisas que não se consegue entender no mundo moderno, e das sandices “over” do mundo evangélico, muitas dessas crianças (pra mim são crianças) desistem da espiritualidade sem ao menos experimentá-la. Não tem a mínima noção do enorme prazer que existe na Fé. Santa Teresa, minha santa apaixonada que o diga! E fogem de qualquer coisa que possa parecer doutrina, que possa “aliená-las” de alguma forma. Isso me dá uma enorme vontade de contar pra elas como pode ser boa e fantasticamente favoráveis ao nosso crescimento certas coisas relacionadas à religião.

Acho a Bíblia maravilhosa, acho que contem histórias incríveis e uma sabedoria que vem do homem inspirado por algo Divino, mas que é genuinamente baseado num código de convivência social tão necessário pra nós. Como ser ateu diante de tantas maravilhas inexplicáveis? Eu realmente não consegui, mesmo quando tentei.
E fui falando de Jesus, homem moderno e fora do comum, tanto que o povo não suportou seu progressismo e o crucificou. Tentando ambientar Jesus figura tão “conhecida” , porém de nome tão relacionado à alienação, na história da Páscoa. Gente, Como pode parecer alienação, falar em Jesus, o cara mais moderno que eu já conheci! Ele disse que nós somos Deus também, nos deu a liberdade, mas nos aprisiona na boca dos ignorantes e aproveitadores!

Fico cutucando o tempo todo,sou mesmo uma chata, pra que tenham outros olhares, outros conhecimentos, além da internet, do Che Guevara, Apple Mac, Seriado Lost, Crepúsculo, Gossip girls, Harry Potter, backyardgans, e outras formas de alienação velada.

Eu dizia:

– Hebraico, Pessach, significa passagem. Os judeus comemoram a libertação e fuga do seu povo do Egito e os cristãos rememoram a ressurreição de Jesus, a vitória dele sob a morte.

Nós trocamos ovos de Páscoa nessa época normalmente sem nem perceber ou conhecer o verdadeiro sentido desse momento, desse símbolo. O ovo significa início de vida

É uma espécie de ritual de passagem de passagem, de libertação. Não estaremos saindo do Egito, mas da escravidão.

Uma escravidão sem correntes ou chicotes, ao menos visíveis, mas dos nossos piores defeitos, que nos fazem sofrer. Dos vícios, dos sentimentos de culpa, da preguiça e soberba, do orgulho, da submissão aos “poderosos”, das más companhias, dos ciúmes, das lembranças ruins, dos meus complexos, desejos inúteis, do apego ao desnecessário.

Só nós sabemos no íntimo do que gostaríamos de nos Libertar!
Vamos pensar, vamos desejar essa libertação!

Bem, pretendo atravessar a Páscoa vencendo a morte e renascendo pra verdadeira vida. E queria muito poder levar os que amo nessa passagem.

Espero que elas tenham entendido.
SE NÃO, PELO MENOS EU FALEI!!

Jacó, um Silva que veio de Toledo

sexta-feira, abril 3rd, 2009

um conto histórico ficcional com humor
de Patricia Mellodi

Na Toledo medieval, as três grandes religiões do mundo conviviam em paz, em respeito mútuo, uma espécie de Jerusalém espanhola que deu certo. Judeus, cristãos e árabes conviviam pacificamente desde os fundadores romanos. Mas a coisa ficou preta quando O Rei Recaredo resolveu se converter ao catolicismo. O tal rei passou a ir a missa aos domingos, tornou o filho menor coroinha do Padre, confessava-se três vezes ao mês e decidiu por “ordem divina” que todos iam rezar pela mesma cartilha. Foi o fim da paz.

Os antepassados da família de Jacó desde os primórdios relacionavam-se bem com os antepassados da família de Elias e de João, caminhando lado a lado, quer dizer, em paralelas.
Depois do tal rei dispirocar, os ancestrais dessas famílias começaram a ter diferenças. Os antepassados de Jacó eram de origem judaica, formada por médicos, Filósofos, comerciantes e astrólogos. Eles foram presos, submetidos a todo tipo de humilhação depois da ordem desse tal rei, pois que não admitiam a hipótese de se converter. Já os antepassados de João eram cristãos, eles ficaram nesse tempo numa boa, gozando dos privilégios de andar livremente, era só ajoelhar e rezar. Eram pessoas comuns, digamos uma classe média como às de hoje. Já os antepassados da família de Elias que eram de origem árabe, já esses não estavam nem aí pra hora do Brasil, pois naquele tempo eles tinham uma fábrica de utensílios cortantes de aço e se o couro estava comendo, melhor pras vendas de faca.

Mas as coisas não ficaram assim por muito tempo. A Cidade foi invadida pelos antepassados da Família de Mauro, os mouros, que eram primos dos antepassados de Elias e que logo resolveram se aliar com os de Jacó, judeus espertos no comercio e nos astros. A Família de Jacó dessa vez se deu bem, começou a gerenciar as lojas de fábrica da família de Elias e os novos negócios da Família de Mauro, tornando as três famílias bem abastadas, além de fazer previsões astrológicas para os negócios, daí a grande sorte para o comércio. Mas os antepassados de João ensaiavam um tempo de dificuldades, batiam nas portas das lojas pedindo emprego sempre. Mas eles nunca abriram. Imagina ter que acreditar em nossa senhora numa hora daquelas.

Foi o apogeu da família de Jacó, ficaram ricos e poderosos, ergueram várias suntuosas sinagogas, bancos e nesse tempo foi criado os juros do cartão de crédito que até hoje matam a gente.
Epa, epa, disse um mulçumano fanático!Fora daqui seus “sem prepúcio”! Agora é minha vez de rezar na minha Mesquitinha de ouro e nada vai me impedir! E tomaram Toledo, uma cidade misturada, eclética, e rica que atraiu o Pintor El Greco, o criador do arroz a la Grega.

Foi judeu e árabe pra todo canto do mundo! Foi uma explosão de barbudos! Reza a lenda que o Presidente Lula é um vampiro desse tempo. Foram obrigados a pedir arrego para os cristãos que só queria que eles rezassem na mesmo cartilha, o que era uma pena bem mais suave.

Desde então os antepassados das famílias de Jacó, Elias e João perderam o contato. A Família de Jacó mudou de nome pra fugir da perseguição da Igreja e dos governos. De Abravanel passou a se chamar Silva e foi para Portugal e de lá veio para o Brasil. Espalharam-se por todos os cantos se tornando a maior família evangélica desse país. Não diferente disso vieram parar no Brasil também em busca de riqueza e paz, as famílias de Elias, hoje os maiores ricos e comerciantes e as de João, que são bancários, funcionários públicos concursados, comerciários e outras funções mais modestas.

Na verdade a Jerusalém do futuro é aqui e agoral.