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Férias no Piauí

quarta-feira, janeiro 28th, 2009

De Patricia Mellodi

Escrevo no calor da chegada, com o coração cheio de lembranças e de um sentimento que posso assegurar que é amor. Encontro-me num estado febril de paixão, numa euforia e orgulho que nem todas as palavras do mundo poderiam traduzir, mas que tentarei num parco português ainda sem a correção da nova ortografia ou da velha, dar uma demonstração.

Cheguei ao Rio depois de quase trinta e tantas horas de viagem do Piauí pra cá. Infelizmente num over book da Tam, coisa que eu pensei que não pudesse mais acontecer, fomos eu, minha filha de um ano, meu marido, e nossa babá parar num hotel a espera de um novo vôo as seis da manhã do dia seguinte. Foi muito chato! Mesmo com a nossa passagem confirmada há séculos, o avião lotou em Fortaleza, e nós em Teresina ficamos a ver navios. Meu marido perdeu uma reunião de trabalho e eu como piauiense desconcertada, fiquei tentando acalmá-lo e convencê-lo de que tudo tem que ser como Deus quer. Viajamos muito e pelo mundo inteiro, mas nunca passamos por isso. Foi logo acontecer na minha cidade, poxa! Bem, mas não é disso que quero falar, abri um parêntese para um assunto de utilidade pública, para uma choramingada sobre o que nos chateou, mas que só fez aumentar o meu amor.

Já que tínhamos ficado mesmo, fomos jantar no restaurante Carnaúba mais uma vez e comemos um carneiro e uma picanha espetacular acompanhada de uma cerveja estupidamente gelada, com um atendimento gentil e eficiente e uma conta muito honesta. No jantar ficamos nos declarando mais apaixonados um pelo outro e falando sobre a viagem, sobre as impressões e sensações daquelas férias enquanto a Nina passeava nos braços ora da Marina, nossa babá, ora da Kelly, a garçonete. Aonde já se viu garçonete cuidar de filho de cliente? Só no Piauí mesmo!

Voltamos para o hotel, dormimos de bucho cheio e mais calmos, despertamos às cinco da manhã para iniciar nossa saga de aeroportos e conexões atrasadas. Senti que o amor pulsava nas minhas veias e nas lembranças que insistiam em invadir minha cabeça entre um minuto e outro de espera.

É difícil falar sobre isso, mas a verdade é que quando saí de Teresina no ano de 1994 em busca de um caminho profissional, eu não amava o Piauí, ou se amava não sabia o que era isso. Não percebia futuro para mim naquele lugar. Eu queria mesmo era ir para bem longe, longe das fofocas, da mediocridade, dos olhares da família católica, da vidinha de cidade pequena. Eu queria conhecer pessoas, fazer cursos, crescer. Não queria ser conhecida como a sobrinha do Padre Melo ou como “Pulguinha Frenética” (apelido de adolescente), queria ser eu mesma, uma cantora famosa, rica e de grande sucesso pessoal. Sem sobrenomes ou parentes.

Ai meu Deus como eu era pretensiosa! Quatorze anos no Rio e ainda não sou nem famosa, nem rica. Graças a Deus a vida pessoal vai muito bem, obrigada! Eu era muito jovem e a juventude é destemida, ousada, porém arrogante demais. Saí do Piauí como a Carlota Joaquina deixou o Brasil, batendo os tamancos pra não levar nem a areia.

Mas é ilusão achar que podemos escapar do que somos. Não posso fugir desse calor, desse sotaque de melodia engraçada, nem do sobrenome, muito menos das minhas preferências alimentares. Sou uma pessoa que adora farinha, pimenta e suco de caju, sou Mello de Batalha, Medeiros de União, Carvalho de Piracuruca, Matos de Floriano e Oliveira de Palmeirais e sou saliente e dispriquitada de nascença. Essa sou eu.

Os anos foram passando, a distancia foi realçando, valorando as coisas, transformando até as fofocas em poesia. Eu fui amadurecendo a força, no bafo e na base da paulada, percebendo que apesar de ser longe e quente, como todo mundo diz, o fim do mundo, o Piauí é promissor, acolhedor, cultural, família, intelectual e gastronomicamente uma perdição. É definitivamente um lugar diferente, com coisas exóticas e únicas. Eu é que não estava preparada para ver tudo isso e tirar proveito.

Bem, mas depois de me expor aqui, como um réu confesso, quero mesmo é contar um pouco das minhas férias no Piauí.

O Orkut, esse site de relacionamento incrível, tem me aproximado virtualmente do meu passado. Encontro os amigos do Instituto Dom Barreto, do Colégio Objetivo, da Universidade Federal do Piauí, da rua que morava, dos artistas, da minha enorme e maravilhosa família com vinte e oito tios(treze parte de pai e quinze por parte de mãe) e cento e tantos primos, enfim de todo mundo. Antes de viajar consegui o telefone das pessoas que há muito eu não via através do depoimento (quem conhece o orkut sabe como é!) e parti para Teresina com a agenda na mão, ansiosa, faminta e temerosa da opinião do meu marido, um cara sensível, porém viajado e exigente. Na verdade nós íamos pra Portugal, mas ele sugeriu: – Que tal irmos para o Piauí? E fomos.

Chegamos a Teresina tarde da noite e fomos recebidos por uma moça muito simpática, a Edelva, que nos alugou o carro e que logo me reconheceu e perguntou:
– Veio fazer show?
Eu respondi:
– Não, estou de férias!

E fomos para o Hotel. Sempre me hospedo em hotel, me sinto mais à vontade, dou menos trabalho e ultimamente minha casa em Teresina é o Hotel Metropolitan. Sou super bem tratada, como muito bem, durmo muito bem, é simplesmente maravilhoso. Não deixa a desejar para nenhum hotel de grandes centros, aliás, é tanto carinho, que acho que não existe mesmo outro lugar assim. O Danilo e o Damásio, que são os donos, estão de parabéns. A recepcionista Laura é quase da minha família, viciou a Nina em bombom de caramelo.

Na manhã do dia seguinte fomos ao Jornal Meio Norte para uma entrevista, eu e Márcio. Não tínhamos ido trabalhar, mas passar pelo Piauí e não aproveitar para divulgar nossos trabalhos, diante de tantas portas generosas e abertas, seria um desperdício. Aliás, cabe aqui um elogio imenso ao talento de Isabel Cardoso e um agradecimento maior ainda a ela, ao Jornal e a jornalista que nos entrevistou, Liliane Pedrosa. Senti um enorme orgulho de poder apresentar esse profissionalismo todo ao Márcio. Por lá encontrei Efrém Ribeiro, jornalista político que sempre me trás o Piauí em seus escritos no Jornal O Globo do Rio de Janeiro e que me trata com tanto carinho e tem a recíproca verdadeira em meu coração.

No almoço comecei a minha orgia gastronômica. No estômago é que sinto mais saudades. Fomos direto para o restaurante Carnaúba, que descobrimos no Guia Quatro Rodas, mas que há muito tempo eu já havia ido e levado o cantor Jorge Vercilo, que por sinal se fartou de tanto comer capote. De lá, já meio tonta das cervejas véu–de-noiva, liguei para um monte de gente da família e para amigos marcando encontros, enquanto o Márcio me fotografava ao telefone cheia de caras e bocas, ora de riso e ora de choro. Só emoção!

Em seguida saímos pelas ruas do Jockey, Horto florestal e Ininga, bairros onde cresci, reconhecendo a casa das pessoas, matando as saudades. Vi a casa da minha melhor amiga de infância, a Andréia Melo(Por onde andará?), e da melhor amiga de adolescência, a cantora Carol Costa, pessoa com quem dividi minhas primeiras experiências e descobertas musicais. A Ivone que trabalha lá desde que éramos pré- púberes estava na porta. Não agüentei, pedi pro Márcio parar, desci do carro e a abracei. Cheguei até a entrar na casa em que fui criada chorando feito uma idiota sob o olhar desconfiado da empregada, que apesar do estranho pedido, confiou em mim e me deixou entrar. Eu chorava e pensava:

– Venderam a minha casa, não há mais a minha Tia Enedina por lá, nem minha avó Iaiá, nem meu pai, nem a Dona Biluca, nada… Tudo se acaba!

Que constatação mais dura essa!. Como disse para mim certa vez o pai da minha filha mais velha, o humorista João Claudio Moreno:

– Calma, acho que você está envelhecendo, é só isso!

Depois já no fim da tarde fomos para o encontro dos Rios para ver o por do sol, nos deliciando com aquele caminho de tijolos e potes de barros do Poti velho, com as crianças que posavam sorridentes para fotos e os varais de roupas coloridas nas portas das casas.

No parque ambiental do encontro dos Rios, fotografamos a estátua gigante do Cabeça de Cuia e a sete Marias Virgens, comprei um lindo chapéu de palha no quiosque de artesanato, que não deixa nada a desejar para os chapéus italianos, e comemos a melhor casquinha de caranguejo do mundo, a do Bar e restaurante Flutuante que fica no meio do encontro dos dois rios. Uma casquinha sequinha só de caranquejo mesmo, sem gueri-gueri, com uma farofinha de farinha dágua de chorar. Aquilo me deu vontade de comer mais caranguejo.

Liguei para Moisés Chaves, ator, cantor, produtor, meu descobridor e meu amigo irmão, pra nos encontrarmos e ele me pediu para pegá-lo na estação do trem, um ponto de cultura chamado “Nos trilhos do Teatro”. Um lugar lindo, um cartão postal, que agora revitalizado abriga o espaço do grupo Harém de teatro, sob os cuidados de Francisco Pelé, um dos homens mais importantes das artes cênicas no Piauí e meu amigo. Fiquei orgulhosa de ver aquele espaço com essa utilidade. Dei uma olhada rápida, encontrei Nilson, outro amigo jornalista, que morou um tempo no Rio, pequei o Mocha e fomos o para o Salute, em busca do tal caranguejo. E que caranguejo bom que eu comi!
Lá encontrei o Vereador e amigo Edson Melo, que fez um discurso querido sobre a minha pessoa e recebeu de presente meus livros e cd. Inclusive já me escreveu dizendo que gostou muito.
Passou por lá também rapidamente e cheia de crianças, a Carla Ramos, pianista e minha amiga, toda amável e engraçada como sempre! Que maravilha essa tal de Teresina!

Naquela noite dormi como um bebê no colo da mãe.

Dia seguinte, acordamos tarde, perdemos o café da manhã, mas como sou super protegida no hotel, deram um jeitinho de sair meu cuzcuz e meu café com leite que compartilhei com meu marido, já todo piauiense, quase abrindo mão do pão francês por um beju.

Nesse dia Fui ver minha mãe, que agora, está digamos “exilada” na fazenda, no município de Palmeirais, chamada Estados Unidos. Revi minha avó Judith, que apesar de entrevada na cama em função de um AVC, com 92 anos tem a cabeça mais lúcida que a minha. E foi logo reparando na raça da minha filha e do meu marido, disse que não tinha nada de nordestina, parecia do estrangeiro. Minha vô fica velha, mas não perde essa mania de raça!

Fui ver minha mãe logo adiante, nas terras ao lado. Elas vivem brigando, a família já apelidou o lugar de “A faixa de gaza”! Ela quase teve um treco quando me viu. A mulher é quase um homem! Estava capinando o terreno, fazendo as obras da sua nova morada com as próprias mãos! Mais velha, mais cansada, mas com a mesma força de sempre. Acho que herdei um pouco dessa macheza! Fui embora cedo, mas combinei de voltar no dia seguinte, como fiz.

Antes de pegar a estrada, logo cedo, fui ao Armazém Paraíba da beira do Rio, o velho Paraibão, para comprar uma televisão para minha mãe. Lá eu encontrei com o Willian Tito, outro criativo e bem intencionado jornalista, que me disse:

– Chegou do Rio de Janeiro e não agüentou, correu logo para o Armazém Paraíba!

Ele tirou uma foto da gente e nos convidou para uma entrevista no Portal o Dia, que fomos num outro dia e que nos encantou, pois eles estão bem inteirados e adiantados no assunto TV Digital. No Portal encontramos Desdeth Nunes, O Garrincha, um radialista escritor querido demais, que me parou e me ofertou seu novo livro, “Teresina, seus amores” e me disse que eu era um desses amores. Belos encontros o tempo todo! Não dava nem tempo de respirar e já ganhava um abraço, um presente e umas boas palavras de carinho. Márcio começou a ficar impressionado com tanta coisa boa a cada segundo, com o carinho das pessoas comigo e com o respeito que elas demonstravam ter por mim.

Sim, mas voltando ao Paraibão, depois de sair de lá, levei a Nina ao Samiu, hospital infantil que existe desde que sou menina, pois ela estava meio doentinha. Fomos atendidos rapidamente, sem nenhuma espera pela Dra. Alda, que acertou em cheio no diagnóstico. Partimos rumo à fazenda. Fomos até Palmeirais e lá comemos o melhor churrasco de carneiro das nossas vidas no restaurante do Catita (me disseram que ele é meu primo!), que estava vazio, cheguei mesmo a duvidar da possibilidade de comer bem, pois só tinha uma mesa e parecia estar esperando nós. A Nina ficou descalça correndo de um lado pro outro, brincando de subir e descer dos batentes, de arrancar matinho, parecia uma caboquinha! Por falar nisso, revi meu irmão caçula, que tratou de misturar o nosso sangue branquelo, nascendo a Isabella, uma indiazinha linda de dar gosto!

Minha mãe como sempre me surpreendeu a contragosto com o compromisso de assistir a uma apresentação de um grupo folclórico local. Sob a lua cheia, num poeirão, com a Nina imunda se esbaladando no chão de areia fina e vermelha apesar de doente, ouvimos os versos de repente de seu Joãozeira, danças, Boi, Catirina, e ainda fizeram discursos com pedidos de ajuda. No final acabou sendo mais um acontecimento bom e representativo na nossa viagem. Nos surpreendeu muito assistir a uma manifestação cultural daquelas no meio daquele mato. Aqueles olhinhos de esperança ficaram marcados na gente. Alguém precisa fazer algo por essas pessoas.

No dia em que demos a entrevista no jornal, a Isabel Cardoso nos falou que Cinéas Santos havia assumido a fundação Cultural Monsenhor Chaves, a secretaria de cultura de Teresina. Fiquei radiante. Pelo o que sei, aquele homem é um paladino das letras, um professor e de mão cheia, que marcou muita gente da minha geração com suas aulas performáticas, com suas opiniões calorosas sobre as coisas e sua paixão pelos livros. Acredito naquele mau humor, acredito naquele homem mandão com cara de bravo, naquela falta de meias palavras. Acompanho seus movimentos, seu correr por fora, sua força de trabalho e sua paixão pelo que faz. Acho que seus métodos podem desagradar a alguns, mas é um homem sério que tem amor por Teresina e pelas artes e vai fazer um bom trabalho certamente. Inclusive estive pessoalmente com ele e lhe dei meu abraço e ofereci meus préstimos que eu não sou besta. Ele me ofertou um boizinho que estava na sua mesa. Lindo! E nos contou seus planos, aliás, muito lúcidos, econômicos e bons para a cidade. O povo vai gostar. Mas por enquanto ele só está tirando as goteiras da casa de cultura, literalmente! Inclusive estive lá neste mesmo dia com o Erisvaldo Borges, o nosso representante maior do Violão Clássico, falando dos festivais internacionais que anda realizando no Piauí. É muito orgulho! O mundo precisa saber disso.

Nos dias em que ficamos em Teresina, apesar de não termos ido trabalhar, dei duas entrevistas pra televisão aberta. A Primeira para o Rivanildo Feitosa, que gentilmente foi até ao hotel esperou pacientemente eu me arrumar, pois estava atrasada, e nos entrevistou com muito carinho, abordando nossos projetos para o ano de 2009, nos dando a honra de seu primeiro programa do ano. Como se isso não fosse o bastante, ainda nos ofereceu um jantar em sua casa, que por sinal é um escândalo de bem decorada, com direito ao chefe de cozinha Elias do Camarão, que é um super chefe além de uma pessoa maravilhosa. Foi uma noite regada a champagne, velhos e novos amigos, camarão e muita conversa boa. Só o Mio dibuiado! Lá eu encontrei a artista plástica e designer, Kalina Rameiro, que é o talento em pessoa e sempre me presenteia com suas peças e me trata como se eu fosse a Marisa Monte. Encontrei também o Cícero Cardoso, dono da revista Click, que é a nossa “Caras”, e muitas outras pessoas. Todos podis de chique e aprumados nos seus trabalhos. E nesse rega bofe, diante de todas as coisas, me caiu uma ficha enorme:

– As pessoas aqui estão vivendo bem e felizes. Trabalhando e crescendo com seus próprios talentos e na sua própria cidade. Não é mais preciso sair, é possível ficar aqui e se realizar pessoalmente, materialmente, intelectualmente e fisicamente. Escolas, Universidades, hospitais, shoppings, livrarias, restaurantes e oportunidades de crescimento e calor humano. Tudo ao alcance das mãos. E na era na internet, canal a cabo e celular de última geração, o mundo vira um ovo de codorna! Estou apaixonada pelo Piauí!

A minha segunda entrevista foi com a Jornalista e minha amiga Maia Veloso. A bicha é descolada, inteligente, culta e minha incentivadora sempre. Seus programas são sempre um sucesso na cidade, uma guerreira e mais uma mulher realizada e bem sucedida nessa cidade. Como sempre, ela me deu o maior espaço, a maior bola e várias dicas sobre Barra Grande. Te mete!

Quando estava saindo da entrevista o secretário de comunicação de Teresina ligou querendo me encontrar para uma conversa. Para o meu espanto, o secretário era o meu amigo e querido escritor e professor de literatura, Wellington Soares. Gente, os professores estão com o comando! Que maravilha! Wellington foi uma pessoa muito importante na minha formação, na minha paixão pelos livros e na paixão pela vida. Despertou o meu olhar sensível para as coisas e para as artes numa sala de aula. Teresina está em boas mãos. Mais orgulhosa ainda eu fiquei. Jantamos juntos, trocamos livros, materiais gráficos sobre o Piauí, histórias pitorescas do passado e muitos planos para o futuro. Pense na minha felicidade aquela noite!

Antes de Viajar para Barra Grande passei na Tocata. Uma loja de CDS sobrevivente. A Rita, a Socorro e o Joselito, umas pessoas incríveis que gostam de música e que não desistem de continuar vendendo cds em tempos de pirataria e de download. Comprei cds de vários artistas piauienses, como a Soraia, o Roque Moreira, a Maria da Inglaterra e muitos outros. Além disso, comprei O livro do kenard kruel, meu amigo, “Torquato neto ou a carne seca é servida”. Livro que já estava me fazendo imensa falta na pesquisa que estou fazendo sobre o Anjo Torto. Sai de lá cheia de coisas pra ouvir e ler. E feliz com os Planos de expansão da loja e da parceria com o Júlio Medeiros (grande arquiteto e músico) numa loja- café- show. Merde pra eles!

Segui rumo ao litoral, com direito a uma parada no Parque Nacional de Sete Cidades, varias fotos e almoço. Comemos uma carne de sol muito boa, pra falar a verdade à melhor da viagem e um arroz com capote melhor ainda. Achamos que o hotel está um pouco abandonado, os pangarezinhos estão tão magrinhos, merecem mais atenção e cuidado. Mas mesmo assim o meu amor estava mais firme e forte que nunca e o do Márcio em pleno encantamento.

Chegamos a Parnaíba no fim da tarde, demos uma volta pelo centro, e paramos para tomar um sorvete no Araújo de seriguela e tapioca, uma delícia sem tamanho! Tomamos lambendo os beiços. Passamos nos Portos das Barcas, lindo apesar do abandono e compramos um monte de artesanatos. Aquilo lembra Tiradentes em Minas, Parati no Rio, Brasil colonial puro.

Fomos a caminho de Luiz Correia, nos hospedamos no Aimberê, hotel resort que fica na beira da praia, jantamos no Dedé uma moqueca de camarão maravilhosa e no dia seguinte uma peixada de responsa na Dona Maria, com direito a melhor cocada do mundo no final e de grátis. Dia seguinte Barra grande.

Estrada boa, expectativa enorme. Quando chegamos um nativo nos ensinou onde ficava a pousada: – E a derradeira!
Nos hospedamos na pousada da Aury Lessa. Limpa, bonita, cheirosa, bem decoradinha, cozinha gostosa, café da manhã de hotel cinco estrelas, ar condicionados novinhos e silenciosos e as pessoas mais carinhosas e gentis que encontramos em pousadas. Da cozinheira, a arrumadeira, da Dona ao garçom, todos maravilhosos. A Nina ficou super bem cuidada e segura enquanto eu caia na farra com o Márcio no bar do Bentevi (que só toca MPB da boa), na pizarria do Pedro, no açaí do Tucha (o melhor camarão no molho), no Bandoleiros( um crepe de tirar o chapéu), na praia deserta, e no bar da pousada da Aury, que fica no melhor ponto da praia. Rede de tucum, palhoça com mesa de pedra, é tudo lindo, paradisíaco e reconfortante. Barra Grande é uma Trancoso nos anos 60. Linda, pura e com bons serviços. Já estou contando os dias para voltar por lá.

Lá nós encontramos Arimatan Martins, teatrólogo e diretor, que nos foi grata surpresa em cultura, alegria e amizade, Machado Junior (músico e publicitário) com a esposa Tati e filhinho e muitos outros amigos como Airton Martins (ator e tantas outras coisas nas artes que nem sei dizer o que ele é.), o ator Francisco de Castro e o fotógrafo Paulo Barros( o PB que é colorido) que nos mostrou suas fotos, seu trabalho fotográfico sobre o Cannyon do Rio Poti( que diga- se de passagem é um espetáculo a parte) e nos presenteou com algumas fotos. Esse fotógrafo é um gênio sensível que ainda vai ser descoberto pelo mundo.
Estava por lá reescrevendo Cacilda, o teatrólogo Zé Celso Martinez. Maravilhoso, passeando pela praia com sua canga da Betty Boop.

Ainda bem que no dia de ir embora choveu muito, senão eu teria ficado “só o oco e os caburés cantando dentro” de deixar aquilo tudo. Na volta almoçamos em Campo Maior, no restaurante Havaí, uma carne de sol, carneiro, Maria Isabel e paçoca. A viagem estava quase acabando. E nós já estávamos com saudade e imaginando como seria voltar para o Rio de Janeiro e ficar sem as comidas piauienses. Eu também estava sentida por não poder ficar no Piauí até o dia 24 de janeiro e participar das comemorações de Oeiras (Adesão do Piauí à independência nacional) a convite do querido Joca Oeiras, pessoa que me traz o Piauí quase todo dia por e-mail.

Naquela última noite, no domingo, houve um sarau produzido pelo Moisés Chaves, no Café Café da Rua Campo Sales, onde reencontrei vários amigos e meu parceiro querido, Geraldo Brito, que está novo, lindo e apaixonado. Tocamos várias músicas de compositores piauienses como Edvaldo Nascimento, Durvalino, e tantas outras canções que contam um pouco da noite do Bar Nos e Elis, dos bailes da vida da nossa história, levando muitos às lágrimas. Muitos amigos e família estiveram presentes. Paulinho Mota, fashion e querido amigo como sempre, Carla ramos, Garibaldi Ramos(está novinho), Liminha (baixista que hoje mora em Brasília), Junior (músico, sobrinho do Renato Piau), Soraia (produtora de shows) e tantos outros que não consigo me lembrar agora, mas que com certeza moram no meu coração.

Dia seguinte, antes de pegar o avião, fui ver a Tia Enedina. Uma tia maravilhosa que me criou e que hoje tem Mal de Alzheimer.
Ela talvez não se lembre mais de mim, mas eu me lembro dela e isso é suficiente. Comemos o ultimo Carneiro ensopado no hotel mesmo, e fomos para o Aeroporto. Lá não conseguimos embarcar, como já contei no início, mas aproveitei pra comprar umas jóias de Opala para dar de presente. Cada uma mais bonita que a outra. O resto vocês já sabem.

Márcio está encantado, Nina mais solta que nunca e já come de um tudo, e eu estou saudosa, apaixonada, feliz e confiante por saber que em um lugar, no meu lugar, no Piauí, eu sou alguém, eu sou eu mesma, Patricia Mellodi, uma pessoa querida e respeitada, que tem pra onde voltar. Obrigada meu Deus por ser de lá!