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De volta ao Blog! com “Meu HUMOR em Estado de Sítio”

quinta-feira, novembro 27th, 2008

MEU HUMOR EM ESTADO DE SÍTIO

De Patrícia Mellodi

Eu estou em crise. Desde que comecei esse negócio de escrever humor eu estou completamente maluca. Não estou mais segurando a onda, talvez procure até ajuda profissional. É muita pressão e vem de todos os lados. Ou resolvo esses dilemas ou paro com essa palhaçada.
Tudo começou quando meu marido me disse o seguinte: – “Meu amor eu entendo essa sua necessidade de escrever, mas eu te peço que não faça piadas com o nosso casamento, com a minha potência sexual, nem fique xingando, falando sacanagem pois é muito constrangedor pra um homem e por favor não fale mal da minha mãe, que ela já é uma senhora de idade e não vai entender isso.”
Tudo bem eu aceitei, afinal tem muita coisa pra gente rir nesse mundo, eu poderia abrir mão de sacanear o casamento e a sogra. Mas a coisa não parou por aí. Minha filha do primeiro casamento que é adolescente me pediu pra não fazer piada de ex-marido, nem com assunto de pensão alimentícia que isso não tinha graça nenhuma e eu ia pagar o maior mico. Mais uma vez eu compreendi e acatei, afinal as conveniências familiares existem, o que é uma pena, pois minha história de vida é uma piada e tanto.
Fui tomar um chopinho com minha melhor amiga e ela me alertou: “-Amiga, não sacaneia as mulheres, senão elas vão te odiar. Piada machista, de gordinha e de loura é a coisa mais sem graça que existe! “
Meus assuntos começaram a se restringir, mas a minha vontade de escrever era tão grande que poderia perfeitamente cercear a criatividade e evitar certos assuntos. Então publiquei minha primeira crônica sobre bêbados.
Nunca imaginei que iria enfrentar tantos problemas. Alguns falavam que o alcoolismo era uma doença que eu deveria respeitar, os amigos pinguços vestiram a carapuça e perguntaram como eu tinha certeza que eles estavam realmente bêbados e ainda teve gente que teve a coragem de me sugerir que eu me referisse aos bêbados como “sujeito aparentemente alterado” pra evitar dores de cabeça. Tenha santa paciência! Eles bebem e eu é que tenho ressaca! Vida de escritor de humor é muito difícil!
Eu me irritei, mas ponderei e resolvi voltar a escrever. A Crônica é um estilo muito pessoal, é uma forma literária do cotidiano, quase sempre está relacionado com a vida do próprio autor, então resolvi fazer um conto, me distanciar um pouco da minha expressão humorística e evitar confusões. Fiz um conto sobre a maravilhosa cozinha da Nega Zefa que foi publicado num jornal popular. Quase apanhei! Até minha empregada se rebelou: – Nega não! Mulher afro-descendente! Preta tem que ser pobre, cozinheira, Né? Não podia nunca ser escritora!
Tive que procurar um advogado, afinal precisava esclarecer certas dúvidas pra escrever e até pra me defender se fosse preciso. Ele me disse o seguinte:”- Cara escritora, Eu lhe aconselho a não mexer com afro descendentes, homossexuais, cidadãos verticalmente prejudicados vulgarmente conhecidos como Anão, pois tudo o que disser pode ser mal compreendido e sugerir preconceito. Seria de bom tom evitar também falar dos portugueses, dos argentinos, dos americanos pois nos tempos de globalização pode parecer xenofobia da sua parte. Cuidado principalmente com as celebridades, elas fazem de tudo pra aparecer, mas não gostam de piadas e adoram uma causa de danos morais. Mais uma coisa, não use títulos vulgares, use as expressões corretas”. E me deu uma lista de significados correspondentes.
Meu Deus onde eu fui me meter! Eu nunca fui preconceituosa, muito menos desrespeitosa, mas um famoso, um padre, um pretinho, um gago, um corno, um gaúcho, um viadinho na piada sempre deu certo! Eu vou ter que inventar um novo humor, dar adeus aos velhos paradigmas do riso?!
Fui me confessar com um padre conhecido, afinal sempre bate uma culpa. Fazer piada com a cara dos outros não é bonito! Ele me ouviu, me aconselhou a rezar umas quatrocentas ave-marias e me pediu pelo amor de Deus pra não mexer com a Igreja Católica.
Até o padre! É muita pressão. Deus me livre de Fazer piada com igreja, com religião, eu tenho medo demais dessas coisas. Vou guardar a piada da Sarah e do Jacó a sete chaves!
Essa confusão toda comigo chegou até em Brasília. Ontem a tarde tocou meu telefone celular era um político do PT meu amigo dos tempos da faculdade me dando seu apoio, mas com a condição de que o nome dele e dos seus colegas de partido fossem poupados nas minhas aventuras humorísticas.
Ok, eu já entendi, o meu humor está em estado de sítio! Quem ta mandando agora é o politicamente correto!
Eu sou forte, vou superar essa crise, pretendo não desistir de escrever, me adaptar a essas regras todas, pois certamente não quero ofender ninguém, mas se o papagaio se manifestar, puta que pariu! Essa eu não vou agüentar… Desisto!