Archive for outubro, 2007

Na lente difusa da verdade

quarta-feira, outubro 17th, 2007

Conto de Patricia Mellodi

Naquele dia as coisas se revelaram diante do espelho para Josué e Valter. Eles tinham 57 anos, eram gêmeos idênticos e desde criança mantiveram o mesmo jeito de cabelo, as mesmas roupas e gostos. Mas a vida se encarregou de dar a eles caminhos diferentes.
Josué chegou mais cedo do trabalho naquele dia, largou o sapato na sala e foi direto para o banho. A água quente escorria pelo seu corpo como uma massagem relaxante, uma recompensa pelo dia de trabalho. Em seguida pegou no seu armário a roupa mais confortável que tinha e começou a se vestir. Por um instante se olhou no espelho de uma forma diferente do normal e percebeu que os anos estavam passando e que ele já não era mais o mesmo. Vasculhou seu corpo com olhos de mulher, e pensou: Essa barriga foram muitos chopes com meus amigos, dias felizes, divertidos e eu me orgulho dela. Minha barba está cada vez mais branca, mas acho que ela me cai muito bem, me dá um ar de homem maduro, charmoso. Meu pau, Ah meu Pau, velho companheiro, quase nunca me deixou na mão… Sou um homem feliz!
Vestido no seu pijama predileto, calçado nos seus chinelos, pegou um whisky se esparramou no sofá esperando sua esposa chegar do trabalho.
Valter chegou mais cedo do trabalho naquele dia, tirou os sapatos e os trouxe até o quarto e foi direto para o banho. A água quente escorria pelo seu corpo, mas sua cabeça estava fervilhando de pensamentos que talvez um banho de água fria lhe caísse melhor. Em seguida pegou no seu armário uma roupa qualquer e começou a se vestir. Por um instante se olhou, coisa que nunca faz e se deu conta das transformações que o tempo lhe fizera. – Meu Deus como pude deixar minha barriga ficar essa indecência? Minha barba está muito branca! Estou parecendo uns 20 anos mais velho. Meu pau sumiu! Quem é esse homem?
Mal vestido, com os botões trocados, descalço, pegou a única cerveja da geladeira como se fosse à última, sentou no sofá rezando pra sua esposa demorar um pouco mais na rua.
Naquele mesmo fatídico dia Josué havia sido promovido com um belo aumento de salário, com direito a uma sala e até a uma secretária gostosa. Valter fora despedido do seu emprego de anos no banco e recebeu a fatura do cartão de crédito da sua esposa.

SOU BAIXINHA E DAÍ?

quarta-feira, outubro 17th, 2007

De Patricia Mellodi

Desde pequenininha, digo pequenininha na idade, ouço coisas a respeito da minha estatura. De apelidos fofos e carinhosos como chaveirinho, fofolete, buiscuit, tampinha a apelidos horríveis que até hoje martelam meu juízo como Pintora de rodapé, surfista de aquário, tamborete de forró, anã de jardim, cotoco, meio metro. Um trauma irreparável, que análise nenhuma resolve, pois sempre alguém toca na velha ferida e volto a ser uma criança sendo sacaneada pelos colegas do primário.
Lógico que como qualquer baixinho fui logo tratando de arranjar frases feitas pra defender minha forma física. ““Nos pequenos frascos é que encontramos os melhores perfumes”, “ Tamanho não é documento”, “ O importante é o conteúdo!”
Mas a vingança vinha a cavalo, (ou melhor, de pônei) alguém sempre no meio de uma discussão comigo mandava a seguinte frase: “-O que vem de baixo não me atinge”! E isso me atingia em cheio.
Eu nunca reparei que era pequena, as pessoas é que insistiam e insistem até hoje em mim lembrar: – Vem cá baixinha!, – A vista aí de baixo é boa? – Vá procurar alguém do seu tamanho! -Se fosse maiorzinha seria perfeita!
Minha mãe também baixinha enumerava as vantagens de ser uma mulher pequena tentando me ajudar a não sofrer por isso: – Filha, as mulheres pequenas não ficam velhas tão cedo! Quanto menos material, menos perecível! Eu por exemplo tenho 40, mas me dão 33! Mas pra mim aquilo não convencia naquele instante pois eu tinha 14 e só me davam 9, era um saco!
Fui crescendo e enumerando as belas, talentosas e famosas mulheres com baixa estatura: Carmem Miranda, Elis regina ,Bibi Ferreira, Madona, Sandy, Cora Coralina, Zezé Macedo…Opa essa não conta, era feia pra caramba! E muitas outras, sem contar com os homens.
Adulta descobri que na cama a única coisa que sobra é perna, o resto encaixa direitinho, muitos homens graças ao bom Deus se amarram numa miniatura, voltou à moda da Plataforma, o mega hair tá em alta, as pessoas me dão sempre menos idade que realmente tenho e de tão pequenina nunca passo desapercebida.
Mas, se chamar de baixinha eu fico puta. Sou Baixinha e daí?
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A MARCHA DOS PINGUÇOS

quarta-feira, outubro 17th, 2007

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TEXTO DA BETE BISCATE

Essa história de que os opostos se atraem é a maior conversa fiada. Na verdade a gente gosta mesmo é dos parecidos. Amigos são como um espelho a nos refletir somente com cabelos e corpos diferentes. Meus amigos são definitivamente iguais a mim. Pessoas devassas, levianas, safadinhas, boêmias e na pressão.
Saímos juntos por aí enchendo a cara em qualquer Botequim Informal, qualquer Espelunca, fazemos absurdos e só no dia seguinte nos damos conta, não por conta própria, mas porque algum dos amigos que esteve mais ou menos sóbrio nos conta como uma prazerosa tortura, todas as “pérolas” que fizemos. – Lembra aquele segredo sobre suas hemorróidas que você contou pra mim? Todos ouviram, você estava gritando! – Você ontem estava tão animado dançando! E aquela abaixadinha com o dedo no umbigo! Rrrrrridíiiculo! –Você ligou pro seu ex umas 50 vezes seguidas! Ele deve está puto! –Gente, sempre que você bebe, você dá em cima dos garçons, dos porteiros e dos guardadores de carro! Vai gostar de plebeu assim lá na caixa prego! – A Betinha está super magoada com você! Por que você foi falar todas aquelas verdades pra ela ontem? -A bebida está fazendo você perder o senso estético! Você lembra que você agarrou a mocreia da sua ex-cunhada? -Ontem o Gilson pediu a namorada em casamento! Só bêbado mesmo! Ele só vai casar no dia de são nunca! E por aí vai. Tem sempre um filho da puta que bebe menos e resolve te contar com detalhes tudo o que aconteceu justo no dia internacional da ressaca e às vezes por dias seguidos caso a história seja daquelas que renda boas risadas. Mas como a gente só anda com os parecidos, sempre tem o troco, é só aguardar. E mesmo quando entra um diferente no grupo eu aviso logo: – Passarinho que anda com morcego dorme de cabeça pra baixo! Mais dia ou menos dia foxê pode valar coisas dexe xeito.
Dependendo do nível alcoólico, o povo se revela! É bissexual, é mito maníaco, é cleptomaníaco, é traíra, é corno apaixonado, é interesseiro, ciumento, pedófilo, rico, gente fina, enfim tem de tudo. A bebida alcoólica é o liquido da verdade. Eu endosso a máxima que diz: ”Não confio em quem não bebe!”.
Só peço aos amigos que não me deixem cair, me machucar, pois ressaca com hematoma dói muito e principalmente não me deixe fazer uma besteira que não possa encarar na manhã seguinte. Por exemplo: acordar com um estranho num quarto desconhecido!
Isso pode me fazer surtar de vez!
Falando sério, beber sucos seria muito melhor pra saúde, mas a marcha continua companheiros e pinguço que é pinguço não nega a raça.

Ps. que fique claro que Patricia Mellodi não faz apologia ao alcool,
mas como uma boa gozadora, perde o AA mas não perde a piada! RS!

Padecendo no Paraíso

domingo, outubro 14th, 2007

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Estou com a barriga quase explodindo. Eu não comi muito não, mas me comeram! Éh! A primeira coisa que pensei quando minha barriga começou a crescer é que todo mundo sabia o que eu tinha feito. É muito inconveniente sua vida privada se tornar pública. A gravidez é assim, todos ficam sabendo que te comeram e ainda gozaram dentro.
Você enjoa uns três meses que mais parecem três anos. E tudo aquilo que você enjoou nesse período fica enjoado para o resto da vida. Eu pelo menos sou assim. Não suporto sabonete de glicerina, desodorante masculino, óleo de amêndoa, cheiro de fritura e outras coisas que me dão enjôo só de pensar. Mas aos poucos a doçura vai tomando conta do seu ser e você começa a sonhar com a chegada do bebê.
Mas tem uma coisa, sobre os terrores maternos durante a gravidez ninguém fala! Todo mundo adoça tudo, como se tudo fosse feito de flores. Eu por exemplo fiquei nos primeiros meses com pânico de ter um bebê com má formação fetal, depois com as síndromes mais raras, depois com nanismo e por último fiquei com medo de lábio leporino. Mas agora nesse minuto superei esses medos e passei a me preocupar com problemas de aprendizado, stress infantil, cegueira, surdez, distúbios no comportamento, hiperatividade, transtorno bipolar e outras coisas que só se descobri ao nascer ou até mesmo mais tarde ainda. Tudo bem sou mãe pra enfrentar qualquer parada, mas a neurose da gestação é dose!
Tudo o que me ensinaram sobre a gravidez é lindo, mas esses valores e mitos estão caindo. Outro dia eu andava plácida e linda com meu barrigão pela rua e num cruzamento um gentil rapaz parou sua combi e gritou:- Passa Barriga! Eh! Quanta delicadeza! São outros tempos!
Sexo é um tabu nessa fase. Você está toda inchada, torta e empenada, mas não pode se entregar ao desuso tem que praticar, massagear o períneo, satisfazer o marido. Eu acho a gravidez sublime, linda, agora não me vem dizer que é sexy que eu não acredito! Comer grávida só mesmo para o pai, por que é o jeito, os tarados com problemas com a mãe ou para os jovens viciados em comer kinder ovo. Não entendeu? Aquele chocolate que vem com o brinquedinho dentro? Lembrou?
Primeira dica: Esqueça o Kama Sutra. As posições possíveis se resumirão a duas ou três no máximo! Suas “partes” crescem em média uns três centimentros, mas você não enxerga, a barriga não deixa. Você jura que tudo está como antes, mas de perereca a bichinha se transformou num sapo boi! Comprei até um espelho de tirar sombrancelhas para acompanhar esse crescimento fenomenal de perto.
Você fica carente, chorona, gasta todo dinheiro que tem e que não tem e espera. Todos te desejam uma boa hora. Normal ou cesariana? As opiniões se dividem e fica a dúvida: Prefere ficar toda cortada por um mês se arrastando pela casa com direito a uma cicatriz que às vezes cria quelóide ou ter sua preciosa esfolozada com direito a um pequeno talho na lateral pra preservar sua integridade justa? Essa é uma dúvida cruel! E chamam isso de boa hora!
Um velha tia minha filósofa falou pra mim o seguinte sobre o parto normal:- Minha filha pense em cagar um tijolo! – Quando o priquito imendar com o cú o menino nasceu! Ela é de uma delicadeza! Mas com sotaque nordestino essa máxima soa poesia!
Tudo bem vamos pensar no lindo bebê que virá depois de toda essa justificável tortura. Será um belezura de criança e a ocitocina lançada no corpo faz toda mãe esquecer as dores e só ter olhos e sentidos pro bebê. Ele vai te sugar e murchar os mamilos com todo amor, te roubar o sono, a privacidade com seu marido, mas ele é seu filho, você vai amá-lo profundamente e será recompensada com sorriso e uma palavrinha mágica:
– Mamãe!