conto de Patricia Mellodi

Dos sonhos que Ana conservara dos tempos de criança, um era especial e secreto. Um sonho recorrente abafado por força maior.
Nunca quis casar, mas casou, nunca quis ter filhos, mas teve três, nunca gostou de cozinhar, mas se tornou especialista em culinária mineira, tinhas dons artísticos, mas se tornou uma secretária executiva numa grande multinacional. Apesar de ser apaixonada por francês, aprendeu inglês por ser mais útil. Seu livro predileto na juventude era Dom Quixote, mas no dia a dia não lhe sobrava muito tempo pra leitura, sua vida era uma vida prática e urgente. Quando possível no metrô a caminho do trabalho ela se divertia com livros de auto-ajuda. Mas isso não era infelicidade e sim uma adaptação à realidade, uma inteligência necessária. Ela era invejada por suas amigas, tinha um marido bem sucedido, filhos, trabalho e uma beleza sensual que insistia em lhe pertencer mesmo com os anos. Mas na verdade ela era mesmo uma especialista em se auto-contrariar e ser feliz.
Sempre se aprimorava em seminários, workshops, afinal no seu escritório a competição andava bem acirrada, uns querendo engolir os outros e ela não poderia se dar ao luxo de ser passada pra trás. Ana dava muito valor ao seu trabalho e tinha medo, pois sabia o significado do desemprego.
Não se podia dizer que Ana era uma mulher retrógrada, pois ela era uma legítima mulher do século XXI. Tinha amigos, independência financeiramente, família, amor e sua vida cotidiana estava muito além de receitas de bolo. Ela era uma mulher de verdade.
Já no seu íntimo as coisas tinham vida própria, fugiam do seu bom censo. Se a deixassem realmente sozinha por dois minutinhos, lhes vinham desejos e pensamentos “absurdos”! Era o real e o ideal se confrontando, dando a certeza das duas faces do humano, a aparência e a sombra. Bastavam dois minutinhos somente e vinham lembranças de seu antigo namorado e de suas noites intermináveis de sexo e romance, lembrava de como planejava conhecer o mundo, de como seria bom uma flexibilidade maior nos seus horários, de como era sexy e desejada por todos noutros tempos, mas principalmente sonhava, sonhava o seu velho predileto sonho, ser ela mesma. Mas nunca lhe sobrava mais que dois minutinhos pra devanear, pois era logo interrompida por seu patrão ao telefone, seu marido, ou seus filhos, sempre lhe solicitando alguma coisa. Nunca, nem ela mesmo entendia sua natureza selvagem tão submissa, obediente às regras da vida. Mas se aceitava, pois apesar disso a impedir de mudar as coisas ao seu redor, isso mantinha tudo no seu devido lugar e lhe realizava o desejo primitivo de ser comandada por energias masculinas.
Sonhava muito com a verdadeira Ana! Pra falar a verdade às vezes se perguntava: “-Quem é mesmo a verdadeira pessoa que eu sou”?-Será que estou me dissolvendo nas escolhas “convenientes” que fiz? -Será que ainda existo nos escombros dessa figura em que eu me tornei? -Ou será que sou isso mesmo e que me fantasio de outra pra parecer menos insossa?
Ela Fazia tudo como mandava o figurino. Prestimosa secretária, esposa amante, fiel e amiga, mãe daquele tipo maezona, quase perfeita.
Desde criança Ana ouvia uma máxima de uma tia avó louca da família: - Minha filha a vida é assim, você larga um homem que é doido, pra um que come merda! E essas palavras martelavam no seu juízo e faziam de Ana uma mulher conformada em transformar sua paixão foguenta em amor terno e isso se reverberava também em outros âmbitos de sua vida.
Antonio não era um marido ruim, longe disso. Era gentil, charmoso e bem sucedido, mas no amor marital ele era do tipo preguiçoso. Só uma amante fora do casamento o animaria. Inconfessavelmente Ana desejou ser traída várias vezes. Talvez isso devolvesse calor àquela relação e desse motivos reais pra ela sair ou ficar ali pro resto da vida. Foi-se o tempo da bonança erótica, pensava! Agora a libido jaz no sofá da sala vendo novela! Mas Ana dava muito valor ao seu casamento e tinha medo, pois sabia o significado da solteirice.
Filhos, filhos! Desejava matriculá-los no colégio interno! Tão bonitinhos quando pequenos, mas viraram adolescentes cheios de opiniões! Mas eles também eram adoráveis e de fato eram o motivo maior de continuar firme no propósito de mulher perfeita. Ana dava muito valor a sua família e tinha medo, pois sabia o significado da solidão.
- Ana, acorda! Ana, Ana! Você está atrasada Meu amor!
- Hum, que horas são?
– São seis da Tarde! Você ainda tem uma entrevista antes do espetáculo. Não é bom a aparecer com essa carinha amassada!
– É que eu tive uma insônia louca depois de todos aqueles vinhos e daquele papo cabeça sobre Zaratustra e só conseguir pregar o olho às dez da manhã! Nossa Roberta, eu tive um sonho que nem te conto! Até agora estou confusa. Vem cá, me dá um beijo!
– Pára Ana, você vai se atrasar!
-Então eu vou dormir mais cinco minutinhos!
–Ana, você deveria dar mais valor ao seu trabalho! Você ainda não se deu conta do significado dessa temporada na Europa! Não confie tanto na sorte! Você parece que não tem medo de nada!
- Está bom, ta bom, eu vou levantar. Você sabe que eu obedeço você! Mas promete que nunca vai me trair nem em pensamento Mon Amour?
- Eu hein! Você está estranha!