“NÃO HÁ PERDÃO PARA O CHATO”

Dezembro 2nd, 2008

De Patricia Mellodi

Quem não conhece um chato de calocha, chatinho, chato pra caralho? Aquele tipo que não há quem não concorde: Chato! Aquele que desde pequeno ouve: Que menino chato, meu Deus! Comprovando a teoria que não se aprende a ser chato, já se nasce chato.
O Chato sempre escolhe a pior maneira de falar, de se comportar, de ser inconveniente. A teimosia é a força de vontade do chato e quando você diz que ele está errado ele responde:
- Eu sei!
Porra! Se sabe por que fica teimando?
Normalmente o chato já começa a frase assim:
- Eu não quero ser inconveniente… E é! Despeja absurdos sem o menor pudor ou consciência. Ele é super espontâneo e acha isso muito bonito!
Eu conheço uma penca de chatos. Tenho um colega que é muito chato. Ele sempre repara no meu peso, no meu cabelo, nas minhas unhas… Tem sempre um comentário que me deixa sem graça e com vontade de entrar no chão. Outro dia eu encontrei com o dito cujo:
- Hum, pintou o cabelo de escuro, agora ta entendendo tudo! Você está mais gordinha ou é a roupa?
- Você não reparou que eu estou grávida?
– Ah, eu pensei que era barriga de chope!
O típico chato, só de olhar você já sabe. Ele lança perdigotos na sua cara, fala impropérios, nunca vai embora, é um grude que quer se
enturmar de qualquer jeito. É um detalhista, sempre te conta as coisas com os mínimos detalhes, tim tim por tim tim. A vontade que dá é de falar:
- Meu filho, vamos direto ao ponto! Ô coisa mais chata!
Mas deixando o chato caricato de lado, posso dizer que de chato todos temos um pouco. Por exemplo, tem o chato implicante. Que discorda de tudo, de toda e qualquer opinião. Tudo que você começa a falar, ele diz:
- Não, eu discordo!
Você não consegue terminar uma frase, concluir um pensamento. Ele é um autista, fala sozinho quase que o tempo inteiro. E se esse ainda bebe um pouco, caceta, fudeu!
Mas eu não posso esquecer o chato pessimista. Pra ele nada dá certo, todos estão contra ele. O mundo é cruel. Esses têm umas características psicóticas. Tem mania de perseguição, rompantes violentos e depressivos. Eles reclamam da vida, você tenta ajudar com boas palavras, aí eles justificam falando mal do mundo inteiro e se você contraria, eles dão um ataque de loucura, gritam, agridem e logo depois pedem desculpas chorando dizendo que nada pra ele da certo… É um circulo dos diabos! Se encontrar um desses, fuja! É o mais seguro a fazer.
Tem também o chato competitivo. Não é só com as coisas boas que ele disputa com você, é com as ruins também. Ele tem sempre o problema maior que o seu, a doença maior que a sua, a divida maior que a sua, enfim tudo o que você conta pra ele, ele rebate. Chega ao absurdo de você dizer pra um chato rico:
– Ah, eu to tão pobre!
Ele diz:
– Imagina eu!
E o chato corta barato? Você está se esbaldando numa torta de chocolate e ele diz:
- Você quantas calorias tem essa bomba?
Tem também o chato critico de plantão, ele não produz porra nenhuma, mas fala mal de tudo o que os outros fazem:
- Gostei, mas poderia ser melhor!
E tem também o eco-chato, vegetariano e engajado nas questões ambientais que vai com você pra churrascaria só pra falar suas teorias e sobre a alimentação natural, tem o intelectual, aquele que caga conteúdo o tempo todo, tem o de esquerda, aquele que é contra a tudo que é veículo de massa, tem o chato-mãe, aquele que espera você se dar mal em alguma coisa só pra dizer: - Eu sabia que isso não ia dar certo, tem o chato pilha, aquele que fica te enfiando caraminholas na cabeça, ou seja tem chato de todo jeito. É ruim de viver sem cruzar com algum pelo caminho. Chato é praga!
Definitivamente os chatos são uns insensíveis que põem o dedo na ferida da gente. Não repeitam nada, o nosso trabalho, as nossas fraquezas, os nossos desejos, enfim. “Não há perdão para o chato”, como já dizia o cazuza.

De volta ao Blog! com “Meu HUMOR em Estado de Sítio”

Novembro 27th, 2008

MEU HUMOR EM ESTADO DE SÍTIO

De Patrícia Mellodi

Eu estou em crise. Desde que comecei esse negócio de escrever humor eu estou completamente maluca. Não estou mais segurando a onda, talvez procure até ajuda profissional. É muita pressão e vem de todos os lados. Ou resolvo esses dilemas ou paro com essa palhaçada.
Tudo começou quando meu marido me disse o seguinte: - “Meu amor eu entendo essa sua necessidade de escrever, mas eu te peço que não faça piadas com o nosso casamento, com a minha potência sexual, nem fique xingando, falando sacanagem pois é muito constrangedor pra um homem e por favor não fale mal da minha mãe, que ela já é uma senhora de idade e não vai entender isso.”
Tudo bem eu aceitei, afinal tem muita coisa pra gente rir nesse mundo, eu poderia abrir mão de sacanear o casamento e a sogra. Mas a coisa não parou por aí. Minha filha do primeiro casamento que é adolescente me pediu pra não fazer piada de ex-marido, nem com assunto de pensão alimentícia que isso não tinha graça nenhuma e eu ia pagar o maior mico. Mais uma vez eu compreendi e acatei, afinal as conveniências familiares existem, o que é uma pena, pois minha história de vida é uma piada e tanto.
Fui tomar um chopinho com minha melhor amiga e ela me alertou: “-Amiga, não sacaneia as mulheres, senão elas vão te odiar. Piada machista, de gordinha e de loura é a coisa mais sem graça que existe! “
Meus assuntos começaram a se restringir, mas a minha vontade de escrever era tão grande que poderia perfeitamente cercear a criatividade e evitar certos assuntos. Então publiquei minha primeira crônica sobre bêbados.
Nunca imaginei que iria enfrentar tantos problemas. Alguns falavam que o alcoolismo era uma doença que eu deveria respeitar, os amigos pinguços vestiram a carapuça e perguntaram como eu tinha certeza que eles estavam realmente bêbados e ainda teve gente que teve a coragem de me sugerir que eu me referisse aos bêbados como “sujeito aparentemente alterado” pra evitar dores de cabeça. Tenha santa paciência! Eles bebem e eu é que tenho ressaca! Vida de escritor de humor é muito difícil!
Eu me irritei, mas ponderei e resolvi voltar a escrever. A Crônica é um estilo muito pessoal, é uma forma literária do cotidiano, quase sempre está relacionado com a vida do próprio autor, então resolvi fazer um conto, me distanciar um pouco da minha expressão humorística e evitar confusões. Fiz um conto sobre a maravilhosa cozinha da Nega Zefa que foi publicado num jornal popular. Quase apanhei! Até minha empregada se rebelou: - Nega não! Mulher afro-descendente! Preta tem que ser pobre, cozinheira, Né? Não podia nunca ser escritora!
Tive que procurar um advogado, afinal precisava esclarecer certas dúvidas pra escrever e até pra me defender se fosse preciso. Ele me disse o seguinte:”- Cara escritora, Eu lhe aconselho a não mexer com afro descendentes, homossexuais, cidadãos verticalmente prejudicados vulgarmente conhecidos como Anão, pois tudo o que disser pode ser mal compreendido e sugerir preconceito. Seria de bom tom evitar também falar dos portugueses, dos argentinos, dos americanos pois nos tempos de globalização pode parecer xenofobia da sua parte. Cuidado principalmente com as celebridades, elas fazem de tudo pra aparecer, mas não gostam de piadas e adoram uma causa de danos morais. Mais uma coisa, não use títulos vulgares, use as expressões corretas”. E me deu uma lista de significados correspondentes.
Meu Deus onde eu fui me meter! Eu nunca fui preconceituosa, muito menos desrespeitosa, mas um famoso, um padre, um pretinho, um gago, um corno, um gaúcho, um viadinho na piada sempre deu certo! Eu vou ter que inventar um novo humor, dar adeus aos velhos paradigmas do riso?!
Fui me confessar com um padre conhecido, afinal sempre bate uma culpa. Fazer piada com a cara dos outros não é bonito! Ele me ouviu, me aconselhou a rezar umas quatrocentas ave-marias e me pediu pelo amor de Deus pra não mexer com a Igreja Católica.
Até o padre! É muita pressão. Deus me livre de Fazer piada com igreja, com religião, eu tenho medo demais dessas coisas. Vou guardar a piada da Sarah e do Jacó a sete chaves!
Essa confusão toda comigo chegou até em Brasília. Ontem a tarde tocou meu telefone celular era um político do PT meu amigo dos tempos da faculdade me dando seu apoio, mas com a condição de que o nome dele e dos seus colegas de partido fossem poupados nas minhas aventuras humorísticas.
Ok, eu já entendi, o meu humor está em estado de sítio! Quem ta mandando agora é o politicamente correto!
Eu sou forte, vou superar essa crise, pretendo não desistir de escrever, me adaptar a essas regras todas, pois certamente não quero ofender ninguém, mas se o papagaio se manifestar, puta que pariu! Essa eu não vou agüentar… Desisto!

Na lente difusa da verdade

Outubro 17th, 2007

Conto de Patricia Mellodi

Naquele dia as coisas se revelaram diante do espelho para Josué e Valter. Eles tinham 57 anos, eram gêmeos idênticos e desde criança mantiveram o mesmo jeito de cabelo, as mesmas roupas e gostos. Mas a vida se encarregou de dar a eles caminhos diferentes.
Josué chegou mais cedo do trabalho naquele dia, largou o sapato na sala e foi direto para o banho. A água quente escorria pelo seu corpo como uma massagem relaxante, uma recompensa pelo dia de trabalho. Em seguida pegou no seu armário a roupa mais confortável que tinha e começou a se vestir. Por um instante se olhou no espelho de uma forma diferente do normal e percebeu que os anos estavam passando e que ele já não era mais o mesmo. Vasculhou seu corpo com olhos de mulher, e pensou: Essa barriga foram muitos chopes com meus amigos, dias felizes, divertidos e eu me orgulho dela. Minha barba está cada vez mais branca, mas acho que ela me cai muito bem, me dá um ar de homem maduro, charmoso. Meu pau, Ah meu Pau, velho companheiro, quase nunca me deixou na mão… Sou um homem feliz!
Vestido no seu pijama predileto, calçado nos seus chinelos, pegou um whisky se esparramou no sofá esperando sua esposa chegar do trabalho.
Valter chegou mais cedo do trabalho naquele dia, tirou os sapatos e os trouxe até o quarto e foi direto para o banho. A água quente escorria pelo seu corpo, mas sua cabeça estava fervilhando de pensamentos que talvez um banho de água fria lhe caísse melhor. Em seguida pegou no seu armário uma roupa qualquer e começou a se vestir. Por um instante se olhou, coisa que nunca faz e se deu conta das transformações que o tempo lhe fizera. – Meu Deus como pude deixar minha barriga ficar essa indecência? Minha barba está muito branca! Estou parecendo uns 20 anos mais velho. Meu pau sumiu! Quem é esse homem?
Mal vestido, com os botões trocados, descalço, pegou a única cerveja da geladeira como se fosse à última, sentou no sofá rezando pra sua esposa demorar um pouco mais na rua.
Naquele mesmo fatídico dia Josué havia sido promovido com um belo aumento de salário, com direito a uma sala e até a uma secretária gostosa. Valter fora despedido do seu emprego de anos no banco e recebeu a fatura do cartão de crédito da sua esposa.

SOU BAIXINHA E DAÍ?

Outubro 17th, 2007

De Patricia Mellodi

Desde pequenininha, digo pequenininha na idade, ouço coisas a respeito da minha estatura. De apelidos fofos e carinhosos como chaveirinho, fofolete, buiscuit, tampinha a apelidos horríveis que até hoje martelam meu juízo como Pintora de rodapé, surfista de aquário, tamborete de forró, anã de jardim, cotoco, meio metro. Um trauma irreparável, que análise nenhuma resolve, pois sempre alguém toca na velha ferida e volto a ser uma criança sendo sacaneada pelos colegas do primário.
Lógico que como qualquer baixinho fui logo tratando de arranjar frases feitas pra defender minha forma física. ““Nos pequenos frascos é que encontramos os melhores perfumes”, “ Tamanho não é documento”, “ O importante é o conteúdo!”
Mas a vingança vinha a cavalo, (ou melhor, de pônei) alguém sempre no meio de uma discussão comigo mandava a seguinte frase: “-O que vem de baixo não me atinge”! E isso me atingia em cheio.
Eu nunca reparei que era pequena, as pessoas é que insistiam e insistem até hoje em mim lembrar: - Vem cá baixinha!, - A vista aí de baixo é boa? – Vá procurar alguém do seu tamanho! -Se fosse maiorzinha seria perfeita!
Minha mãe também baixinha enumerava as vantagens de ser uma mulher pequena tentando me ajudar a não sofrer por isso: – Filha, as mulheres pequenas não ficam velhas tão cedo! Quanto menos material, menos perecível! Eu por exemplo tenho 40, mas me dão 33! Mas pra mim aquilo não convencia naquele instante pois eu tinha 14 e só me davam 9, era um saco!
Fui crescendo e enumerando as belas, talentosas e famosas mulheres com baixa estatura: Carmem Miranda, Elis regina ,Bibi Ferreira, Madona, Sandy, Cora Coralina, Zezé Macedo…Opa essa não conta, era feia pra caramba! E muitas outras, sem contar com os homens.
Adulta descobri que na cama a única coisa que sobra é perna, o resto encaixa direitinho, muitos homens graças ao bom Deus se amarram numa miniatura, voltou à moda da Plataforma, o mega hair tá em alta, as pessoas me dão sempre menos idade que realmente tenho e de tão pequenina nunca passo desapercebida.
Mas, se chamar de baixinha eu fico puta. Sou Baixinha e daí?
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A MARCHA DOS PINGUÇOS

Outubro 17th, 2007

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TEXTO DA BETE BISCATE

Essa história de que os opostos se atraem é a maior conversa fiada. Na verdade a gente gosta mesmo é dos parecidos. Amigos são como um espelho a nos refletir somente com cabelos e corpos diferentes. Meus amigos são definitivamente iguais a mim. Pessoas devassas, levianas, safadinhas, boêmias e na pressão.
Saímos juntos por aí enchendo a cara em qualquer Botequim Informal, qualquer Espelunca, fazemos absurdos e só no dia seguinte nos damos conta, não por conta própria, mas porque algum dos amigos que esteve mais ou menos sóbrio nos conta como uma prazerosa tortura, todas as “pérolas” que fizemos. – Lembra aquele segredo sobre suas hemorróidas que você contou pra mim? Todos ouviram, você estava gritando! – Você ontem estava tão animado dançando! E aquela abaixadinha com o dedo no umbigo! Rrrrrridíiiculo! –Você ligou pro seu ex umas 50 vezes seguidas! Ele deve está puto! –Gente, sempre que você bebe, você dá em cima dos garçons, dos porteiros e dos guardadores de carro! Vai gostar de plebeu assim lá na caixa prego! – A Betinha está super magoada com você! Por que você foi falar todas aquelas verdades pra ela ontem? -A bebida está fazendo você perder o senso estético! Você lembra que você agarrou a mocreia da sua ex-cunhada? -Ontem o Gilson pediu a namorada em casamento! Só bêbado mesmo! Ele só vai casar no dia de são nunca! E por aí vai. Tem sempre um filho da puta que bebe menos e resolve te contar com detalhes tudo o que aconteceu justo no dia internacional da ressaca e às vezes por dias seguidos caso a história seja daquelas que renda boas risadas. Mas como a gente só anda com os parecidos, sempre tem o troco, é só aguardar. E mesmo quando entra um diferente no grupo eu aviso logo: - Passarinho que anda com morcego dorme de cabeça pra baixo! Mais dia ou menos dia foxê pode valar coisas dexe xeito.
Dependendo do nível alcoólico, o povo se revela! É bissexual, é mito maníaco, é cleptomaníaco, é traíra, é corno apaixonado, é interesseiro, ciumento, pedófilo, rico, gente fina, enfim tem de tudo. A bebida alcoólica é o liquido da verdade. Eu endosso a máxima que diz: ”Não confio em quem não bebe!”.
Só peço aos amigos que não me deixem cair, me machucar, pois ressaca com hematoma dói muito e principalmente não me deixe fazer uma besteira que não possa encarar na manhã seguinte. Por exemplo: acordar com um estranho num quarto desconhecido!
Isso pode me fazer surtar de vez!
Falando sério, beber sucos seria muito melhor pra saúde, mas a marcha continua companheiros e pinguço que é pinguço não nega a raça.

Ps. que fique claro que Patricia Mellodi não faz apologia ao alcool,
mas como uma boa gozadora, perde o AA mas não perde a piada! RS!

Padecendo no Paraíso

Outubro 14th, 2007

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Estou com a barriga quase explodindo. Eu não comi muito não, mas me comeram! Éh! A primeira coisa que pensei quando minha barriga começou a crescer é que todo mundo sabia o que eu tinha feito. É muito inconveniente sua vida privada se tornar pública. A gravidez é assim, todos ficam sabendo que te comeram e ainda gozaram dentro.
Você enjoa uns três meses que mais parecem três anos. E tudo aquilo que você enjoou nesse período fica enjoado para o resto da vida. Eu pelo menos sou assim. Não suporto sabonete de glicerina, desodorante masculino, óleo de amêndoa, cheiro de fritura e outras coisas que me dão enjôo só de pensar. Mas aos poucos a doçura vai tomando conta do seu ser e você começa a sonhar com a chegada do bebê.
Mas tem uma coisa, sobre os terrores maternos durante a gravidez ninguém fala! Todo mundo adoça tudo, como se tudo fosse feito de flores. Eu por exemplo fiquei nos primeiros meses com pânico de ter um bebê com má formação fetal, depois com as síndromes mais raras, depois com nanismo e por último fiquei com medo de lábio leporino. Mas agora nesse minuto superei esses medos e passei a me preocupar com problemas de aprendizado, stress infantil, cegueira, surdez, distúbios no comportamento, hiperatividade, transtorno bipolar e outras coisas que só se descobri ao nascer ou até mesmo mais tarde ainda. Tudo bem sou mãe pra enfrentar qualquer parada, mas a neurose da gestação é dose!
Tudo o que me ensinaram sobre a gravidez é lindo, mas esses valores e mitos estão caindo. Outro dia eu andava plácida e linda com meu barrigão pela rua e num cruzamento um gentil rapaz parou sua combi e gritou:- Passa Barriga! Eh! Quanta delicadeza! São outros tempos!
Sexo é um tabu nessa fase. Você está toda inchada, torta e empenada, mas não pode se entregar ao desuso tem que praticar, massagear o períneo, satisfazer o marido. Eu acho a gravidez sublime, linda, agora não me vem dizer que é sexy que eu não acredito! Comer grávida só mesmo para o pai, por que é o jeito, os tarados com problemas com a mãe ou para os jovens viciados em comer kinder ovo. Não entendeu? Aquele chocolate que vem com o brinquedinho dentro? Lembrou?
Primeira dica: Esqueça o Kama Sutra. As posições possíveis se resumirão a duas ou três no máximo! Suas “partes” crescem em média uns três centimentros, mas você não enxerga, a barriga não deixa. Você jura que tudo está como antes, mas de perereca a bichinha se transformou num sapo boi! Comprei até um espelho de tirar sombrancelhas para acompanhar esse crescimento fenomenal de perto.
Você fica carente, chorona, gasta todo dinheiro que tem e que não tem e espera. Todos te desejam uma boa hora. Normal ou cesariana? As opiniões se dividem e fica a dúvida: Prefere ficar toda cortada por um mês se arrastando pela casa com direito a uma cicatriz que às vezes cria quelóide ou ter sua preciosa esfolozada com direito a um pequeno talho na lateral pra preservar sua integridade justa? Essa é uma dúvida cruel! E chamam isso de boa hora!
Um velha tia minha filósofa falou pra mim o seguinte sobre o parto normal:- Minha filha pense em cagar um tijolo! - Quando o priquito imendar com o cú o menino nasceu! Ela é de uma delicadeza! Mas com sotaque nordestino essa máxima soa poesia!
Tudo bem vamos pensar no lindo bebê que virá depois de toda essa justificável tortura. Será um belezura de criança e a ocitocina lançada no corpo faz toda mãe esquecer as dores e só ter olhos e sentidos pro bebê. Ele vai te sugar e murchar os mamilos com todo amor, te roubar o sono, a privacidade com seu marido, mas ele é seu filho, você vai amá-lo profundamente e será recompensada com sorriso e uma palavrinha mágica:
- Mamãe!

Quem é vivo sempre aparece!

Agosto 21st, 2007

O telefone celular toca e na bina o número parece familiar.
- Alô?
- De quem é esse telefone? Eu recebi um torpedo. Esse telefone é da Luisa Marques?
- É sim. É você Ana Amélia? Eu estou reconhecendo sua voz! Fui eu quem mandou o torpedo convidando pro lançamento do meu livro.
- Olha, eu estou te ligando pra pedir que você não mande mais torpedo pra mim. Eu não vejo o celular, não sei mexer direito nessa joça. Por que você parou de me mandar e-mail?
Um certo silêncio do outro lado do telefone, afinal aquele tom não estava tão amigável
-Seus e-mails estão voltando.
- Eu mudei de e-mail, anota aí. anamelia@hotmail.com
- Você está bem Ana Amélia? Faz tanto tempo que não nos falamos!
- Ah, minha filha nem te conto, eu não ando bem não! Minha síndrome do pânico voltou. Eu acabei de chegar do ginecologista e ele me deu a maior esculhambação. Há três anos eu não ia por lá. Eu fiquei muito arrasada com a menopausa, é muita perda pra uma mulher. O médico me disse que se o problema era todo esse que eu ia sangrar loucamente a partir de agora. Perguntou como andava minha vida sexual e eu disse a ele: “ - Que vida, eu não sei mais nada disso! Esqueci o que é sexo!” O Dr. Leal é ótimo!
-Ah,meu Deus…
- O Zé Celso meu marido se aposentou. Ele comandava 450 homens na empresa e agora resolveu colocar toda essa energia em cima de mim. Você acredita que ele controla até as latas de óleo que tem na despensa? Outro dia ele veio me perguntar se eu sabia que só tinham três latas de azeite de oliva! Eu sempre cuidei da casa enquanto ele viajava, mas agora ele não tem o que fazer e está me enlouquecendo.
- Ah! meu Deus!
-Minha filha a Larissa, essa não quer nada com a vida! Não se formou, não fez porra nenhuma. Ela foi comigo no ginecologista e eu falei pra ela: “- Minha filha, você tem que pensar no seu futuro, sua mãe não anda bem, ela precisa de sossego mental!” O Carlinhos está com 25 anos. Ele calça 47, você acredita? Está um homão. Mas arranjou uma louca como namorada e nunca volta pra dormir em casa. Lembra da Maria Morgana, minha irmã mais nova ?
- Sim, lem…
- Escreve pra ela ela vai adorar. Anota o email aí, é mariamorgana@yahoo.com. Menina, ela casou com um suíço quer ir embora do país, a mamãe está arrasada pois o papai morreu não faz nem um ano…
(foi interrompida)
- Ana Amélia, Ana amélia tá me ouvindo?
- Tô.
- Eu to entrando aqui pra fazer um exame, eu te ligo assim que eu puder pra gente conversar, tá?
- Tudo bem, eu espero. Um beijo.
- Outro.
Luisa desligou e pensou alto:
- Meu Deus, pra quê que eu mandei aquele torpedo?

Personal Marido

Julho 10th, 2007

Mulher moderna anuncia em jornal:

Procura-se marido que tenha conhecimento nas áreas de eletrônica, hidraulica, elétrica e marcenaria.
É fundamental que entenda de computadores, redes, sofwares e afins. Não é necessário que tenha dinheiro, que seja letrado, que tenha viajado, basta que tenha disposição. Precisa ter carteira de motorista e traquejo com empregadas domésticas.
Será exigido sexo na frequencia de no mínimo três vezes por semana e algumas horas extras em dias folgas. Que tenha boa saúde, seja cheiroso,charmoso e saiba elogiar.
Homens competitivos, intelectuais e com pretenções artísticas, serão avaliados com máximo rigor nos itens acima citados.
Oferecemos casa, comida, roupa lavada e sexo de nivel superior.
Envie seu currículo para a caixa postal 69696969 Pelotas- Brasil

AMIGOS DO BLOG!

Junho 12th, 2007

ESTOU ENTRANDO PARA UM GRUPO DE ESTUDO COM ESCRITORES JÁ EXPERIENTES E MINHA PRIMEIRA TAREFA FOI LEVAR UM CONTO PRA ANALISE DO GRUPO.
RESOLVI POSTAR HOJE AO INVÉS DE CRÔNICA, OU DEPOIMENTO, UM CONTO.
QUASE NUNCA ESCREVO FICÇÃO, MAS QUERO IR ALÉM DOS MEUS LIMITES NA ESCRITA.
VOCÊS SÃO MINHAS ADORÁVEIS COBAIAS.

MUITO OBRIGADA
P. Mellodi

A CIGARRA E A FORMIGA!

Junho 12th, 2007

conto de Patricia Mellodi

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Dos sonhos que Ana conservara dos tempos de criança, um era especial e secreto. Um sonho recorrente abafado por força maior.
Nunca quis casar, mas casou, nunca quis ter filhos, mas teve três, nunca gostou de cozinhar, mas se tornou especialista em culinária mineira, tinhas dons artísticos, mas se tornou uma secretária executiva numa grande multinacional. Apesar de ser apaixonada por francês, aprendeu inglês por ser mais útil. Seu livro predileto na juventude era Dom Quixote, mas no dia a dia não lhe sobrava muito tempo pra leitura, sua vida era uma vida prática e urgente. Quando possível no metrô a caminho do trabalho ela se divertia com livros de auto-ajuda. Mas isso não era infelicidade e sim uma adaptação à realidade, uma inteligência necessária. Ela era invejada por suas amigas, tinha um marido bem sucedido, filhos, trabalho e uma beleza sensual que insistia em lhe pertencer mesmo com os anos. Mas na verdade ela era mesmo uma especialista em se auto-contrariar e ser feliz.
Sempre se aprimorava em seminários, workshops, afinal no seu escritório a competição andava bem acirrada, uns querendo engolir os outros e ela não poderia se dar ao luxo de ser passada pra trás. Ana dava muito valor ao seu trabalho e tinha medo, pois sabia o significado do desemprego.
Não se podia dizer que Ana era uma mulher retrógrada, pois ela era uma legítima mulher do século XXI. Tinha amigos, independência financeiramente, família, amor e sua vida cotidiana estava muito além de receitas de bolo. Ela era uma mulher de verdade.
Já no seu íntimo as coisas tinham vida própria, fugiam do seu bom censo. Se a deixassem realmente sozinha por dois minutinhos, lhes vinham desejos e pensamentos “absurdos”! Era o real e o ideal se confrontando, dando a certeza das duas faces do humano, a aparência e a sombra. Bastavam dois minutinhos somente e vinham lembranças de seu antigo namorado e de suas noites intermináveis de sexo e romance, lembrava de como planejava conhecer o mundo, de como seria bom uma flexibilidade maior nos seus horários, de como era sexy e desejada por todos noutros tempos, mas principalmente sonhava, sonhava o seu velho predileto sonho, ser ela mesma. Mas nunca lhe sobrava mais que dois minutinhos pra devanear, pois era logo interrompida por seu patrão ao telefone, seu marido, ou seus filhos, sempre lhe solicitando alguma coisa. Nunca, nem ela mesmo entendia sua natureza selvagem tão submissa, obediente às regras da vida. Mas se aceitava, pois apesar disso a impedir de mudar as coisas ao seu redor, isso mantinha tudo no seu devido lugar e lhe realizava o desejo primitivo de ser comandada por energias masculinas.
Sonhava muito com a verdadeira Ana! Pra falar a verdade às vezes se perguntava: “-Quem é mesmo a verdadeira pessoa que eu sou”?-Será que estou me dissolvendo nas escolhas “convenientes” que fiz? -Será que ainda existo nos escombros dessa figura em que eu me tornei? -Ou será que sou isso mesmo e que me fantasio de outra pra parecer menos insossa?
Ela Fazia tudo como mandava o figurino. Prestimosa secretária, esposa amante, fiel e amiga, mãe daquele tipo maezona, quase perfeita.
Desde criança Ana ouvia uma máxima de uma tia avó louca da família: - Minha filha a vida é assim, você larga um homem que é doido, pra um que come merda! E essas palavras martelavam no seu juízo e faziam de Ana uma mulher conformada em transformar sua paixão foguenta em amor terno e isso se reverberava também em outros âmbitos de sua vida.
Antonio não era um marido ruim, longe disso. Era gentil, charmoso e bem sucedido, mas no amor marital ele era do tipo preguiçoso. Só uma amante fora do casamento o animaria. Inconfessavelmente Ana desejou ser traída várias vezes. Talvez isso devolvesse calor àquela relação e desse motivos reais pra ela sair ou ficar ali pro resto da vida. Foi-se o tempo da bonança erótica, pensava! Agora a libido jaz no sofá da sala vendo novela! Mas Ana dava muito valor ao seu casamento e tinha medo, pois sabia o significado da solteirice.
Filhos, filhos! Desejava matriculá-los no colégio interno! Tão bonitinhos quando pequenos, mas viraram adolescentes cheios de opiniões! Mas eles também eram adoráveis e de fato eram o motivo maior de continuar firme no propósito de mulher perfeita. Ana dava muito valor a sua família e tinha medo, pois sabia o significado da solidão.
- Ana, acorda! Ana, Ana! Você está atrasada Meu amor!
- Hum, que horas são?
– São seis da Tarde! Você ainda tem uma entrevista antes do espetáculo. Não é bom a aparecer com essa carinha amassada!
– É que eu tive uma insônia louca depois de todos aqueles vinhos e daquele papo cabeça sobre Zaratustra e só conseguir pregar o olho às dez da manhã! Nossa Roberta, eu tive um sonho que nem te conto! Até agora estou confusa. Vem cá, me dá um beijo!
– Pára Ana, você vai se atrasar!
-Então eu vou dormir mais cinco minutinhos!
–Ana, você deveria dar mais valor ao seu trabalho! Você ainda não se deu conta do significado dessa temporada na Europa! Não confie tanto na sorte! Você parece que não tem medo de nada!
- Está bom, ta bom, eu vou levantar. Você sabe que eu obedeço você! Mas promete que nunca vai me trair nem em pensamento Mon Amour?
- Eu hein! Você está estranha!