PERAÍ, CALMA!

Março 3rd, 2010

De Patricia Mellodi

Ouvi dizer que o terremoto que atingiu o Chile, encurtou os dias na terra, o que me deixou mais receosa. Se a vida já anda na velocidade da luz, imagine com os dias realmente mais curtos!

E aí, já fez? E ai, qual a novidade? Como é, não vai fazer um livro, um novo CD, não vai mudar, não vai ter mais filhos, não vai fazer uma nova música, um novo show?

Essas perguntas surgem todas de uma vez, num mínimo espaço de tempo. Eu não consigo dar duas cafungadas no ar, e lá vem outra. Pessoas ansiosas e agoniadas por notícias, por acontecimentos. Preciso realizar a cada esquina uma obra, uma viagem, uma festa, alguma coisa que satisfaça não a mim, mas a essa enlouquecida prestação de contas.

Como você está parada! Olha que o mundo vai te atropelar! Estão passando na sua frente! Sabe quantas cantoras já surgiram este ano? Fulaninha foi capa de três revistas esse mês, viajou pra Suíça, fez duzentas e cinqüenta apresentações, está gravando um filme, abriu uma franquia no Leblon e no final do ano vai pra Hollywood ! E você, o que fez?

Baixo a cabeça e respondo baixinho, quase que humilhada diante de tanta atitude: - Estou planejando um novo trabalho.

Desde criança ouço de uma tia: - “Ninguém serve a dois senhores.” E tomei como máxima pra minha vida essa parábola. Não me adapto a essa loucura de mil coisas ao mesmo tempo.

Quando vou a uma peça boa, fico dias vivendo àquelas palavras, quando leio um livro genial, fico preenchida por algum tempo, quando mergulho num projeto, preciso ir até o fim, me concentro nele. E embora outras coisas tentem me tirar a atenção, lembro da máxima da minha vida e volto ao que estava fazendo. Não estou falando de coisas mecânicas, ações cotidianas, o bater ponto do dia a dia, essas eu faço milhares ao mesmo tempo, falo de projetos especiais que nos diferenciam.

Tenho me lançado por outras atividades artísticas, como escrever por exemplo. Mas parece que quando me expandi nas palavras, sequei nas melodias. O deus da música se ofendeu quando percebeu minha dedicação às letras. Foi e é doloroso pra mim, mas é a minha realidade. Sou uma “mulher de fases”. Uma de cada vez.

Quando estou gestando meus “filhos” é hora de ficar quieta, alimentando essa cria pra que nasça forte, robusta, com conteúdo. Não posso correr o risco de parir de sete meses, de ter um projeto que necessite de encubadeira, que talvez não sobreviva. E isso vale pra meus sentimentos também. Se estou triste, fico triste, se estou alegre, fico alegre e se amo, fico amando algum tempo, totalmente dedicada.

Os grandes artistas, os grandes projetos pra mim, é claro, são feitos de dedicação, de profundidade e não de urgência, de confusão e falta de tempo. Precisam de ócio, de falta do que fazer, de silêncio.

E é nesses artistas e realizações que me inspiro, que me agarro pra justificar o meu modo de viver e de fazer as coisas. Talvez seja uma grande desculpa minha pra não me sentir mal diante das pessoas múltiplas e urgentes, talvez seja um paliativo pra minha inveja, um modo que achei de sobreviver.

Talvez tivesse ido mais longe, tivesse ganhado mais dinheiro, fosse mais famosa, mas escolhi, ou melhor, me escolheram pra viver profundamente, pausadamente e com uma coisa de cada vez. Tenho a sina de reprovar na escola da vida quando passo por cima da matéria. Sou obrigada a viver tudo de novo até realmente incorporar o assunto. Já aprendi que fugir dos meus entreveros vai me fazer perder mais tempo.

E diante da pergunta: - E aí? Eu respondo: - Peraí, calma!

SIMPLESMENTE, EU

Fevereiro 25th, 2010

Patricia Mellodi

Nesses tempos de superficialidade fica meio demodè tocar em assuntos profundos, questões subjetivas, enfim. Ser antenado é discutir coisas como a BBB que foi pro paredão, a internacional milionária devassa no sambódromo, a gravidez da madrinha de bateria, e por aí vai. Tanto vai, que já foi!

No meio dessa urgência efêmera e vazia, eu. Tenho levado a vida na marola, na base do “deixa a vida me levar”, preferindo uma boa mesa de bar com rodada de piadas, a um papo “cabeça”! Afinal, os tempos estão difíceis, pra que ficar sendo chato? O lema é ser feliz.

Mas pra falar a verdade, correndo o risco de parecer uma filosofazinha de botequim, cá com os meus botões, penso muito, tenho muita fome de resposta. Quando me dou por satisfeita em alguma questão, logo vem outra pra me assombrar. E o pior, tenho andado carente de algo que legitime os meus sentimentos, que me ampare por dentro. Ando meio adolescente, embora seja adulta e permaneça firme, linda e loura nos meus propósitos.

Lí no jornal que a atriz Beth Goulart estava em cartaz com o monólogo Simplesmente eu, Clarice Lispector. E foi mais forte o impulso de partir pra lá. Algumas frases da Clarice eu conhecia. Confesso, nunca havia lido nenhum livro. E dela, a coisa mais próxima era a imagem elegante e misteriosa que pairava na minha cabeça. Eu fui buscar, mas não sabia o quê.

Logo nos primeiros momentos foi impossível conter a lágrima que teimava em escorrer meu rimel. Frases que me iam remexendo por dentro: “- Já que sou, o jeito é ser.” Fui me acalmando e me sentindo Pretensiosamente parecida com aquela mulher.

A atriz num estado de transe, parecia incorporada. Impecável, gestos precisos, um corpo a dançar e a dar vida àquela escritora, com um carisma implacável. Ali, na minha frente, a diferença clara entre alquimia e mágica. E veio a certeza de que o que me emociona mesmo é um talento, infinitamente mais que um show de tecnologia.

Eu, Patricia, sempre quis mudar meu modo ser, pra agradar, e hoje sinto necessidade de mudar por que não há mais tempo pra errar, ele anda passando muito depressa. E ouvi como se tomasse um soco: “- Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro. “

Era uma atrás da outra. “- E se me achar esquisita, respeite também. até eu fui obrigada a me respeitar.”

Questiono muito a minha forma de escrever, de compor, a minha mania de falar das minhas experiências pessoais, e sofro duras críticas por isso, mas a Clarice naquela noite me disse: “Uns cosem pra fora, eu coso pra dentro.”

Bebendo cada gota daquelas palavras, já olhando a hora no relógio com medo do espetáculo acabar: “- O que me atormenta é que tudo é por enquanto, nada é sempre”.

E fui vivendo cada minuto achando que um anjo tinha me levado àquele teatro. Parecia que pra cada ponto da minha vida, ela tinha escrito uma resposta: “- Divertir os outros, é um dos modos mais emocionantes de existir.”

Fui sentindo amor pelas palavras, por aquela atriz, aquela escritora, pela vida: “- Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.

Absorta e alimentada, já nem me perguntava mais, onde minha estrada vai dar: “-Vocação é diferente de talento. Pode-se ter vocação e não ter talento, isto é, pode-se ser chamado e não saber como ir.”

E saí de lá com tantas respostas, perguntas, vontade de viver e de voltar pra assistir mais uma vez ao espetáculo, só pra ouvir de novo: “a única verdade é que vivo. Sinceramente, eu vivo. Quem sou? Bem, isso já é demais….”

Cambaleante no íntimo, fui ao banheiro me recompor. Me olhei no espelho e gostei do que vi. “-Uma vaidade? Que me achem bonita!”

Foi uma noite muito intensa, sem risos escancarados, sem amenidades, mas foi pra sempre.

Clarice, descobri-la agora foi um presente do tempo.

Uma lição de férias

Fevereiro 5th, 2010

De Patricia Mellodi

A véspera da viagem de férias em família foi aperreada. Eu estava muito cansada, digo esvaziada mesmo, necessitada de uma injeção de ânimo, de fôlego. Uma trégua.

Cinco malas por fazer, uma verdadeira farmácia pra organizar, casa pra fiscalizar, e zilhões de pormenores, como pagamentos, matriculas de escola, passagens, documentos em mãos, cartões do plano de saúde e etc. Sem contar com aquela angústia: Será que esqueci alguma coisa? E com o medo que infelizmente tenho tido, o de andar de avião. E com a família inteira viajando junto, confesso, a coisa piora e muito. Afinal, ir pro Piauí é uma viagem internacional. O dia inteiro de aeroporto, duas decolagens e duas aterisagens até chegar lá. Se eu fosse Torquato Neto diria poeticamente: “… aqui é o fim do mundo, aqui é o fim do mundo ou lá?”

Tudo ficava mais distante, porque além dos vôos ainda teríamos um trecho de carro. Não íamos pra Teresina e sim pra Barra Grande, a ponta da praia que faz fronteira do Piauí com o Ceará, o último dos paraísos em matéria de litoral do país. Digo isso, porque Barra Grande é pequenina, linda, com reservas ecológicas, onde não toca música baiana (sem preconceito, só conceito), não tem carros com som ligado na praia, nem bugres na areia, e pra falar a verdade pouca gente. Além dos nativos pescadores, alguns turistas europeus e brasileiros, na sua maioria nordestinos, em busca de paz e kite surfing. Os bons ventos sopram por lá. Pra quem procura zoeira e ferveção, lá não é o lugar. Eu falei paraíso.

O voo foi relativamente tranquilo, com direito a uma bela sacolejada do Rio pra Brasília. Mas vamos lá, tudo certo, nada traumático. Crianças pequenas em voo é um verdadeiro inferno, mas minha filha até que se comportou bem Eu, a mãe prevenida e louca, levei um super kit de sobrevivência com crianças no ar. Papeis, livros, figurinhas, bonecas, canetinhas, doces, lanches variados, que poderiam me render um estresse na hora do check in. Já tinha ensaiado o texto, caso desse problema de peso ou volume na bagagem de mão: “- Você pode até me despachar minha filha, mas essa bolsa vai dentro do avião!” Isso se eu não falasse dando uma porrada no guichê. No estresse que eu andava! Mas Deus sabe o que faz, deu tudo certo. Fiquei curiosa e assustada: Só tem mocinhas trabalhando agora nessas companhias. Se o avião tiver algum problema elas serão as primeiras a surtarem. Naquele momento pensei: Avião é que nem sexo, tem que ter horas de prática. Pra mim mulher e aeromoça só começa a ser levada em consideração depois dos 30 e tantos. Bom, neurose a parte, têm suas exceções.

Chegamos quase meia noite, alugamos nosso carro, e fomos pro hotel. Pela manhã, cedo, fomos para o litoral. E parando pra comer no caminho, levamos mais de cinco horas pra chegar ao destino. 345km. As lições começaram a me tomar de assalto: Paraíso não pode ser perto. Tem que haver algum esforço pra chegar lá. Se for muito perto, estará lotado e barulhento e não será paraíso. Não sou mais uma menina! Se fosse, aquele silêncio seria a morte. Dura e certeira conclusão.

Acostumada com ar condicionado nos restaurantes, livre das moscas no Rio de Janeiro, a estrada começou a me confrontar com a realidade da viagem, mas abrandada pelo estômago, claro: Que churrasco de carneiro! Dentro do carro o clima era ameno e o som era brega. Eu não posso negar que esse tipo de música me emociona. A memória das rádios piauienses é fantástica: Biafra, Ritchie, Fábio Júnior cantando Pai, Kátia, Diana, Marcelo, cantores assíduos do programa do Chacrinha. Eles soavam no carro acompanhados da minha voz e da voz da Marina, minha personal baby, que também cresceu no Piauí. Xii, esqueci! Também tocou muito o Raimundo Soldado, artista local de grande sucesso, que embalou minha infância, e os bailes pela cidade, tocou até Messias de Holanda, grande forrozeiro alagoano: “Eu quero me trepar num pé de coco!” Mais uma lição: Eu sou brega e saudosista. Essa conclusão com certeza afetará meus próximos trabalhos.

No caminho passamos por Campo Maior, cidade Natal da Marina. Vimos uma árvore de Natal plantada no meio do açude, principal ponto turístico da cidade Era uma espécie de bonsai da Arvore da Lagoa do Rio de Janeiro. Ela se emocionou, disse que ela era linda e elogiou a ação da prefeitura em tentar decorar a cidade para as festas de fim de ano. Outra lição: Pouco pode ser muito se vemos com bons olhos.

Passaram-se as horas e as paisagens. Ora gramíneas e carnaubais, ora caatinga, ora mata, enfim praia. Eu nunca tinha prestado atenção nisso! Outra lição: Meus olhos enxergam melhor com o tempo e sempre posso ver o que não via antes. Que medo!

Parnaíba, Luiz Correia e uma estradinha até Barra Grande, chegamos. Nós já conhecíamos o lugar e a nossa pousada, Pontal da Barra. Daquela vez só iríamos passar mais tempo e estávamos levando a família. Eu tinha no meu íntimo certo medo de ficar entediada. Era muito mar e quase nada pra fazer por muitos dias. Eu que sou tão tão agitada… Mas que nada, passaram-se 13 dias e o tédio passou foi longe. Mais uma novidade: Eu mudei.

Todos os dias, a mesma rotina, alterada uma vez ou outra, por um passeio ecológico. Todo dia era acordar as 9 (o que é um milagre pra mim, mas eu posso fazer), tomar café com beju e cuzcuz, ir pra praia com a Nina, com piscina de plástico, protetor solar e rede, encher a piscina gigantesca de água do mar com um balde(malhação danada), esperar passar meio dia pra tomar a primeira cerveja, comer um pargo inteiro frito, camarão e sururu, andar uma hora na areia fofa da praia de preferência rezando um terço, as 5 horas da tarde comer caranguejo até não aguentar mais, ver o por do sol, tomar banho no quarto e quem sabe até namorar, e depois ir dar uma volta, jantar nos 2 ou 3 lugares bons que temos por lá, voltar pra pousada num silêncio sepulcral, dormir feito um anjo. A rotina pode ser agradável, saudável e feliz. Mais uma lição pra mim.

E não para por aí. Descobrir que posso tomar várias cervejas sem embriagar, sem ter dor de cabeça, tudo é uma questão de clima bom, que posso ficar sem carne tranquilamente, que rezar fazendo caminhada me dá milhares de idéias, que não ter nada pra fazer me faz descobrir coisas maravilhosas sobre mim mesma.

Sem pensar nem criar problemas, consegui reuni meus irmãos na paz do Senhor, me dei conta da generosidade do meu marido, do tanto que amo e admiro minhas filhas, do tanto que a babá é fundamental e digna de reconhecimento, que posso viajar em família sem estresses, sem embate, sem DR. Discutir relação nas nossas viagens era uma coisa básica (Já dei tanto pití que Deus me livre!), mas posso viver sem isso. Posso desligar de tudo, tudo mesmo. Eu que sou adepta de salto alto posso usar havaianas todo dia e tomar banho de chuveiro gelado. Um banho de água doce é um luxo em terras praianas e eu nem sou tão baixinha assim. Menos é mais. Mais lição pra absorver.

Os dias passaram rapidamente, e com a bagagem repleta de novas idéias e energia boa, a pele dourada e os pelos louros, chegou o dia de voltar. Na estrada de volta pra Teresina, comprei pitomba e guabiraba, umas frutinhas silvestres maravilhosas. Vou plantar umas arvores dessas lá na casa de Itaipava.

Nas noites em que passei lá, sonhei muito, sonhos místicos, premonições, sensações e me revelei uma mulher poderosa, forte, uma cigana, bruxa, abençoada pelos dons femininos e pela força da fé. A lição dessa parte é que Deus mora em mim, mas é preciso rezar mais, ter momentos de introspecção e conexão com algo superior diariamente.

Hora de ir pro aeroporto, cabeça boa e malas cheias de roupa suja de areia e sal. Medo de avião, um pouco. Mas por incrível que pareça, o piloto da volta foi de uma destreza absurda, escapando das nuvens carregadas e pousando sem turbulências. Fiquei mais confiante no talento dos pilotos. Aquele troço é seguro.

Dia a dia normal, a vida doméstica com toda sua força, marido e eu voltamos ao trabalho, discussões e cobranças habituais em família e fora dela, novas contas pra pagar, certa preguiça de malhar, já me sinto gastando o que ganhei. Mas como ainda tenho alguma reserva, creio que aguento chegar bem até as férias de julho.

RESPOSTA AO TEMPO

Novembro 26th, 2009

De Patricia Mellodi

Sinceramente, eu digo sem a menor falsa modéstia: Só irei dar resposta a essas especulações, por que o Piauí realmente me interessa. Pois tenho dado provas concretas e constantes da minha dedicação e respeito. É só prestar atenção nos meus atos e ações durantes esses 15 anos no Rio de Janeiro, eles dispensam qualquer comentário.

Eu respondi a piadinha velha e de mau gosto do Agildo Ribeiro com a crônica “Parem de falar mal do Piauí”, pois tive bons motivos além do óbvio, o de me sentir ofendida. O meu marido, Márcio Trigo, como diretor de criação do Domingão do Faustão, a meu pedido e por vontade própria, é quem tem sugerido pautas com artistas do Piauí no Faustão. A exemplo de Maria da Inglaterra, Amauri Jucá, Dirceu Andrade, Patricia Mellodi, dentre outros, como divulgação de livros, divulgação de eventos e etc. Porém, que fique claro que não é nenhum favor divulgá-los, aliás é um prazer, uma obrigação moral e afetiva, pois todos têm merecimento de sobra. Aliás vocês viram a retratação? Que bom.

E não falo isso pra ganhar votos, pra me gabar ou coisa parecida, pois não é do meu feitio e eu não preciso disso. Aliás, acho muito feio, sem classe mesmo, quem fica explanando seus gestos. Mas é necessário, prestar contas, dizer a vocês que eu faço a minha parte, tenho certeza e consciência disso. Agora, se acontece uma coisa desagradável como a que aconteceu, eu me sinto na responsabilidade moral de me posicionar, de dizer que discordo de tal evento. Embora prefira mesmo falar bem, elogiar, engrandecer, levantar a bola como sugeriu o Joca Oeiras na sua “Carta aberta à Patricia Mellodi ou Falem Bem do Piauí”. O Joca é um paulista oeirense apaixonado pelo Piauí.

Torci e vibrei como qualquer um e sofri e resmunguei como uma pessoa que deseja ver sua terra bem vista e bem quista. Mas as coisas tomaram vultos e proporções maiores. A imprensa divulgou meu texto dando a ele amplitude, porém trouxe no seu volume de leitores algumas pessoas que fizeram o favor de levantar dúvidas a respeito da minha moral e do meu respeito ao Piauí.

Divulgaram um vídeo que eu coloquei no you tube com um trecho cortado do meu show (que não foi no Piauí, mas foi exatamente igual ao que eu fiz no Theatro 4 de setembro no dia 24 de setembro de 2009), onde falo que se eu tivesse nascido no interior de São Paulo teria sido mais fácil. “- Mas a coitadinha foi nascer logo no Piauí! “

É preciso que se veja a coisa inteira pra se ter noção correta, quem REALMENTE foi ao show sabe do que eu estou falando. Um pedaço editado pode sugerir milhões de coisas. Não é preciso ser da imprensa pra saber disso.

Eu fazia ali no vídeo, um personagem vestido e incorporado de cigana, que conta a história da Malu Magalhães, nova estrela brasileira, que fez sucesso aos 16 anos, com a mesma idade que eu comecei a cantar, mas ela teve a “sorte” de nascer no interior de São Paulo e a Patricia Mellodi no Piauí.

O que eu quis dizer, é que ela não precisou sair de casa pra ser sucesso, e eu sim, ela virou um fenômeno em um ano, e eu há 20 anos dou um duro danado e ainda não tenho o reconhecimento que gostaria e merecia.

Era uma ironia a mim mesma e não ao Piauí, era uma ironia a minha carreira, a maneira que o sucesso acontece, a forma que a manipulação de mídia se dá, ao preconceito sim, que se tem com quem é do Piauí, mesmo com uma artista talentosa como eu. (Desculpa a ausência de modéstia, mas eu tenho talento sim, desde muito cedo, está mais que provado.)

E a cigana fecha o texto do Vídeo: “- E esse caminho vem sendo construído, pedra sobre pedra, tijolo por tijolo, canção por canção…) A Patricia desmonta o personagem e canta “Sem amor”. Deu pra entender?

Mas uma pessoa mal intencionada se utiliza do meu vídeo pra tentar desmerecer a minha indignação e defesa. Desculpa amigo, você não vai conseguir, pois mesmo que todos acreditem nessa besteira, nesse trecho de vídeo editado, eu continuarei fazendo o que sempre fiz, defendendo e representando o meu estado, seja ele bom pra mim, ou não. “Cantora falsa moralista ironiza o Piauí”, é demais! Cuidado com as palavras.

Nunca fiquei esperando (embora desejasse), o reconhecimento do governo, das pessoas do Piauí ao meu trabalho, me preocupei sempre muito mais em fazer, em trabalhar, em divulgar, dei sempre muito mais do que esperei receber, sempre foi assim, e não vai mudar.

Já sofri muito por não ter em casa o que tenho na rua, mas não esmoreci, nem me revoltei contra a minha família, aceitei e esperei a resposta ao tempo. Mas verdade seja dita, a imprensa do Piauí sempre enxergou o meu valor, o que pra mim foi uma motivação. Quem dera que essa imprensa fosse do Interior de São Paulo! Eu estava feita. Mas não vai se utilizar das minhas palvras contra mim! Olha lá!

Hoje gozo de respeito, de fãs e admiradores, e até de pessoas com sentimentos menos nobres, por causa única e exclusivamente do meu esforço, talento e trabalho. E por que não dizer, por que represento com dignidade o meu estado do Piauí. E assim será sempre.

Moro e vivo fora, não faço parte do dia a dia, acho que descobri o Piauí por olhar e observar a distância, as coisas fizeram mais sentido, mas faço parte do todo, do todo que envolve também os tantos exilados e apaixonados. Que o diga meu amigo talentoso e batalhador Emerson Boy.

Estou indo passar 15 dias nas férias com 10 pessoas do Rio em Barra Grande. Eu poderia ir pra qualquer lugar do mundo, mas vou pro Piauí. Por que será?

ps. Não me tomem por uma idiota egocentrica, soberba e vaidosa. É que foram cutucar a onça com vara curta, deu nisso!

PAREM DE FALAR MAL DO PIAUÍ!

Novembro 17th, 2009


Sou fã de todas as manifestações do humor, piadas, caricaturas, charges, comédias, enfim, considero o humor o supra-sumo da inteligência, pois nos desperta pras coisas mais sérias através do riso. E mesmo sabendo e considerando o fato de que muitas vezes o humor é cruel, pois tem sua matéria prima nas nossas falhas, nossos erros, nossos defeitos de nascença, acho que piada tem limite. E onde mora esse limite? Difícil, pois cairemos num lugar delicado que é o bom gosto. E gosto cada um tem o seu. Mas uma coisa é certa, se é repetitivo, afeta a alma, destrói, desanima, rotula, não pode ser humor do bem. O verdadeiro Humor vem inusitado e cutuca a ferida, mas na piada vem embutido respeito, às vezes até mesmo admiração, pois ninguém faz piada com o que não se considera. Só tem graça se nos diz respeito.

Não há nada mais chato que piada velha, cansada de guerra, que todo mundo já conhece o final. Essa história de sacanear, (perdão da palavra, pois não consigo achar outra) o estado do Piauí é do tempo do onça, é coisa de gente velha (no mal sentido) e desinformada. Posso fazer uma lista desses homens do humor que contribuíram pra consolidar essa imagem ruim sobre o Piauí, um dos mais bem sucedidos no intento, é o Juca Chaves, que deu melodia ao avacalhamento. Mas pra compreendê-los melhor, por respeito aos seus trabalhos e a história, tento ambientar-los no tempo e no espaço. Chego à conclusão de que eles são velhinhos, são do tempo do Piocerão, PIAUÍ, CEARÁ E MARANHÃO, os estados mais pobres do Brasil. Só que conseguiram parar de fazer piada de mau gosto com o Ceará, com o Maranhão, mas continuam pegando no pé do Piauí por pura ignorância, (será que burro velho não aprende?), pois em muitos aspectos, incluindo saúde, educação moradia, PIB, o Piauí dá de dez, e não para de crescer. Mas pra muita gente, quebrar paradigmas é perder o chão, ou a piada.

E o que me parece pior é ver jovens caindo na esparrela de confiar na opinião dos sábios anciões. Continuam a tradição falando mal do Piauí até o fim. Mas eu não vou por a culpa só nos homens do humor, vou à diante. A difamação é generalizada. A imagem do Piauí é ruim mesmo, embora lá a gente pense que seja diferente. Temos a ingenuidade de acreditar que podemos ganhar o Rio, São Paulo e muitos outros estados com o nosso carisma, nosso talento, e que trazer na identidade Made in Piauí não nos seja um problema. Ledo engano. Eu que moro fora há 15 anos e sofro com o pré julgamento depreciativo na pele e carrego nas costas o peso de ser do Piauí, posso falar de cadeira. E embora goste muito e respeite a cidade em que vivo não posso me fazer de rogado, eu sinto, eu vejo.

Quando uma modelo linda faz sucesso e fala que é do Piauí, ninguém acredita, quando uma escola de Teresina tem o melhor resultado do Enem, dizem que foi engano, roubo, quando uma cantora começa a aparecer vem um caminhão e passa por cima questionando sua qualidade, seu valor, quando um humorista vem do Piauí, sofre perseguição, maus tratos, quando uma atriz batalha e consegue bons papeis, têm alguma coisa errada… Se eu for retratar tudo o que já vi, não acabaremos hoje. O Piauí está associado ao atraso, à feiúra, a pobreza cultural e socioeconômica. Por mais que mostremos que não é bem assim, vale mesmo a velha imagem deturpada. Parece que temos a marca de Caim. Por isso valorizo demais os que são vitoriosos diante desse quadro e invejo os que ficaram em casa protegidos.

O mais triste é que diante de tanto achincalhamento configurado, nós e nossos filhos vamos esmorecendo, deprimindo, acreditando que somos feios e pobres, que não temos direito a respeito, admiração, sucesso, fama, que somos condenados ao ostracismo e ao papel de palhaço! - O quê que é isso! Me respeite seu moço! Eu existo!

Parem de falar mal do Piauí! Já perdeu a graça! Eu não vou dizer que lá o máximo, que a cultura é a mais rica, que o ensino é o melhor, que nossos políticos são um exemplo, que todo mundo é lindo, que o clima é ameno, pois eu teria primeiro que fazer um estágio na Bahia (adoro a estima deles), mas que nós somos especiais somos, e quem não tiver seus defeitos que atire a primeira pedra.

E agora, não por bairrismo, mas por ser fã da inteligência e do humor, eu dou uma dica: Leiam, escutem, se informem, conheçam o Brasil, visite o Piauí antes que ele vire a Dinamarca.

CHOQUE DE REALIDADE

Novembro 10th, 2009


Patricia Mellodi

Depois de viver um pouco, chego à conclusão que o ser humano precisa de vez em quando passar por um choque de realidade. Precisa levar um susto, um chifre, passar um aperreio, fome, medo. É preciso que aconteça qualquer coisa inesperada e aparentemente desagradável pra que a pessoa volte ao prumo. É como levar uns dois tapas na cara pra acordar. Digo isso por observação e por experiência própria.

Como não é bom apontar os outros, melhor começar falando de mim. Eu sempre fui vaidosa e megalomaníaca e minha doença sempre foi alimentada de todas as formas, principalmente através de elogios e oportunidades, eles são o meu fraco. Certa época, toda vez em que tinha uma oportunidade melhor no trabalho, ou uma simples perspectiva, esbanjava arrogância com ares de vencedora. Sempre que achava que estava segura numa coisa, tratava rapidamente de me sentir a última coca-cola do deserto, e com o nariz empinado bradava auto-elogios e lições de como fazer dar certo, magoando meus amigos, meus amores. Mas quanto maior era o voo, maior o meu estabaco!

Observando as pessoas mais próximas, confirmei minha teoria. Bastam dois ou três acontecimentos positivos, pra esquecermos completamente de onde viemos e pelo o que já passamos. Veja a minha empregada, quando veio me pedir emprego, parecia faminta, humilde, desesperada por um trabalho. Confesso que apesar dela não corresponder as minhas exigências, senti pena e a contratei. Menos de um ano depois ela estava transformada. Dando ordens em mim, preguiçosa feito um gato de hotel, faltando descaradamente ao emprego. Custei, mas mandei embora, lógico, e ela me disse: - Oh Dona fulaninha, o que vai ser de mim sem a senhora! Dane-se! Pensasse nisso antes. A demissão era necessária pra aquela criatura, didático.

Uma prima minha que beirava os quarenta, já meio desesperada com seu relógio biológico, de repente casou com um cara inteligente, trabalhador e apaixonado. Ela não tinha grandes atributos, mas no geral dava pro gasto. Um tempo depois do primeiro filho, ela falava pra quem quisesse ouvir: - Marido só serve pra carregar sacola e abrir vidro de azeitona. (parece piada, mas não é!) Tratava o pobre feito um cachorro, vivia de mau humor, com enxaqueca. Resultado: Levou um chifre e um fora fenomenal! Agora ela chora, manda recado por todo mundo que quer voltar, e ele nada. Mas fala sério, ela mereceu!

Ser humano é tudo igual, não pode encher a barriga um pouco que já ganha forças pra discursar, não pode ter um pouquinho no banco que já considera o amigo de anos, ralé, não pode nem receber muito amor e carinho que já começa a fazer apostas altas demais, a colocar o amor na roda.

Não importa o credo, a raça, a cor, o sexo, a posição social, é tudo a mesma coisa.

Depois de identificar essa peculiaridade humana, inclusive na minha pessoa, pois não fujo a regra, resolvi fazer confrontos com a realidade diariamente pra não perder a referência. As vezes vacilo, mas sempre me confronto. É melhor ficar ligado pra não virar um babaca só por que ganhou uma mariola, e muito menos se transformar num insensível por que perdeu a necessidade.

Me obrigo a pensar todos os dias nos altos e baixos, na riqueza e pobreza de que pode ser feita a vida de uma pessoa só. Lembro o resto de perfume que tinha que durar, o batom que raspei até o talo, a pasta de dente que espremi incansavelmente, o bloco dentário que colei com superbonder, os yakisobras que comi e, aqueles amigos de sempre. E no espelho digo: Eu não posso me esquecer disso nunca.

Faço de vez em quando compras em mercadinhos bem apertados, com pouco dinheiro que é pra nunca esquecer como é contar moeda, (digo contar mesmo, os centavos), aproveitar promoção, como é não poder comprar certas coisas básicas como margarina, como é ter que dirigir um carrinho de supermercado vazio com prudência e gentileza, repetindo a cada segundo: - Com licença senhor, perdão senhora.

Tento não ficar cega por ganhar um elogio. Aceito desconfiando. Elogios e oportunidades são meu fraco. Alerta vermelho nessa hora. Se vier coisa boa, eu vou com calma, pode ser alarme falso, trato de ficar mais perto dos meus amigos pra não vacilar. Às vezes pareço não valorizar o que me acontece profissionalmente, mas não é isso. É que eu não posso cair de novo em tentação e começar a me achar a tal por causa de um convite, um fã, um dinheirinho a mais. Tudo hoje, amanhã pode ser o contrário.

Penso que tenho que me cuidar e cuidar do meu amor, pois as gostosas estão por aí, e elas não são burras nem idiotas. Tem gostosa super gente boa, delicada, inteligente, culta e independente. Isso é muito terrível, mas é real. É melhor não colocar pra jogo se não quero perder.

Mesmo tendo empregada, faço faxina, lavo roupa, cuido de filho, aprendo a fazer comidas gostosas, criativas e baratas, pois é preciso saber ter e não ter. Se alguma coisa falhar, eu faço uns bolos pra fora.

Forço a barra pra não perder a memória e a inteligência, mas quando alguma coisa vem me tentar eu lembro da minha avo Iaiá:

- Esse aí, tem um bode amarrado num pé de caju e pensa que tem uma fazenda!

ME DEIXA CHORAR!

Outubro 27th, 2009


Patricia Mellodi

Com essa febre de felicidade obrigatória, sofrimento zero, lei do menor esforço, eu me sinto até constrangida de ficar triste, de curtir uma fossa.

Dizer que está triste, deprimida, é quase dizer que matou alguém, que tentou suicídio, que tomou coca-cola normal.

Mas a verdade é que de vez em quando me dou conta de que tenho razões pra chorar. Aliás, tenho motivos o suficiente pra verter um tsunami.

Com os óculos de leitura passo a vista ao redor de mim e noto rugas, não reconheço a minha imagem e o cenário não é exatamente uma maravilha. Entro numas. Aí quando estou curtindo aquela autopiedade prazerosa, pinta uma amiga do bem pra encher a minha bola, pra me dizer que sou linda, talentosa e que minha família é maravilhosa, que eu só tenho razões pra agradecer.

Tenha santa paciência, me deixa chorar!

É muito chata essa mania de querer por os outros pra cima o tempo todo! Esse papo de pensamento positivo é um saco! E o pensamento real? A verdade rasga, dói. Ninguém te diz: - Chora, chora mesmo, você tem motivos!

Eu que mesmo alegre defendo o direito de chorar de tristeza e autopiedade, já me sinto com medo de mergulhar nas minhas lamúrias e afastar os amigos em três parágrafos, e me pego rezando pedindo perdão por escrever assim.

Mas como diriam os filósofos pessimistas, a tristeza só existe pra quem pensa. Não existe depressão pros que levam a vida na superfície. E como eu não sei fazer nada no raso, que seja!

Não estou de TPM, não cortei o cabelo, nem engordei além do normal, só parei pra observar a vida. E choro. Choro pelos planos falidos, pelo o inimigo íntimo, pelos medos, pelos medíocres, pela celulite, pela perspectiva turva, pelo tempo que nunca mais vai voltar…

E não me venham com peninha, pois só quem pode sentir isso de mim, sou eu mesma! Pra qualquer um a minha vida é uma fotografia extraordinariamente perfeita!

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INCONFESSÁVEL

Julho 29th, 2009

De Patricia Mellodi

É muito difícil chegar a esse nível de sinceridade, está além das minhas possibilidades. Estou hoje rompendo um paradigma, dando um salto com relação à aceitação de mim mesma. Apesar de ser hoje um ser humano mais evoluído, recuperado espiritualmente, e de jamais me imaginar nessas condições que vou relatar, eu não posso negar o que já fiz.

Eu sempre me apresento de maneira doce, engraçada, sociável, mas hoje não, tenho uma revelação dura, cruel e arriscada sobre a minha pessoa. Alguns talvez não entendam, torçam a cara ou o bico pra mim, mas o jogo da verdade se faz necessário em função da minha disciplina e obediência aos exercícios propostos pelo meu mestre, Professor Paschoal, o mentor da oficina literária que faço parte.

É com muito pesar, vergonha e estranheza, que confesso: Eu já matei uma galinha. É, eu matei, e matei sem culpa, sem sentimentos, movida única e exclusivamente pela minha necessidade de afirmação.

Naquele dia eu senti que nada ia ser como antes. Eu nunca mais iria precisar de nenhuma mucama pra me alimentar, e surpreenderia a todos. Embora fosse quase uma criança, já demonstrava meu talento culinário nos cuzcuz e bejus que preparava, mas queria tocar fundo no estomago daquele que me gerou, fazendo o seu prato predileto.

Pelos fundos da casa fui até o quintal, passei os olhos de águia em revista e escolhi de longe a minha vítima, a mais desatenta, vermelha e gordinha que vi. Ela era perfeita. Corri pelo quintal aos gritos e cacarejos da galinácea presente e consegui alcançar o meu alvo, a galinha ruiva.

Segurando a pobre pelos pés de cabeça pra baixo, fui pra cozinha. Na pia já estavam os meus utensílios: uma faca afiada, uma tábua de carne de madeira e um pequeno pote pela metade de vinagre. No fogo uma chaleira fumegando. Segurei firmemente à ruiva, despelei um pouco do lado direito do seu pescoço e a imprensando contra a tabua, passei a faca com toda firmeza. A bicha se debatia forte, gritava, mas eu friamente não me abalava, continuava o corte. Atingi a veia em cheio e virei seu pescoço para o pote, misturando o jorro do seu sangue ao vinagre. Em segundos ela finalmente se aquietou e me deu paz para continuar meu serviço.

Joguei a água quente que fervia na chaleira no seu corpo, depenei, limpei os canhões (pelos encravados), deixei ela bem lisinha. Abri seu peito, fiz a autopsia perfeita como uma exímia legista, ou melhor, cozinheira. Separei os miúdos, cortei o corpo em partes e temperei com ervas e vinho. Reservei por algumas horas.

Mais tarde refoguei com alho e cebola, cozinhei por duas horas, pois galinha caipira demora a ficar macia, e quando estava bem cozida, despejei na panela o sangue misturado ao vinagre. Em minutos estava pronta minha galinha à cabidela.

Meu pai comeu de lamber os beiços, a empregada me odiou por dias a fio, mas eu nunca me livrei da culpa deste crime inconfessável e delicioso.

Um dia pra ficar na memória

Julho 14th, 2009


De Patricia Mellodi

Já tinha me conformado em assistir pela televisão o show do Roberto no Maracanã. Ir pra arquibancada nem pensar! Seria mais confortável e não menos emocionante ficar no sofá da sala, curtindo aquele que embalou vários momentos da minha vida, até àqueles em que eu não estava presente em corpo, mas planejada em alma.

Pra falar a verdade, nem estava pensando muito no show, pois tenho horror à multidão. Mas na véspera me bateu uma culpa de fã: - Como eu não vou ao show do Rei? Eu devo tanto a ele! E ando precisando tanto chorar! E mandei ver no twitter: “- Fico pensando no show do Roberto amanhã que eu não vou. Só me resta assistir em casa chorando muito…” Escrevi aquilo num fim de noite sem mais expectativas. Foi só um desabafo twittanesco. Dormi.

Na manhã seguinte, sábado, havia um recado pra eu retornar a ligação pra um tal de Hélio. Helio? Só conheço três: O Helio De la Peña(que nunca me ligaria), o Seu hélio que digita etiquetas de mala direta pra mim, e o Hélio marido de uma amiga, a Roberta, ambos trabalham na TV Globo. Só podia ser ele.

- Alô, Hélio?!
- Sim.
- Hélio, é Patricia, você me ligou?
- Liguei sim. É verdade que você vai assistir ao show do Roberto pela televisão chorando?
- É verdade, eu não comprei ingresso!Sei lá…
- E se eu te disser que tenho dois ingressos VIP pra assistir do gramado, aquele lugar bonzão?
- Ah, eu não acredito! É claro que eu quero!
- Então as sete e meia eu passo pra pegar vocês.

Foi o poder da amizade se manifestando através do twitter! Combinação fantástica e moderna. Ingresso vip Pra ver o Rei e carona, é sorte demais!

O Botafogo jogando na raça, mandando ver num glorioso 2×1, mas eu nem sequer tinha ânimo pra olhar pra TV, só queria estar linda e preparada pra todas as emoções daquela noite.

Apesar de estar de capa preta, botas, num visual clássico de inverno, caprichei numa camiseta sobreposta com um laço de paetês branco bordado. Eu não poderia deixar de brilhar, afinal, não estava vestida nem de branco, nem de azul. E minutos depois: - Eles estão lá em baixo esperando.

Abraços, agradecimentos insistentes, transito e enfim, chegamos ao Maracanã, entrada gramado azul. Mulheres de todas as idades e estirpes. Casais que não saem de casa há muito tempo, reconheci pelas teias, comitivas e excursões de vários lugares. Mulheres vestidas de casaco de pele, brilhos e brocados de me fazerem inveja. Chiquérrimas nos seus saltos agulhas, botas maravilhosas, algumas de tênis, mas todas com estilo e impecáveis. Imagina ir ver o Rei num modelito básico! Nunca vi tanto rosto repuxado de plástica, tantas velhinhas desinibidas e alegres, tantos filhos e maridos carinhosos, tantos amigos de terceira idade juntos, uma verdadeira irmandade da “coroa”.

A fila andou relativamente rápida e já estávamos no centro do santuário do Futebol, mas a bola era um microfone, e o craque era o Rei Roberto Carlos. De cara ao entrarmos no gramado recebemos uma capa de chuva, pois o céu vermelho ameaçava precipitar. Pessoas transitavam procurando seus lugares, fotógrafos atrás de famosos, mulheres desfilavam seus decotes na área vip, políticos, artistas, jornalistas, músicos, uma badalação geral. Mas o mais emocionante na verdade era olhar pra trás e ver a multidão que se apinhava na arquibancada. Aquele sim era um público animado, cantando, fazendo a “ôla”, e acendendo luzinhas, isqueiros, celulares, o que fosse pra abrilhantar mais ainda o show, mesmo antes dele começar, somente incitados pelo animador e ator Eri Johnson.

Uma moça vestida com uma camiseta escrito produção nos perguntou se estávamos no nosso lugar pois já ia começar o show. E de repente: - Atenção o show vai começar. Com vocês O Rrrrrei Rrrrrrrrroberto Carrrrrrrrrlos.

Dali em diante mesmo sem tomar uma gota de álcool eu já estava embriagada. Ele entra no palco num calhambeque azul, desce, fala as mesmas palavras de sempre e canta emoções. E enquanto caía uma chuva fina, discorreu por suas idiossincrasias e canções. Eu já estava em prantos lembrando do primeiro show que assisti dele e sentei na arquibancada C do Estádio Albertão em Teresina vestida na cueca do meu irmão por falta de calcinha na casa da minha tia. E assisti de tão longe que nem o binóculo foi suficiente, só consegui ver direito uma gravata azul de paetês que ele usava. Mas agora não, estava ali tão pertinho, na área vip.

Enquanto os seguranças lutavam pra conter o público que invadia os limites do palco, e os mesmos seguranças fotografavam e filmavam o Rei cobrindo a nossa visão, ele cantou lady Laura, Cachoeiro, Nossa Senhora, mulheres baixinhas, Você foi, caminhoneiro… Mas nessa hora nem São Pedro aguentou e chorou um temporal em cima de todo mundo. As pessoas tentavam vestir suas capas de chuva na pressa, mas não eram suficientes. Muitos fugiram pras marquises das arquibancadas laterais, e eu, embora muito fã, também fugi. Fiquei assistindo do telão e ouvindo mal, mas o suficiente pra não perder o clima.

Passei abrigada o tempo de três músicas, e quando a chuva deu uma trégua, eu voltei e voltei pra ficar. Mas não havia mais o meu lugar. O público da geral excitado, pouco se importou com a chuva, e enquanto alguns Vips se protegiam do aguaceiro, o povo tomou a beira do palco tornando o show muito mais emocionante e quente. E a arquibancada fez sua conexão com o gramado. Todo mundo de capa, cantando mais e mais sucessos numa só voz.

Quando ele cantou meu Irmão camarada sem o Erasmo, me incomodei um pouco, achei um absurdo, mas fui surpreendida por uma imagem no telão. Era ele, o Tremendão, interrompendo a música, reclamando sua presença como mandava o roteiro e tão emocionado como nunca vi. Fez uma linda declaração de amor e entrou no palco tremendo literalmente. Depois entrou a mana Vanderléa, e juntos os três mostraram a força da amizade e do tempo.

Roberto continua o show só, canta que é preciso saber viver, apresenta seus músicos, o Paulinho, o Paulinho e o Paulinho e clama por Jesus Cristo, enquanto velhinhas, jovens, homens e mulheres entram em catarse dançando e cantando todos molhados e felizes. Ele joga para o público milhares de flores beijadas e declara: Como é grande o meu amor por vocês, com explosões e o céu coberto por fogos dourados. E eu amei muito mais o Rei.

Na saída às pessoas se escoravam umas nas outras com medo de cair nas poças de água, a maquiagem toda borrada, calças, casacos e sapatos encharcados, um espirro ali, uma tosse acolá, mas a certeza de que foi um dia pra ficar na memória.

CRIADA PRA DAR CERTO

Junho 26th, 2009


De Patricia Mellodi

Sou uma moça de boa família, formação religiosa rígida, com princípios morais claros e de bom coração. Desde muito pequena fui educada pra organizar, cuidar e embelezar tudo o que está ao meu redor. Antes mesmo de a adolescência chegar eu já sabia fazer crochê, tricô e tapeçaria. Aos nove anos fiz um curso de corte e costura e ganhei o presente mais caro de meu pai: uma máquina Singer modelo Zig Zag.

Meu interesse pela cozinha sempre foi enorme. Aprendi muito pequena a fazer arroz, feijão, bife, ovo, macarronada, bolo de cenoura e bolo de sal, apesar de ser sempre expulsa da cozinha pela empregada, que via seus serviços ameaçados pelo meu talento.

Tem gente que não acredita, mas sou daquele tipo que fez curso de datilografia, máquinas manuais e máquinas elétricas. Digito com todos os dedos. Sei fazer recibo, requerimento, cartas comerciais de toda natureza. Sempre cogitei no meu íntimo a possibilidade de trabalhar num escritório como secretária, pois tenho vocação pra ser braço direito.

Fui criada por uma tia enfermeira, que me ensinou detalhes da sua profissão, por exemplo, como fazer uma cama com perfeição, dar banho em doente, preparar chás, infusões, a fazer o suco V8(com todas as vitaminas), a cuidar de umbigo de recém-nascido e muitas outras coisas. Conheço os remédios, os alimentos e seus nutrientes, as doenças e sua cura. Sou capaz de clinicar casos comuns, pois sou uma leitora de bulas profissional e sei reconhecer certas doenças pelo cheiro.

Essa mesma tia me ensinou a colocar uma mesa com classe, usar os talheres e copos adequadamente, usar perfume de forma discreta, a não usar sutian preto com blusa branca, falar baixo, não fazer fofoca, não pegar nos pés durante uma conversa, se relacionar bem com os menores, fazer bainha, chulear, pregar botão e, conservar, mesmo na intimidade, certo pudor.

Eu me considero uma moça preparada, criada pra dar certo, mas ainda não dei, não entendo por quê!